Artigo: Desafios de uma gestão sustentável e o papel do líder

Os artigos assinados não necessariamente expressam a visão das entidades da indústria (Fiesp/Ciesp/Sesi/Senai). As opiniões expressas no texto são de inteira responsabilidade do autor.

——————————————————————————————————————————

Por Aerton Paiva*

O que difere uma liderança de uma posição de comando qualquer é a condição que tem o primeiro de atrair os demais à sua visão e objetivos. Liderar pressupõe acreditar, acima de tudo. Nos dias atuais, liderar uma organização não se limita a fazer com que ela atinja seus resultados financeiros. Questiona-se a forma pela qual tais resultados são atingidos.

É sabido que uma empresa que apresenta condições inadequadas ao trabalho tem queda nos índices de produtividade. Mas igualmente é sabido que quando os profissionais da empresa sentem orgulho do que fazem, como fazem e para quem fazem, criam em si um sentido diferente ao significado do trabalho. Se faz com gosto e, quando se gosta do que faz, se faz bem.

Também é de conhecimento que os clientes não compram apenas preço. Há um limite ao preço reduzido, uma vez que abaixo de um certo patamar compromete o resultado de quem compra. O relacionamento com o cliente compõe seu processo de tomada de decisão em conjunto com o preço. Em um processo recente de aquisição de uma empresa do sistema financeiro, onde a adquirida prezava por essas relações e a adquirente não, foi perceptível o número de clientes que encerraram suas contas na nova instituição.

Podemos extrapolar essas relações a outros grupos, como fornecedores, acionistas, comunidades do entorno das operações e por aí afora. Em todos os casos, fica claro que o relacionamento qualificado compõe uma parte importante do sucesso do negócio.

Quando colocamos neste contexto a Sustentabilidade, que por definição é uma forma de conduzir negócios levando-se em consideração as necessidades da sociedade hoje e no futuro, seja na esfera econômica, na ambiental e na social, surge a necessidade de se repensar como conduzimos os negócios e suas relações. Não faz sentido para a sociedade, hoje e cada vez mais no futuro, que uma empresa coexista com ela (veja a relação no termo coexistir) gerando passivos futuros que a sociedade deva arcar. É o caso, por exemplo, da Politica Nacional de Resíduos Sólidos quando introduz o conceito de poluidor-pagador.

O mesmo ocorre quando a sociedade se mobiliza contra empresas que utilizam práticas de trabalho infantil ou de condições de trabalho análogo ao escravo, que fez com que os bancos passassem a adotar estes critérios na concessão de crédito ou financiamento de projetos.

A liderança, como dissemos no início, tem como chama motivadora a crença do líder. Um líder que não acredita na direção que pretende conduzir seus negócios não consegue a força necessária de condução de seu grupo. Liderar, nesse novo contexto de uma sociedade em transformação é, acima de tudo, compreender esse novo contexto e se posicionar, de forma coerente, entre o discurso e a prática dessa nova ética dos negócios.

*Aerton Paiva é sócio da Gestão Origami, formado em Administração de Empresas e Ciências Sociais, compõe o quadro de líderes da Fundação Avina. Realizou diversos estudos que subsidiaram o planejamento estratégico do Instituto Ethos e é consultor em sustentabilidade das empresas Natura, Grupo Santander, Rede Globo, entre outras.