Por uma Economia mais Verde

Haroldo Mattos de Lemos, Presidente do Instituto Brasil Pnuma, Agência Indusnet Fiesp

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) define a economia verde como “aquela que resulta na melhoria do bem-estar humano e da igualdade social, ao mesmo tempo em que reduz significativamente os riscos ambientais e as carências ecológicas”.

A transição da economia tradicional para a economia verde envolve políticas e investimentos que desassociam o crescimento do atual consumo intensivo de materiais e energia. Nos últimos 30 anos, poucos países, como a Alemanha, conseguiram alguma desassociação, mas os resultados foram modestos para garantir nossa sustentabilidade.

Em fevereiro deste ano, o Conselho de Administração do Pnuma aprovou o relatório Rumo a uma Economia Verde: Caminhos para o Desenvolvimento Sustentável e a Erradicação da Pobreza, que propõe investir 2% do PIB mundial em 10 setores estratégicos, para iniciar a transição para uma economia de baixo carbono e com eficiência de recursos. Os 10 setores identificados fundamentais para tornar a economia global mais verde são: agricultura, construção, abastecimento de energia, pesca, silvicultura, indústria, turismo, transportes, manejo de resíduos e água.

Investir 2% do PIB mundial corresponde, atualmente, a investir 1,3 trilhão de dólares por ano, o equivalente a 10% do investimento total anual em capital físico. O relatório do Pnuma propõe um modelo econômico que evitaria riscos, choques, escassez e crises, cada vez mais inerentes na atual economia de alta emissão de carbono, e contesta os mitos de que investimentos ambientais são contrários ao crescimento econômico.

O mundo gasta atualmente entre 1% e 2% do PIB global em subsídios que contribuem para intensificar os danos ambientais e ampliar a ineficiência na economia global, acelerando a insustentabilidade do uso de recursos, tais como combustíveis fósseis, agricultura, água e pesca. Diminuir ou eliminar estes subsídios liberaria recursos para financiar a transição rumo a Economia Verde.

Este modelo econômico é importante para o crescimento e erradicação da pobreza nas economias em desenvolvimento, onde a natureza ou os recursos naturais respondem por 90% do PIB de alguns países.

Emprego

A curto prazo, a queda dos níveis de emprego em alguns setores, como o da pesca, será inevitável, caso não ocorra a transição rumo à sustentabilidade. O setor pesqueiro recebe atualmente subsídios de cerca de US$ 27 bilhões por ano, o que gera uma capacidade de pesca duas vezes maior do que a capacidade dos peixes de se reproduzirem.

A criação de áreas marinhas protegidas e a desativação e redução da capacidade das frotas pode recuperar os recursos pesqueiros do planeta. A captura atual de 80 milhões de toneladas sofreria uma queda até 2020, mas poderia aumentar para 90 milhões de toneladas em 2050, de forma sustentável.

O relatório do Pnuma prevê que o número de empregos “novos e decentes criados” – desde o setor de energia renovável até o de agricultura sustentável – compensariam os empregos perdidos na antiga economia de alto carbono.

Custo ambiental do transporte

Um dos setores importantes para a cidade de São Paulo é o de transportes. O relatório afirma que os custos ambientais e sociais dos transportes, em termos de poluição do ar, acidentes e congestionamento do tráfego, custam atualmente de 10% do PIB de um país ou região. Recomenda a adoção de políticas, como desde o apoio à utilização de transportes públicos e não motorizados, até as que promovem a eficiência de combustíveis e veículos menos poluentes. Na Europa, os investimentos em transportes públicos rendem benefícios econômicos regionais superiores ao dobro do seu custo.

O uso dos combustíveis fósseis recebe mais de 500 bilhões de dólares ao ano em subsídios governamentais e, segundo o relatório, há evidências de que esses subsídios raramente atingem os mais pobres. Por outro lado, em 2009, os subsídios para o desenvolvimento e uso das energias renováveis foram de 10% do total dado aos combustíveis fósseis.

Produção e consumo sustentável

O diretor-executivo do Pnuma, Achim Steiner, declarou na ocasião do lançamento do relatório: “A Rio 2012 surge em um contexto de rápida redução de recursos naturais e de alterações ambientais aceleradas – desde a perda de recifes de coral e florestas à crescente escassez de terra produtiva; desde a necessidade urgente de fornecer alimento e combustível às economias, até os prováveis impactos das alterações climáticas descontroladas”.

A Economia Verde, conforme documentado e ilustrado no relatório do Pnuma, proporciona uma avaliação centrada e pragmática de como os países, as comunidades e as empresas iniciaram uma transição para um padrão mais sustentável de consumo e produção. Devemos avançar para além das polarizações do passado, entre desenvolvimento e meio ambiente, entre Estado e mercado.

Com 2,5 bilhões de pessoas vivendo com menos de US$ 2 por dia e com um aumento populacional superior a dois bilhões de pessoas até 2050, é evidente que devemos continuar a desenvolver e a fazer crescer as nossas economias. No entanto, esse desenvolvimento não pode acontecer à custa dos próprios sistemas de apoio à vida na terra, dos oceanos e da atmosfera, que sustentam as nossas economias e, por conseguinte, as vidas de todos nós.

Economia Verde é uma resposta à questão de como manter o impacto ecológico das ações da humanidade dentro dos limites do planeta. Visa relacionar as demandas ambientais para uma mudança de rumo dos resultados econômicos e sociais – em particular, o desenvolvimento econômico, o emprego e a igualdade.