Preços das commodities afetam o crescimento econômico, diz consultor em reunião do Cosag na Fiesp

Isabela Barros, Agência Indusnet Fiesp

Os ciclos de preços das commodities e a demanda por alimentos analisada do ponto de vista do varejo foram os temas da reunião do Conselho Superior do Agronegócio (Cosag) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) na manhã desta segunda-feira (02/09). O debate, coordenado pelo presidente do Cosag, João de Almeida Sampaio Filho, teve como convidados o sócio consultor da MB Agro, Alexandre Mendonça de Barros, e o diretor comercial de Perecíveis do Grupo Pão de Açúcar, Leonardo Miyao.

Alexandre Mendonça de Barros abriu a reunião apresentando um panorama dos ciclos de commodities no cenário internacional. Para ele, devem ser chamados de “super ciclos” períodos entre 10 e 40 anos. E as análises em torno do tema mudam conforme as referências de análise. “Se tomarmos 2011 como referência desde 1900, os preços das commodities subiram 252%”, explicou. “Desde 1950 foram 192% de alta e desde 1975% em torno de 46% de aumento”.

Barros: “Se tomarmos 2011 como referência desde 1900, os preços das commodities subiram 252%”. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Alexandre de Barros: Entre 1900 e 20011, preços das commodities subiram 252%. Foto: Everton Amaro/Fiesp

 

Como tendências de longo prazo, segundo Barros, os preços das commodities agrícolas têm tudo para baixar, enquanto os da energia e dos metais preciosos devem subir. Entre os fatores de influência desses comportamentos estão a maior industrialização e a urbanização em massa. “Por isso hoje vemos o aumento da demanda puxado pelos países asiáticos”, afirmou.

A reunião do Cosag  foi conduzida pelo presidente do Cosag, João de Almeida Sampaio Filho, ao centro. Foto: Everton Amaro/Fiesp

A reunião do Cosag foi conduzida por João de Almeida Sampaio Filho, ao centro. Foto: Everton Amaro/Fiesp

 

Diante desses movimentos, de acordo com o consultor, os preços das commodities afetam o ritmo de crescimento econômico. E esses valores tendem a cair nos próximos anos por conta do aumento da produtividade no campo. “As tecnologias serão decisivas”, explicou.

Em termos de oferta de produtos agrícolas, questões como restrições de terra, escassez de água e carência no fornecimento de fertilizantes podem impactar a produção.

Consumo consciente

Diretor comercial de Perecíveis do Grupo Pão de Açúcar, Leonardo Miyao falou sobre a demanda por alimentos no Brasil a partir do ponto de vista do varejo. Executivo de uma rede que vendeu R$ 57 bilhões em 2012, dos quais R$ 31 bilhões em alimentos, Miyao destacou que o setor tem o poder de influenciar o consumo e a produção.

“É crescente a busca por alimentos orgânicos e a preocupação com a origem e o modo de produção”, disse. “Nos últimos cinco anos, as vendas de orgânicos têm crescido a taxas de dois dígitos”.

Outra tendência forte, segundo Miyao, é a “valorização da origem e a busca por autenticidade e familiaridade” em relação à produção. “E os produtores familiares são os protagonistas desse processo”, disse.

Leonardo Miyao: valorização da origem dos produtos pelos consumidores. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Leonardo Miyao: valorização da origem dos produtos pelos consumidores. Foto: Everton Amaro/Fiesp

 

Nessa linha, os conceitos de sustentabilidade passaram a ser considerados fundamentais por consumidores e varejistas. “Incentivar esse tipo de consumo é um papel do varejo junto à sociedade”, explicou o executivo.

O Grupo Pão de Açúcar tem um programa de acompanhamento da qualidade dos produtos desde a sua origem. “Temos um trabalho de rastreabilidade e um check list de condutas junto aos produtores”, explicou Miyao.

Essas práticas incluem a atribuição de notas aos fornecedores. “Motivamos as cadeias a investir em qualidade”, disse o diretor comercial de Perecíveis do Grupo Pão de Açúcar. “Cerca de 80% das nossas compras são feitas diretamente com os produtores”.

Bananas no pé da serra

Como exemplo do impacto dessas medidas, Miyao citou o caso de produtores de bananas que há três gerações tinham por hábito plantar, entre outras áreas, no pé de uma serra. Parte da produção do grupo era frequentemente devolvida por não atingir os critérios estabelecidos pela rede, mas a identificação precisa do problema só veio com a adoção da rastreabilidade dos produtos. “Só assim, pelos lotes, descobrimos que as bananas devolvidas eram sempre aquelas plantadas no pé da serra”, disse. “Imagine o quanto essa família perdeu durante três gerações por não saber disso”.

Assim, o Grupo Pão de Açúcar tem hoje um percentual de 83% do volume de alimentos vendidos rastreado em suas 1,8 mil lojas em 19 estados brasileiros, mais o Distrito Federal. “Isso porque em alguns casos o controle de qualidade é feito diretamente nas lojas”, explicou.

Questionamento do Japão sobre vaca louca no Brasil deve obedecer à lógica comercialmente correta, diz sócio da MB Agro

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

A postura do Japão após confirmação da presença do agente causador da doença da vaca louca em uma fêmea que morreu em dezembro de 2010 no Paraná é legítima, mas deve estar dentro de uma logica comercialmente correta. A afirmação é do sócio-diretor da MB Agro, Alexandre Mendonça de Barros.

Alexandre Mendonça de Barros, sócio-diretor da MB Agro, durante reunião do Cosag/Fiesp

“É natural que surja um questionamento, mas também é muito fácil ser usado comercialmente esse tipo de problema”, alertou Barros, nesta segunda-feira (10/12), ao participar da reunião do Conselho Superior do Agronegócio (Cosag) da Fiesp.

Após receber a notícia da confirmação de proteína contaminada com encefalopatia espongiforme bovina (EEB) – conhecida como mal da vaca louca –, o Japão proibiu no sábado (08/12) as importações de carne bovina brasileira. Segundo Ministério da Saúde japonês, essa é a primeira proibição de importações de carne bovina devido à doença desde dezembro de 2003.

Barros acredita, no entanto, que o incidente não deve afetar as exportações brasileiras. “Do ponto de vista do quadro de oferta mundial, a baixa oferta de carne vermelha dos Estados Unidos tem gerado preços muito altos e isso é uma pressão em todos os países do mundo”, explicou. “Não me parece que têm muitos outros países que possam fornecer carne de qualidade abaixo dos preços norte-americanos. Então, num momento de forte matéria-prima, cedo ou tarde [o mercado] acaba cedendo um pouco mais”, concluiu.

Segundo o especialista, o rebanho de bovinos norte-americano é o menor desde 1950 e, no próximo ano, os EUA devem contar com a menor oferta de bezerros desde 1942. “No caso da carne vermelha, há um desequilíbrio sem precedentes da pecuária norte-americana, sem nenhum exagero midiático”, afirmou. “Na medida em que a arroba nos EUA vai para US$ 80, ela sustenta preços altos no mundo todo.”

O executivo da MB Agro projeta para 2013 um cenário de preço elevado para proteína animal e para a ração, mas acredita que o Brasil deve enfrentar momentos melhores. “Tivemos esse fim de ano uma recessão muito grande da oferta de soja, chegando a preços absurdos, mas alguma acomodação de preços vai vir para o próximo ano, e isso tende a melhorar um pouco as margens do setor”, completou.

Governo mais agressivo

Na avaliação de Barros, o governo foi mais agressivo ao esclarecer para o mundo que a presença do agente causador de EEB foi um problema localizado e não um caso clássico. “A postura do Brasil normalmente é mais passiva”, salientou o sócio-diretor da MB Agro. “É alguma mutação e está longe de ser um fato generalizado”, concluiu.