Objetivos de desenvolvimento sustentável e boas práticas da indústria em seminário na 20ª Semana de Meio Ambiente da Fiesp

Graciliano Toni e Isabela Barros, Agência Indusnet Fiesp

Hora de debater práticas e metas. Com essa proposta, foi realizado, na manhã desta quinta-feira (07/06), o seminário “Exemplos de Sucesso do Setor Industrial na Implementação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável”. O encontro fez parte das atividades da 20ª Semana de Meio Ambiente da Fiesp e do Ciesp, aberta nesta terça-feira (05/06), na sede da federação, em São Paulo.

O debate foi conduzido pelo diretor do Departamento de Desenvolvimento Sustentável da Fiesp, João Carlos Redondo. E teve a participação de nomes como Grácia Fragalá, diretora titular de Responsabilidade Social da federação.

Sergio Kelner, representante do Departamento de Educação para Cidadania e Inovação Social do Governo Federal, foi um dos debatedores.

“O que é bom para a Suécia não necessariamente é bom para o Brasil, é preciso considerar as especificidades”, disse ele sobre as metas da chamada Agenda 2030 da ONU e seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). “Romper as barreiras culturais e resolver conflitos”.

Segundo Kelner, o Brasil tem “a Agenda 2030 para viabilizar”. “Temos um plano de ação e eixos estratégicos para trabalhar, como gestão e governança da Comissão Nacional para os ODS, disseminação da agenda 2030, agenda 2030 Brasil, acompanhamento e monitoramento”, disse. “Vamos criar uma câmara temática formada por estudiosos, representantes do governo e da sociedade com o objetivo de estabelecer meios de colocar em prática as metas de forma integrada”.

Nesse contexto, é preciso considerar finanças, tecnologia, capacitação, comércio e questões sistêmicas, conforme Kelner.

Assessora especial para Assuntos Internacionais do Governo de São Paulo, Ana Paula Fava destacou as ações em âmbito estadual em prol da sustentabilidade. “Elaboramos um livro digital para cada ODS, para usar como suporte de treinamento na rede pública de ensino”, disse.

Foram organizados ainda concursos em parceria com consulados como o da China para crianças e jovens. “Levamos um tema universal para as escolas públicas de São Paulo”, afirmou. “São 645 municípios no estado, cada um com os seus projetos”, disse. “O governo tem informações conectadas sobre o tema, estamos desenvolvendo uma forma de divulgação”.

A meta é fazer dos ODS “políticas públicas”. “Que esse trabalho siga atuante até 2030”.

Entre as ações nesse sentido, Ana Paula cita a elaboração de um fluxograma que ensina aos refugiados que caminho percorrer para se inserir na sociedade brasileira, uma parceria com Fundo de Solidariedade para a oferta de cursos para a população carente e a formação de um grupo de trabalho específico sobre os ODS com a Secretaria Estadual do Meio Ambiente.

“A Agenda 2030 não é uma utopia”, disse. “Com engajamento e boa vontade, as coisas acontecem”.

Diálogo entre setores

Pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária da (Embrapa), Daniela Lopes reforçou a importância de “estabelecer ambientes de diálogo entre os setores”.

“A Agenda 2030 é uma agenda aspiracional, cheia de oportunidades e desafios”, disse.

Ela lembrou que, na época de sua fundação, há 40 anos, a Embraapa tinha a sua pauta inicial de trabalho focada em pontos como o aumento da produção e a segurança alimentar. “Hoje o foco vai além e envolve a inovação para toda a cadeia produtiva”, disse. “Trabalhamos com biotecnologia, nanotecnologia, geotecnologia, automação, precisão”.

Isso sem falar no “alinhamento da Embrapa com os ODS”.  “O primeiro passo foi o alinhamento na busca da sustentabilidade agropecuária”, explicou. “Existe uma influência direta da Embrapa na erradicação da pobreza, por exemplo”.

Agora, segundo Daniela, o desafio é internalizar a Agenda 2030 na Embrapa. “Temos que identificar conhecimentos e tecnologias já disponíveis que possam contribuir para o alcance dos ODS”, disse. “Atualizar o nosso planejamento estratégico.”

Mesa de abertura do seminário sobre objetivos de desenvolvimento sustentável. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Cases da indústria

Patricia Iglesias Lemos, superintendente de Gestão Ambiental da Universidade de São Paulo, foi a moderadora do debate no painel Exemplos de Sucesso na Implementação dos ODSs.

Representante da Metalúrgica Inca, empresa de pequeno porte, Luis Bello explicou que a indústria produz peças como roscas e braçadeiras. E que, mesmo sem seguir exatamente os objetivos da Agenda 2030, trabalha com um programa sólido de gerenciamento ambiental.

“Diante do crescimento dos asiáticos no mercado, encaramos o desafio da concorrência, fomos buscar informação para trabalhar melhor, de modo mais econômico e sustentável”, disse.

Dessa forma, a Inca tem um trabalho com escolas de Mococa, onde fica a empresa, no interior paulista, para coleta seletiva. “Distribuímos kits, fazemos palestras, promovemos essa conscientização”, explicou. “Incentivamos as boas práticas e compartilhamos experiências”.

Com 69 anos de fundação, a Inca só manda “para o aterro o papel do sanitário”, conforme explicou Bello. “Também economizamos energia com o uso de biomassa, com queimadores feitos dessa forma”, afirmou. “Assim temos ganho financeiro e somos mais competitivos”.

Patricia Lemos destacou que pode ser trabalhado o fato de haver vários benefícios ambientais, ajudando a imagem da empresa.

O case de uma empresa de médio porte foi o da Micro-Química Ltda, apresentado por Claudio Hanaoka. Com 27 colaboradores, a empresa é 100% nacional e está há 32 anos no mercado. Ela começou desestruturada, disse Hanaoka, que quando foi trabalhar nela encontrou gestão improvisada. Ele pôs na cabeça que seria preciso montar uma empresa anticrise, pensando no que era importante para seus clientes. Percebeu nos sites de seus fornecedores o destaque à sustentabilidade. Havia uma resistência cultural a isso na Micro-Química, explicou.

Elegeu a área de lavagem de embalagens para começar a mudança cultural, por perceber que seria impossível fazer na empresa inteira. Dali começou a doutrinação, a troca de mão de obra, a implantação da ISO 9000. Na lavagem de embalagens, houve como resultado a economia de água. Entre os investimentos feitos está a coleta de chuva do telhado.

Hanaoka destacou que o crescimento da empresa é orgânico, sem empréstimos bancários e com investimento feito a partir do lucro. O faturamento cresceu de 2016 para 2017 (15% em volume e 30% no lucro). Houve ganho de eficiência e minimização de riscos, disse.

Coragem, resiliência, paciência, capacidade de comunicação, aconselha Hanaoka a quem for iniciar o trabalho de sustentabilidade. Ter autoconhecimento, estudar, disse, é importante, porque o tema do desenvolvimento sustentável é solitário. “E acreditar.”

Foi uma lição, disse Patricia Lemos ao comentar a apresentação de Hanaoka.

Embraer foi o case de empresa de grande porte. A apresentação foi feita por Mayara Ribeiro. Signatária do Pacto Global desde 2008, a Embraer começou em 2015 a tentar a implantação dos ODS. A empresa tem um programa de apoio a ONGs de comunidades onde a Embraer está inserida. Editais de apoio privilegiam os ODS identificados em consulta pública entre as ONGs em 2015. O plano de sustentabilidade para 2020 tem metas para todos os temas identificados, que passam a ser acompanhadas.

O monitoramento, destacou Patricia Lemos, é bastante importante.

 

Fiesp e Ciesp debatem efeitos do 8º Fórum Mundial da Água

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

Fiesp e Ciesp promoveram nesta quarta-feira (28 de março) seminário para avaliar os reflexos para o setor industrial das discussões promovidas pelo 8º Fórum Mundial da Água e as ações necessárias frente a políticas públicas e privadas para assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água, respeitando os Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis – Agenda 2030. Durante o evento foi lançado o Manual de Uso Racional de Água no Setor Industrial, criado pela Fiesp e pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Ao abrir o evento, Nelson Pereira dos Reis, diretor titular do Departamento do Meio Ambiente da Fiesp e do Ciesp (DMA), exaltou o tom inclusivo do oitavo Fórum. A garantia da segurança da disponibilidade de água para as atuais e futuras gerações, conforme o objetivo 6 dos ODS, perpassa outros ODS. É notável que não tenha se resumido a questões técnicas o oitavo fórum, abrangendo compartilhamento e outros temas.

Destacou que há 14 anos a Fiesp promove o debate aprofundado do tema e afirmou que é fundamental a interação e parceria de todos os atores envolvidos.

Walter Lazzarini, presidente do Conselho Superior de Meio Ambiente da Fiesp (Cosema), destacou que 250 milhões de pessoas morrem por ano devido ao consumo de água imprópria e que metade da população mundial vai viver em regiões sem abastecimento adequado. Lazzarini ressaltou que os ODS em alguns casos são de difícil execução, como alcançar em 2030 o acesso à água para todos, e já em 2020 recuperar e preservar fontes de água.

O maior dos desafios é conseguir cumprir esses objetivos com o escasso tempo disponível, afirmou Lazzarini.

Aprígio Azevedo, diretor de gabinete da Fiesp, também integrou a mesa de abertura. Stela Goldenstein lembrou que além da dificuldade de atingir as metas haverá riscos para a atividade produtiva caso não se consiga avançar na questão. Ter toda uma estrutura temática ligada a negócios foi novidade importante do 8º Fórum, dali saindo um compromisso empresarial pela água. Não é discussão simplesmente da área de meio ambiente, é uma discussão de todas as áreas produtivas, afirmou.

Investimento, racionalidade de uso, novos negócios, e o melhor de tudo, aumento de produtividade, são implicações dos trabalhos necessários para atingir as metas.

Rubens Naman Rizek Junior, secretário de Estado Adjunto de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, destacou que o tema da água será essencial no balizamento de qualquer decisão pública ou privada.

Benedito Braga, presidente do Conselho Mundial da Água, ressaltou a capacidade da Fiesp em entender o futuro e pautar discussões de temas essenciais para o desenvolvimento da indústria e do país como um todo.

Rafael Cervone Neto, 3º vice-presidente da Fiesp e do Ciesp, transmitiu as boas-vindas enviadas pelo presidente das entidades, Paulo Skaf. “Toda indústria tem relação intrínseca com a água”, destacou Cervone. Precisamos mobilizar as pessoas, afirmou. “Não adianta só a tecnologia.”

O primeiro painel do seminário teve como tema “Fórum Mundial da Água: Perspectivas e Desafios após o Evento”. Benedito Braga, secretário estadual de Saneamento e Recursos Hídricos e presidente do Conselho Mundial da Água, explicou que é um processo, não um evento, o Fórum Mundial da Água. No caso da edição brasileira, aos temas tradicionais foi acrescentada a sustentabilidade.

Clima, pessoas, urbanização crescente, desenvolvimento, ecossistemas e financiamento, os temas definidos como essenciais, e os temas transversais deram a estrutura temática de 300 sessões técnicas do fórum, cuja ideia é fazer a ligação dos técnicos com os tomadores de decisão. As discussões dos temas levaram a ideias muito interessantes, relatou. Ministros de 56 países participaram e emitiram uma declaração conjunta sobre o tema.

Foi o maior fórum da história, disse Braga, com 120.000 participantes. Das discussões técnicas participaram 10.000 pessoas.

Braga defendeu o aumento da capacidade de reservação para enfrentar períodos de seca mais intensa, aproveitando períodos de chuva mais forte. E fez um alerta: se não conseguirmos motivar a classe política a para importância do tema será muito difícil implantar qualquer política que os técnicos considerem importante.

Seminário organizado por Fiesp e CIesp abordou o 8º Fórum Mundial da Água. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Rubens Naman Rizek Junior, secretário de Estado Adjunto de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, relatou que participou do Fórum Mundial da Água e se disse muito impressionado com a mobilização em torno dele. Em relação ao uso agrícola da água, disse que é preciso relativizar os números sobre o consumo. No caso da irrigação, por exemplo, a maioria da água volta para a própria bacia hidrográfica de onde foi retirada. Exagera-se também ao falar em consumo de 15.500 litros de água para produzir um quilo de carne.

Lembrou que o grande reservatório é a própria bacia, o solo, e o Estado de São Paulo tem se destacado na preservação disso, com o programa Microbacias. Mais recente, de 2015, o programa Nascentes é outro bom exemplo.

Giuliana Chaves Moreira, da The CEO Water Mandate e Rede Brasil do Pacto Global, listou eventos conjuntos promovidos por ambos, com destaque para o Water Business Day, em 18 de março, durante o Fórum.

Gustavo Goretti, assessor técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, destacou a participação política no 8º Fórum. Descreveu o projeto Biomas, para mostrar na prática aos produtores como recuperar com o menor custo suas áreas. Goretti defendeu a construção de represas, apesar do impacto local, depois recuperado.

No pós-Fórum, a CNA espera que aumente a cooperação entre os setores, disse. Nas propriedades há potencial para aumento da produtividade e da área irrigada graças à elevação da capacidade de reservar água e retê-la nas propriedades rurais.

Samuel Barreto, gerente nacional de Água da The Nature Conservancy Brasil, destacou os extremos climáticos, anomalias climáticas que devem ficar mais intensas e frequentes. Outro aspecto importante é a contabilidade da água, com aumento da demanda em relação à sua oferta. O terceiro ponto é a existência somente de prognósticos negativos. A lição tirada disso tudo é que não é possível mais fazer mais do mesmo. O maior desafio é fazer um trabalho conjunto.

Em relação aos riscos para o setor produtivo, citou o reputacional e o financeiro.

Exemplos da indústria

No segundo painel, foco para a Governança da Água no Setor Industrial, com a apresentação de cases. De acordo com Rafael Cervone Neto, 3º vice-presidente da Fiesp e do Ciesp, na Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) há grande compromisso com o cumprimento dos ODS, mas especialmente os que tratam de igualdade de gênero, pois a força de trabalho do setor é constituída majoritariamente por mulheres; trabalho decente; indústria, inovação e infraestrutura; consumo e produção responsáveis; parceria em prol das metas.

Cervone lembrou a importância da água como grande influenciadora das transformações na indústria, pois sem a máquina a vapor não teria se expandido em tal escala. Portanto, é força motriz. Historicamente, os banhos de tingimento evoluíram para os corantes que se fixam nos tecidos, das cores mais claras para as mais escuras, e era possível reaproveitar os banhos com o apoio da área química em um processo mais eficiente. O processo à base de ozônio, na fabricação e tratamento de jeans, denin, conseguiu dispensar uso da água, economizando, inclusive, energia.

Além de citar alguns exemplos da indústria têxtil, explicou que na área de confecção quase 90% do uso da água não está no processo industrial, mas na lavagem da roupa. Com tecnologia desenvolvida na guerra do Iraque, os tecidos passaram a contar com biopartículas biodegradáveis e assim é possível usar mais vezes a mesma roupa sem lavar. Há empresas que já contam com camisas que podem ser usadas até 300 vezes, apesar das resistências culturais. A tecnologia aponta para roupas que não amassam e meias que também estão aptas a usos contínuos, contando com ajuda do café para eliminação de odores, ou seja, tecidos autolimpantes.

No Brasil, há predomínio do algodão, por conta do clima, e o algodão brasileiro é um dos poucos que não precisam de irrigação. Só depende de chuva, diferentemente dos concorrentes, sinalizou Cervone.

Daniela Gil Rios, gerente de Relações Governamentais da Procter & Gamble (P&G), lembrou a presença da marca em mais de 70 países, com mais de 100 mil funcionários, além de ser o maior anunciante do mundo. “Com mais de 4,6 bilhões de consumidores/dia, reunido dez marcas, e mais de 30 anos no Brasil, a P&G está presente em 94% dos lares”, disse. Em termos de inovação, 7 mil cientistas espalhados pelo mundo repensam os produtos e os investimentos chegam à casa de US$ 2 bilhões/ano em pesquisa e inovação. No Brasil se concentram 4 fábricas e 3 centros de distribuição, além do Centro de Inovação América Latina estar localizado em Louveira (SP).  Entre as metas globais para 2020, um avanço é o fato de todas as fábricas terem zerado os resíduos encaminhados a aterro sanitário. Entre outras metas, diminuir o consumo de água em 20% por unidade de produção até 2020; tratar internamente a água com o mínimo de envio de efluentes para fora da companhia; maximizar o reúso com perspectiva de aumento de 20% até 2020.

Como tendência mundial, os produtos 100% concentrados fazem diferença para o meio ambiente, reduzindo a pegada hídrica, e a quantidade de embalagens, além de neutralizar odores.

Daniela Gil Rios enfatizou um produto 100% social que se iniciou no mundo, em 2004, e, no Brasil, em 2014, com o sachê água pura, desenvolvido por pesquisadores e que atende um bilhão de pessoas que se utilizam de águas impróprias. O sachê, produzido em uma única fábrica e distribuído gratuitamente em 85 países, contém 4g e purifica 10 litros de água em 30 minutos, evitando diversas doenças e propiciando mais qualidade de vida.

No Brasil, ela citou experiência no Vale do Jequitinhonha, que agrega 75 municípios e 980 mil habitantes, 75% deles em área rural. O solo é castigado por secas e enchentes e o acesso à água é escasso. Ao citar o impacto em 9 cidades, 175 comunidades, 86 escolas rurais, com o apoio da Child Fund Brasil, houve melhora sensível na saúde e na educação.

Já o exemplo da Raízen diz respeito ao pioneirismo em integrar a produção com a distribuição e comercialização do etanol proveniente da cana-de-açúcar. José Orlando Ferreira, gerente da Qualidade Integrada da empresa, lembrou que se trata de joint-venture entre Shell e Cosan e o resultado é portfólio de produtos que levam açúcar em sua composição, passando por postos de combustíveis, indústria farmacêutica e os setores de bebidas e cosméticos.

Ferreira citou o exemplo do programa ReduSa, com a divulgação de programas internamente, monitoramento e definição de metas. Ao citar a gestão corporativa, há preocupação com a melhoria dos índices, que dependem de boa medição das vazões e conhecimento dos balanços hídricos, além de gestão e monitoramento online, para a construção de um painel hídrico, pois assim surgem oportunidades para redução água e a instalação de um projeto-piloto que depois será compartilhado com as demais unidades.

O ReduSa conta com metas anuais, reunião de engajamento dos times, estabelecimento de metas e divulgação dos programas que alcançam desde refeitórios até áreas de convivência.

Em termos de números, cuidados e tratados, 200 mil m3/h de água recirculada em torres de resfriamento; 7 mil toneladas de vapor/hora e redução de captação de 9 bilhões de litros de água, em três anos de programa ReduSa. Não é só economia de água, mas também energética: 89 mil megawatts, o suficiente para abastecer em um ano 45 mil residências.

Uso Racional de Água

O objetivo do Manual de Uso Racional de Água no Setor Industrial é nortear a agenda da sociedade, após 20 anos da aprovação da Lei n. 9.433/1997, que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos, pois há desafios a serem superados.

A Fiesp já produziu outros materiais para internalizar esse tema junto ao setor produtivo, pois há poucas publicações sobre como fazer, e a indústria é fornecedora de soluções, pontuou a gerente do Departamento de Meio Ambiente da Fiesp, Anícia Pio. “Este será um guia nacional e importante para setores sensíveis, tais como alimento e fármaco, que precisam de água com excelente qualidade em sua planta”, frisou.

O Manual traz sugestões de captação de água da chuva, aproveitamento de água de caldeiras, reaproveitando-se inclusive o condensado. No capítulo de água de utilidades foram abordados os principais aspectos de funcionamento e os monitoramentos e controles necessários para sistema de resfriamento, geração de vapor, reúso de água de condensado.

A gerente Anícia Pio enfatizou a governança do uso da água nas atividades produtivas com suas principais iniciativas: avaliação inicial; desempenho operacional; avaliação de condições locais e entendimento dos impactos; identificação de riscos e oportunidades; definição de plano de ação e metas; monitoramento e comunicação do desempenho.

Sob os aspectos institucionais do gerenciamento de recursos hídricos: a gestão descentralizada e participativa com os instrumentos da Política Nacional e Estadual de Recursos Hídricos: planos de bacias; enquadramento; outorga; cobrança e sistema de informações de recursos hídricos.

“Não é só fazer a lição dentro da sua fábrica, mas também junto a fornecedores e verificar se estão ou não em áreas de estresse hídrico e seus riscos inerentes”, disse, melhorando as condições da comunidade local, gerando cases de sucesso.

Para o diretor titular do Departamento de Meio Ambiente (DMA) da Fiesp, Nelson Pereira dos Reis, a indústria não é problema, mas solução e tem trabalhado em prol da sustentabilidade, em função dos insumos escassos, além de produzir produtos com mais confiabilidade.

Em termos ambientais, a Fiesp e o Ciesp estão presente nos Conselhos Nacional e Estadual de Recursos Hídricos e Comitês de Bacias Estadual e Federal, representando a indústria em mais de 200 fóruns ambientais.

Êxito da Agenda 2030 e dos ODS exige articulação entre indústria, governo e sociedade

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

O debate realizado na Fiesp, em 22 de novembro, sobre os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) – publicados em 2015 e aprovados pelos 193 estados-membros das Nações Unidas – bem como o cumprimento da Agenda 2030, contou com vários representantes da sociedade. Os ODS e suas 169 metas comportam compromissos para todos os setores com o devido planejamento das ações para a consolidação dessa Agenda. Foi dado destaque ao pilar voltado à indústria em suas vertentes ambiental e econômica.

Na abertura do evento, Nelson Pereira dos Reis, diretor titular do Departamento de Meio Ambiente da Fiesp e do Ciesp, frisou que não poderemos tratar dos objetivos relacionados à dimensão social sem considerar que sua viabilidade passa necessariamente pela dimensão econômica. Não menos importante é a questão da indústria, inovação e infraestrutura, o ODS 9. Reis enfatizou que para alcançar esse resultado é preciso atender aos objetivos da dimensão ambiental. “Precisamos ainda considerar o papel das nossas entidades, a Fiesp e o Ciesp, que são com certeza facilitadores deste processo, por meio da promoção à produção e consumo sustentáveis, buscando o equilíbrio na manutenção da nossa competitividade com a melhoria da qualidade de vida da sociedade.”

Nesse sentido, Reis destacou um dos resultados de pesquisa realizada pela Fiesp – em novembro deste ano, mas ainda não divulgada – sobre quais ODS têm maior atuação das empresas paulistas. De acordo com as respostas obtidas, há equilíbrio na atuação das dimensões social, ambiental e econômica, e o objetivo 17 – parcerias e meios de implementação – foi bastante destacado pelas pequenas e médias empresas.

“Os 17 ODS talvez sejam a mais completa e abrangente declaração ambiental, econômica e social, e é muito ambiciosa”, complementou Walter Lazzarini (presidente do Conselho Superior de Meio Ambiente da Fiesp), lembrando que a entidade sempre esteve envolvida com o desenvolvimento ambiental sustentável. Mas frisou ser fundamental o acompanhamento e a fiscalização para que os ODS sejam efetivamente concretizados.

Na opinião de Carlo Pereira (secretário-executivo da Rede Brasil do Pacto Global da ONU/PNUD), “estamos em contagem regressiva. Os meios de implementação implicam em interdependência de elementos como recursos financeiros, desenvolvimento e transferência de tecnologia, comércio, desenvolvimento de capacidades e globalização inclusiva, integração regional, além de um ambiente nacional propício a esta nova agenda. E a implementação exige recursos e as parcerias exigem planejamento, alinhamento e sinergia.”

Ao traduzir o desafio em números, Pereira afirmou que a Agenda 2030 oferece oportunidades, pois estima-se que serão necessários de US$ 3 trilhões a 4 trilhões anuais para sua implementação, e um estudo com ênfase no setor privado indica de US$ 12 trilhões a 48 trilhões até 2030 em possibilidade de negócios. Os desastres naturais duplicaram em frequência desde 1980, e perda da diversidade e danos ao ecossistema custaram 3% do PIB global só em 2014, enquanto a violência e o conflito armado consumiram 9% do PIB mundial.

Essa Agenda é uma oportunidade para o aperfeiçoamento da gestão pública, do relacionamento do setor privado com os demais e a consolidação das políticas com seus objetivos integrados, que precisam ser tratados no seu conjunto, refletiu Grácia Elisabeth Fragalá (diretora do Comitê de Responsabilidade Social da Fiesp). “O capital humano será o diferencial para a competitividade”, disse, citando a probabilidade de geração de até 308 milhões de vagas no mundo até 2030.

A efetiva execução requer o fortalecimento de instituições de governança, inovações tecnológicas, consumo sustentável, melhorias de infraestrutura de cidades, programa de capacitação, entre outros fatores, pontuou Rafael Cervone Neto (1º vice-presidente do Ciesp). “Temos de mobilizar os setores público e privado, academia e a sociedade como um todo, aprendendo a conversar mais e melhor”, neste plano de ação para o planeta e as pessoas.

Para Patrícia Faga Iglecias Lemos (superintendente de Gestão Ambiental da USP) há diferença ao se enfatizar o consumo e produção responsável, que é diferente de sustentável, disse a expositora ao tratar do ODS 12, muito próximo ao setor privado, questionando o acesso aos bens, e o reconhecimento da figura do outro em detrimento de uma visão individualizada, hoje predominante. Mas criticou a Política Nacional de Recursos Sólidos (PNRS), um desafio para o país, que promove inclusive novos negócios, porém ainda “estamos tímidos para implementar essa agenda”.

Ao traçar um panorama, trouxe números do quadro atual. Quanto ao desperdício de alimentos: 1,3 bilhão de toneladas/dia (FAO Report, 2013); o uso de lâmpadas econômicas poderia economizar US$ 120 bilhões no mundo todos os anos; seriam precisos 3 planetas como o nosso para manter o atual estilo de vida, o que leva à necessidade de repensar nossas ações (World Bank, 2016); em termos de saúde, as desigualdades são alarmantes: 3 em 10 pessoas  no mundo, ou 2,1 bilhões, não têm acesso à água tratada em casa, e 6 em 10, ou 4,5 bilhões, não possuem tratamento de esgoto sanitário (WHO and UNICEF Report, 2017).

Para ela, o desafio é este equacionamento da pessoa humana como eixo das preocupações, mais os pilares do meio ambiente, atividade econômica e inclusão social versus o controle da produção e do consumo. Outros pontos relevantes são a redução da pegada ambiental e a participação e fomento na elaboração das políticas públicas.

Ao colocar o conhecimento científico a serviço das políticas públicas, criou-se na USP um Escritório Regional para trabalhar este tema no Brasil, com extensão para a América Latina, resultado de contato com programa Cidades do Pacto Global.

 

Cases e indicadores

 

“Os ODS representam ferramentas de planejamento a médio e longo prazos para governos e empresas”, refletiu Cristiana Brito (vice-presidente da Rede Brasil para o Pacto Global). Entre as qualidades de liderança necessárias, citou intenção, ambição, consistência, colaboração e responsabilidade.

Entre os cases citados, a Ambev obteve economia de 40% de água na produção de cerveja e abriu seu Saveh (Sistema de Autoavaliação da Eficiência Hídrica) para a cadeia de fornecedores. Também indicou o SDG Compass, guia de orientação para as empresas, um norte para o alinhamento de estratégia, mensuração e administração de sua contribuição para que os ODS sejam alcançados, trazendo 5 passos: compreender os ODS; definir prioridades; estabelecer objetivos; integrar; elaborar relatórios de comunicação.

No caso da Basf, o SDG Compass contribui com os ODS através de produtos e soluções ao longo da cadeia de valor. Na lição de casa, lida-se com os objetivos de acordo com sua relevância; como orientação para definição das próprias metas da empresa; os ODS são monitorados utilizando-se um sistema de indicadores, como o GRI (Global Report Initiative) e também por meio de diálogo com os parceiros para verificação do cumprimento dos pontos estabelecidos. “Não é só mitigação de risco, mas se pode perceber principalmente oportunidades”, avaliou.

Brito apontou conclusões da pesquisa United Nations Global Compact Progress Report 2017, com quase 2,000 empresas signatárias, representando todos os setores e regiões do mundo sobre princípios contidos nos ODS. Os números demonstram que 70% dos CEOs estão engajados no Pacto Global e que 70% das empresas estão publicamente reportando sobre sustentabilidade, e 55% declararam que o reporte contribui para a inclusão do tema em seus negócios principais. E mais de 60% das empresas têm políticas sobre os dez princípios aplicados aos fornecedores, mas ainda assim o tema é um desafio para 57% das grandes empresas. As PMEs, menos engajadas, precisam de suporte em função de sua complexidade e demanda por recursos para o desenvolvimento de suas ações no campo da sustentabilidade.

Na Rede Brasil, 750 organizações, ou seja, mais de 500 empresas integram o Pacto Global.

Outro exemplo vem do setor de celulose. Camila Reggiani da Silva, consultora de Meio Ambiente da Fibria, que produz 5,3 milhões de toneladas de celulose por ano, a partir de eucalipto, destacou o aspecto social da empresa que somente em Aracruz emprega 9.000 pessoas. Em Três Lagoas, a implantação de unidade gerou 5.000 empregos.

Há mais de 1 milhão de hectares de plantação, destacou. “É muito. O negócio precisa ser sustentável para ter repetitibilidade e insumos.” Quase todos os ODS, enfatizou, são contemplados pela Fibria, que enfatiza a ecoeficiência, ou seja, busca gerar mais com menos, com menor impacto ambiental e maior geração de renda.

Várias questões estão envolvidas na produção de celulose, destacou a expositora. Em água, 85% são tratados e devolvidos ao ambiente e somente 15% são usados no processo. Há metas de longo prazo definidas para a empresa, explicou. O objetivo é reduzir a captação específica de água até 2025. Isso envolve melhorias no processo e em inovação. Em relação a comunidades, há a preocupação de se trabalhar junto com elas, procurando parcerias e redução de impactos.

A meta de longo prazo de resíduos caminha junto com a política nacional e visa a reduzir em 91% os resíduos dispostos em aterros externos até 2025. Silva deu como exemplo a secagem de lodo no moinho Jacareí para uso como biomassa. E há produção de corretivo de solo a partir de resíduos.

Evento na Fiesp discutiu os ODS e a Agenda 2030. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

 

Comissão Nacional para os ODS

O secretário nacional de Articulação Social, Henrique Villa da Costa Ferreira, disse que a Agenda 2030 impõe diversos desafios, sendo um dos principais a sensibilização em relação a ela, que, ressaltou, não é uma agenda ambiental. “Dialoga diretamente com o desafio brasileiro”, tratando de temas como corrupção. “É uma agenda de todos nós”, disse, “ao tratar melhor do lixo, cada um é protagonista dela”. O mesmo vale em relação à água, ao repúdio a atos de corrupção e contra a cidadania.

Ferreira ressaltou que as câmaras temáticas sobre os ODS deverão estar implantadas até o final do ano. Em 2016 foi criada a Comissão Nacional para os ODS, presidida pela Casa Civil, em função do Decreto n. 8892/2016.

Em relação à adequação de metas, explicou, é feito o ajuste para estabelecer números factíveis, conforme os recursos disponíveis. Deu como exemplo a instalação de esgoto, que tem como meta 100% de atendimento, o que não é viável.

Há, lembrou, oportunidades para o setor produtivo, com o estabelecimento de planejamento de longo prazo, vinculado ao aumento da estabilidade institucional. A Agenda 2030 valoriza ativos e princípios e exige o envolvimento e compromisso de múltiplos stakeholders, com importante participação de grandes empresas. Ela deve levar à melhora da imagem do setor produtivo.

Como grandes desafios há a desigualdade brasileira, as crises econômica e fiscal, a cultura política de mudanças após cada eleição, o alinhamento dos níveis de governo e a falta de integração das políticas públicas. “Não dá para tratar cada objetivo como se fosse uma caixinha”, defendeu.

No debate, Ana Paula Fava (assessora especial de Assuntos Internacionais do Governo do Estado de São Paulo) ressaltou o desafio da comunicação. O Estado já vem trabalhando há muitos anos em temas da Agenda 2030, e agora há a oportunidade de trabalhar de forma integrada.

Os quatro pilares escolhidos pelo Estado são a Educação, com o programa Impacta ODS, que utiliza gibi criado por Maurício de Souza; sensibilização dos envolvidos, para que todos conheçam bem todos os aspectos; parcerias, com workshops, cada vez menos espaçados e com maior qualidade, visando ao objetivo 17, do diálogo e das parcerias institucionais; mensuração, junto com o Seade (Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados), alinhado ao IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e ao Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

São Paulo está bastante alinhado com o governo federal e com as propostas da ONU. O grande desafio é inserir a agenda de forma permanente no governo, na opinião de Fava. “Não deixemos de pensar que não vamos começar a fazer coisas que não foram feitas. Esse sentimento de que já começamos e estamos fazendo as coisas de forma correta dever ser passado aos brasileiros”.

Gustavo Fontenele e Silva (coordenador geral do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior-MDIC), questionou qual é o futuro que queremos para a indústria e o Brasil. “Há hoje uma desarticulação do tecido socioeconômico, e cabe a nós escolher um caminho do desenvolvimento sustentável e inclusivo”, refletiu. “ODS e indústria são indissociáveis. O desenvolvimento econômico e social depende da gestão sustentável dos recursos naturais. E é muito mais ampla hoje a questão da sustentabilidade”. Para ele, a prática exige inserção e integração sistêmica de fatores chaves de competitividade que abrange os setores industrial, serviços e as agendas sociais e ambientais. “O papel do Ministério é ajudar em sua implementação”, concluiu. 

Há barreiras operacionais e barreiras estruturantes ao cumprimento dos ODS. As últimas, incluindo a superação das desigualdades regionais e intrarregionais, são mais difíceis de superar. Para resolver esses gargalos são fundamentais as parcerias, previstas no ODS 17.

“É preciso”, defendeu, “tornar atrativos para o setor privado os projetos, por exemplo adotando regras claras e previsíveis para investimento”. Ele ainda destacou como oportunidades para as empresas o desenvolvimento de novos segmentos de mercado, a ampliação das vendas, a otimização da eficiência operacional, a redução da rotatividade de funcionários e a promoção da economia circular.

Apresentações – Seminário Agenda 2030 e os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – ODS

Acesse as apresentações do evento Agenda 2030 e o setor produtivo realizado em 22 de novembro, que discutiu as estratégias e desafios de implementação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – ODS.

 

Estratégias e Desafios para atingir o ODS12 – Consumo e Produção Responsáveis

Palestrante: Patricia Faga Iglecias Lemos- Superintendente de Gestão Ambiental da USP

Estratégias e desafios de implementação dos ODS

Palestrante: Cristiana Brito – Vice-presidente da Rede Brasil do Pacto Global e Diretora de Relações Internacionais e Sustentabilidade da BASF para a América do Sul

Estratégias e Desafios de Implementação dos ODS – Água e Resíduos Sólidos na Gestão Integrada da Fibria

Palestrante: Camila Reggiani da Silva – Consultora de Meio Ambiente da Fibria

Estratégias e desafios de implementação dos ODS: o olhar da Comissão Nacional dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

Palestrante: Henrique Villa da Costa Ferreira – Secretário Nacional de Articulação Social da Secretaria de Governo da Presidência da República

Estratégias e desafios de implementação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – ODS

Palestrante: Gustavo S. Fontenele e Silva – Coordenador Geral do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior