Especialistas apontam na Fiesp problemas no saneamento que dificultam combate ao Aedes aegypti

Anne Fadul, Agência Indusnet Fiesp

O workshop de saneamento básico “Deu Zika”, organizado pelo Departamento de Infraestrutura da Fiesp (Deinfra), reuniu nesta terça-feira (15/3), na sede da entidade, especialistas de diversas áreas para discutir as falhas no saneamento básico que permitiram a proliferação do Aedes aegypti, mosquito que transmite dengue, chikungunya e zika.

Johnny Ferreira dos Santos, diretor de Água e Esgoto da Secretaria Nacional Ambiental do Ministério das Cidades, afirmou que a melhoria dos serviços públicos de saneamento básico é condição necessária, mas não suficiente, para evitar a proliferação do Aedes aegypti. “Temos avanços no setor, grandes desafios que requerem esforço do governo, mas a relação com o mosquito não está relacionada diretamente com setor público, nós também temos que fazer o nosso papel enquanto cidadãos”.

O diretor falou sobre a responsabilidade do governo em combater o Aedes aegypti e citou alguns serviços públicos de saneamento básico que precisam ser melhorados. “No abastecimento de água, temos a ausência de distribuição de água e a intermitência no sistema de abastecimento. Já no manejo de resíduos sólidos, contamos com deficiências no acondicionamento e na coleta e no tratamento e disposição final”, disse. No entanto, ele também citou alguns depósitos de criadouros predominantes do mosquito encontrados em pneus, garrafas, vasos de planta e reservatório domiciliares, por exemplo. Para ele é fundamental também que os brasileiros façam a parte deles.

Santos falou sobre alguns investimentos feitos para o setor. “O Brasil deverá investir R$ 508,4 bilhões até 2033 para alcançar, em 20 anos, 99% de cobertura no abastecimento de água potável, sendo 100% na área urbana, e de 92% no esgotamento sanitário — 93% na área urbana, conforme o Plano Nacional de Saneamento Básico (PNSB). Segundo ele, o maior desafio no saneamento básico é a ampliação dos índices de tratamento de esgoto. “Quase 70 milhões de pessoas residentes em áreas urbanas ainda não contam com rede coletora de esgoto. 15,6 bilhões de litros de esgoto doméstico são lançados, diariamente, sem tratamento, no solo e nos corpos hídricos. A meta do Plansab até 2033 é tratar 93% sobre o esgoto coletado e 86% sobre o gerado”, concluiu.

Delsio Natal, professor do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública de São Paulo (USP), também esteve presente no evento e apresentou um panorama do mosquito no Brasil, desde o século 17, quando houve a primeira campanha contra a febre amarela no país, e falou sobre a importância do tema. “Esta discussão é extremamente fundamental e necessária no momento em que o mosquito está transmitindo três grandes doenças simultaneamente no país e impactando na saúde pública”, disse.

Natal ressaltou que agora é momento de controlar a epidemia. “É necessário dominar as doenças que estão chegando, que é o problema imediato e, talvez, sufocar este surto de alguma forma”, disse. Para ele, dificilmente o Brasil conseguirá erradicar o mosquito. “Temos problemas de infraestrutura e de abastecimento de água que são apontados como fator de favorecimento da proliferação do mosquito. Ninguém quer investir no saneamento básico, essa é a minha visão”, afirmou.

Reforma urbana

Também palestrante no evento, Erminia Maricato, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP) explicou que o processo de urbanização é um dos fatores para a proliferação do mosquito Aedes aegypti. “Há uma ocorrência epidêmica muito maior nas áreas de menor renda”, afirmou.

Segundo a professora, essas áreas não possuem água, esgoto, coleta de lixo e drenagem. “É um problema da exclusão nas cidades. Há a necessidade de uma reforma urbana, norteada por questões ambientais e sociais, para tentar solucionar problemas relacionados às cidades abarrotadas, à população de baixa renda morando nas periferias com mínima infraestrutura, à ocupação de áreas de risco e ao predatório padrão de uso e ocupação do solo”, ressaltou.

Maricato defendeu um debate em que haja união. “Precisamos discutir o tema em função do interesse público, coletivo e social e ter um planejamento para enfrentar essa barbárie, tendo o povo como parceiro neste combate. É uma ofensa este mosquito dar esta surra na saúde pública”, conclui.

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Workshop na Fiesp que discutiu efeitos das falhas na infraestrutura de saneamento básico que dificultam combate ao mosquito da dengue e do vírus zika. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp