“Temos que ter uma visão de futuro, do dia depois”, afirma Skaf na abertura de seminário sobre desenvolvimento do Brasil

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

O presidente da Fiesp e do Ciesp, Paulo Skaf, disse nesta quinta-feira (5/11) que “temos que ter uma visão de futuro, do dia depois”, em referência ao potencial de retomada da economia brasileira. “O país é maior do que a crise. Ela passa – e muito rápido.”

Skaf falou na abertura do seminário Uma agenda positiva para o Brasil: aprendendo com práticas internacionais, organizado pela Fiesp e pelo Ciesp em conjunto com a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), referência mundial em promoção de políticas públicas para a melhora econômica e o bem-estar social. Realizado no Teatro do Sesi-SP, na sede da Fiesp, o evento tem o apoio do Tribunal de Contas da União (TCU).

A parceria com a OCDE foi feita com o objetivo de ajudar no desenvolvimento do Brasil, explicou Skaf. O presidente da Fiesp e do Ciesp lembrou que há muito interesse em investir no Brasil, mas isso só acontecerá quando for retomada a confiança. “A falta de confiança é no Governo, não no Brasil”, disse. “Estamos numa encruzilhada. Temos uma crise política que precisa ser debelada.” Skaf declarou que “neste momento de dificuldade do Brasil não pode haver outro interesse que não o do país no Congresso. Ele pode dar uma grande contribuição”.

Segundo Skaf, é preciso inverter a situação brasileira, que passa por momento de bastante dificuldade, com uma crise econômica e política. “Os negócios realmente não vão bem”, afirmou, para depois demonstrar otimismo em relação ao futuro. “Confiamos muito neste potencial do Brasil. Temos que enxergar lá na frente.”

De acordo com o presidente das casas da indústria paulista, “não é segredo o que precisa ser feito”. Skaf mencionou a quebra de paradigmas descrita pelo ministro das Relações Exteriores da Itália, Paolo Gentiloni, em evento no dia anterior na Fiesp, com resultados positivos na retomada da economia do país. E afirmou que “o Governo brasileiro não pode pesar nas costas do povo”.

Ajuste

Segundo Skaf, “o Governo tem que acertar suas contas, mas não por meio do aumento da arrecadação”. É preciso cortar gastos e desperdícios e evitar a má aplicação de recursos, disse, além de combater a corrupção e buscar eficiência. “O Governo precisa fazer mais com muito menos”, afirmou. “Recursos há”, disse Skaf. “Neste momento temos que ver de forma radical o interesse da nação. Se isso não for feito pode custar caro ao Brasil.”

Em sua fala, Skaf lembrou que no Brasil já se paga muito imposto. A arrecadação total é de cerca de R$ 2 trilhões por ano, com orçamento federal de R$ 1,2 trilhão. “A sociedade brasileira não aceita mais” aumento de impostos, disse. “Quem aqui já não apertou o cinto?”, perguntou, para dizer que o Governo Federal e os estaduais precisam fazer isso. E o Congresso não pode permitir o aumento de impostos.

Skaf elogiou o trabalho do grupo de desburocratização da Fiesp e do Ciesp, que produz resultados fantásticos. “Vamos nos desligar um pouco dos problemas de hoje para tentar enxergar o futuro. Irrita muito muito quando alguém diz que o Brasil não dá. Dá sim. É o melhor país do mundo. Temos que escolher bem e cobrar dos governantes.”

Angel Gurría, secretário geral da OCDE, disse que o Brasil está em momento decisivo. Depois de ter se transformado em potência econômica no início do século 21, está em crise e tem que voltar a ter uma trajetória de crescimento mais sólida e mais justa. Para isso, afirmou, é essencial ter setor privado dinâmico e competitivo, disposto a assumir seu papel. “É indispensável que seja parceiro-chave do Governo.” O seminário, disse, permite esse e engajamento do setor público e do empresariado.

Gurría listou como essenciais para o país a melhora do clima para investimentos e o aumento da eficiência e transparência nos gastos do Governo. Como a população brasileira está envelhecendo, disse, o crescimento não será sustentado pela expansão da força de trabalho. Cada vez mais a produtividade será o principal fator de desenvolvimento. Em sua opinião, reformas ajudariam, e citou como uma delas a do “sistema tributário oneroso, especialmente os impostos indiretos”. Depois da reforma tributária será preciso uma reforma do Governo, afirmou.

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Paulo Skaf durante seminário Fiesp-OCDE: "A falta de confiança é no Governo, não no Brasil”. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


Gurría lembrou que o Brasil não se integrou às cadeias globais, tendo a economia menos integrada entre as dos 40 países acompanhados pela OCDE. O país, disse, deixa de ganhar com o comércio exterior. Citou estudo da UFRJ para a Fiesp que destaca o efeito negativo das tarifas na competitividade brasileira. Em média são o dobro das encontradas nos Brics. É preciso reduzi-las, disse.

Outra peça fundamental é o investimento. Sua queda explica a recessão. Prioridade deve ser restaurar a confiança dos investidores. É importante, afirmou, atingir as metas de ajuste fiscal. Segurança jurídica, ambiente regulatório previsível e confiança nas instituições também são necessários para o investimento.

Gurría defendeu o aprimoramento da forma de participação do setor privado nos investimentos em infraestrutura. “Governo deve assumir sua função de facilitador de investimentos”, tornando a estrutura jurídica atrativa. Esses investimentos, explicou o secretário geral da OCDE, podem estimular o crescimento no longo prazo.

Falou também da responsabilidade do Brasil para tornar sua economia mais “verde”, por ter a maior biodiversidade do mundo.
Segundo Gurría, o Estado precisa ser eficiente e moderno, com a alocação de recursos para áreas prioritárias, como educação e saúde. E deve fazer a boa gestão orçamentária, para o que precisa medir desempenho, fazer avaliações e ter bom retorno sobre os gastos. O Brasil, afirmou, ainda pode aprender muito com a experiência de outros países.

“Os desafios são muitos, o tempo é curto, e as apostas são elevadas”, afirmou Gurría, acrescentando estar convencido da possibilidade de retomada de uma agenda positiva.

Aroldo Cedraz, presidente do Tribunal de Contas da União, disse que os problemas da economia são complexos, mas “temos demonstrado que somos um povo empreendedor”. A economia, afirmou, “é resiliente, capaz de se amoldar às contingências e se recuperar”. Em sua opinião, é preciso “discutir como fortalecer nossas instituições e direcioná-las para a inovação contínua”. Lembrou que os agentes econômicos precisam ter números confiáveis para tomar decisões. E o Brasil precisa reduzir a burocracia, que nos deixa em desvantagem. O TCE, disse, incorporou a inovação, buscando melhorar seus processos, para que sejam mais efetivos e relevantes para a sociedade. Quer ser indutor da modernização do Estado.

Sydney Sanches, ex-presidente do STF e presidente do Conselho Superior de Assuntos Legislativos e Jurídicos da Fiesp (Conjur), abriu o evento, explicando a finalidade do seminário e dizendo que espera que contribua para o desenvolvimento do país.

Participaram também da abertura do seminário Valdir Moysés Simão, ministro-chefe da Controladoria-Geral da União, e o vice-governador de São Paulo, Marcio França, além de Carlos Eduardo Moreira Ferreira, presidente emérito da Fiesp. No palco estavam ainda Guilherme Afif Domingos, presidente do Sebrae Nacional, Rafael Cervone Neto, vice-presidente do Ciesp, Abdo Hadade, coordenador da Comissão de Desburocratização da Fiesp e do Ciesp, e José Ricardo Roriz Coelho, diretor titular do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp.

O seminário

A proposta dos quatro painéis do seminário é ouvir de especialistas brasileiros e estrangeiros em política industrial, em governança pública e corporativa, em orçamento e em desburocratização o que o Brasil precisa fazer para retomar o crescimento da economia e da competividade brasileira. Outros desafios para o setor industrial e de serviços são acelerar o aumento da produtividade e assegurar melhor integração às cadeias globais de valor.

A governança na esfera pública e privada, essencial para impulsionar a poupança e o investimento no Brasil, também é tema do seminário. Em relação à eficiência orçamentária, o debate se concentra nas experiências governamentais de vinculação da disciplina fiscal ao desempenho das instituições e aos resultados.

O seminário também discute medidas para o Brasil transformar suas instituições públicas, de forma a garantir melhores resultados sociais, reduzir desigualdades e criar condições para um crescimento sustentável e inclusivo.

Sobre a OCDE

A instituição, integrada por 34 países (o Brasil não faz parte), ajuda os Governos a entender e responder às mudanças e preocupações do mundo atual, como a governança, a economia da informação e os desafios gerados pelo envelhecimento da população. A OCDE oferece aos governos material de referência para a comparação de experiências políticas, para a busca de respostas para problemas comuns, para identificar as melhores práticas e trabalhar a coordenação de políticas nacionais e internacionais.

Skaf, Gurría e Levy discutem o que o Brasil pode fazer para enfrentar a crise

O presidente da Federação e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp e Ciesp), Paulo Skaf, o secretário–geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Angel Gurría, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e outros especialistas e autoridades nacionais e internacionais discutem, na próxima quinta-feira (5/11), o que o Brasil pode fazer para enfrentar a crise.

Eles estarão presentes no seminário “Uma agenda positiva para o Brasil: aprendendo com práticas internacionais” promovido pela Fiesp em parceria com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que trará exemplos de evoluções e resoluções de boas práticas de governança pública e, consequentemente, a retomada do crescimento e da competitividade, eficiência orçamentária, ética e redução da burocracia.

O objetivo principal é ver de que forma o Brasil pode construir um novo caminho, inspirado por exemplos de países desenvolvidos e auxiliado pelos mecanismos oferecidos pela mais importante organização internacional para o desenvolvimento econômico e social.

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