‘Há espaço para a Selic baixar mais’, diz Paulo Skaf na rádio Jovem Pan

Agência Indusnet Fiesp

Em entrevista ao Jornal da Manhã, da rádio Jovem Pan, na manhã desta quinta-feira (12/07), o presidente da Federação e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp e Ciesp), Paulo Skaf, comentou a redução em meio ponto da taxa Selic, de 8,5% a.a para 8% a.a, anunciada na véspera (11/07) pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC). É a oitava redução consecutiva da taxa.

Skaf conversou com os âncoras Anchieta Filho e Patrick Santos e sugeriu medidas mais lineares para incentivar aquecimento da economia brasileira.

Leia aqui a transcrição na íntegra ou clique no player para ouvir a entrevista (disponível apenas para quem tem instalado o aplicativo Windows Media Player):

Anchieta Filho – Vamos repercutir a taxa de juros no Brasil, a menor taxa Selic da história – 8%. Paulo Skaf, chegou no ponto ideal a taxa de juros?

Paulo Skaf – Anchieta, sem dúvida, essa baixa na Selic vem desde o ano passado – nós estávamos com 12,5% e tinha uma projeção de inflação para o ano de 2012 de 5,5%. Quando começou a baixar a Selic, que nós que sempre defendemos a baixa da Selic, muitas pessoas falavam e criticavam que o governo não estava mais preocupado com a inflação, que a inflação ia subir, enfim, aqueles de sempre, interessados na especulação e nos juros altos. A Selic saiu de 12,5%, no ano passado, para 8%, a inflação que estava projetada para 2012 para 5,5% hoje está projetada em 4,5%, baixou a inflação, e esses quatro pontos e meio na Selic, para uma dívida pública de dois trilhões de reais, representam uma economia de 90 bilhões de reais, mais que o orçamento da saúde.

Eu estou lembrando isso, Anchieta [Filho], porque a memória apaga o que acontece em meses anteriores, mas eu me lembro de quando nós lutávamos para que a Selic baixasse, muita gente criticava e com argumentos falsos, tanto é que o tempo mostrou quem tinha razão.

É lógico que 8% é muito melhor que 12,5%, mas também a inflação projetada para esse ano é de 4,5%, então ainda há espaço para a Selic baixar mais – não há nada que impeça a Selic ficar com um ponto real acima da inflação, enfim, ou até equilibrada com a inflação.

Nós temos uma situação de dificuldade, a economia não  está crescendo, o crescimento este ano não vai chegar a 2%, ele ficará entre 1,5% e 2% na economia brasileira, então tem mais que baixar a Selic, precisa baixar os spreads bancários também, vocês têm sempre batido nisso, e com muita razão, os juros que as pessoas físicas, pessoas jurídicas, que as pessoas pagam no Brasil é um verdadeiro absurdo, e além dos juros há outros ´pontos que precisam ser atendidos. Mas é um bom caminho essa redução da Selic.

Patrick Santos – Quais os efeitos, até agora, dessas medidas pontuais do governo para incentivar a indústria. Qual o efeito prático dessas medidas, como a redução do Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI)?

Paulo Skaf – Eu defendo medidas lineares, horizontais, medidas que abranjam todo o setor. A indústria de transformação, toda ela, passa por dificuldade devido ao problema da competitividade do Brasil. O problema não está da porta para dentro das fábricas. Da porta para dentro das fábricas, você tem equipamento moderno, inovação, tecnologia, mão de obra formada, tem marcas, tem mercado… O problema está no custo de se produzir no Brasil. Hoje é mais caro de se produzir no Brasil do que nos Estados Unidos, na Itália, na Argentina. Então, nós temos que focar na competitividade do país.

Estas medidas pontuais não são negativas, mas fica uma impressão de que a indústria está sendo privilegiada toda hora por medidas do governo. Quando na verdade, por exemplo, se reduz o IPI para linha branca. Daí, três ou seis meses disso, se prorroga a redução daquele mesmo IPI. Aí, meses depois se prorroga de novo daquele mesmo IPI. Fica uma impressão de que estão sendo atendidas muitas coisas, quando, na verdade, muito do mesmo acaba se fazendo. Elas não são medidas negativas, mas são medidas pontuais e setoriais. Eu sou a favor de medidas horizontais: todos precisam ser atendidos, toda a indústria de transformação é importante e passa por dificuldade devido à falta de competitividade do país.

Se você pegar a fábrica mais moderna e competitiva do mundo hoje e puser ela no Brasil, e colocar energia cara, gás caro, juros altos, custo de logística caro, um câmbio que agora melhorou um pouco, mas ficou totalmente defasado durante anos e ainda continua defasado, mas melhorou um pouco, e todos esses custos, dificuldade na educação… enfim, toda essa somatória prejudica a competitividade. Qualquer fábrica aqui instalada sentiria a mesma coisa.

Então, o que nós temos que fazer, é focar em medidas que atendam a todos e que resolvam o problema da competitividade do Brasil. E no curtíssimo prazo, que medida poderia ser feita para atender de forma justa e horizontal a todos, dando crédito a todos? Alongamento do prazo de recolhimento dos impostos.

As empresas hoje, além de pagarem impostos altos, antecipam, no caso da indústria, 50 dias, em média, o recolhimento dos impostos. Ou seja, a empresa paga o imposto e só 50 dias depois, em média de vários setores, vão receber os recursos do seu cliente pela venda do produto. Isto é um absurdo! Além da alta carga tributária, a empresa tem que tomar dinheiro emprestado no mercado, pagar juros elevados para antecipar para o governo.

Então, a medida no curtíssimo prazo e que atingiria a todos, não tem a história de um setor ou outro, e nem aquele que tem crédito ou não tem crédito, todos se beneficiariam, todos os que pagam e cumprem suas obrigações, seria o alongamento do prazo de recolhimento dos impostos. Essa é a medida do curto prazo.

E no médio e longo prazo nós temos que resolver o problema da competitividade do país, tendo uma energia a preço justo, tendo gás a preço Internacional, tendo juros isonômicos como outros países concorrentes, tendo uma infraestrutura e custo de logística cabível, tendo educação para a população, enfim, essa seria a solução do médio e longo prazo.