Conselho Superior de Comércio Exterior analisa abertura comercial

Agência Indusnet Fiesp

Ao abrir a reunião desta terça-feira (18 de setembro) do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp (Coscex) seu presidente, Rubens Barbosa, explicou que a pauta diferia da normal. Por ser a última reunião antes do primeiro turno da eleição, foi programada uma análise da situação do comércio exterior brasileiro, sendo sucedida por uma avaliação dos programas da área dos candidatos a presidente que ocupavam as 5 primeiras posições nas pesquisas de intenção de voto.

Renato Corona, gerente do Departamento de Economia, Competitividade e Tecnologia da Fiesp, fez apresentação da análise da Fiesp sobre o comercio exterior. Baseado na comparação de países, o trabalho avalia a relação entre abertura comercial e desenvolvimento. O estudo leva em conta os países citados em estudo da Secretaria de Estudos Estratégicos da Presidência da República (SAE) como exemplos de sucesso da abertura comercial e outros com mais de 100 milhões de habitantes, no período entre 2001 e 2013 (para eliminar os efeitos da crise brasileira).

De acordo com a análise, não há correlação entre abertura comercial e maior crescimento do PIB per capita, explicou Corona.

Alguns países tiveram sucesso na abertura comercial, medindo pelo crescimento médio per capita nos 20 anos posteriores a ela em comparação com 20 anos anteriores, mas também houve casos de insucesso. Novamente não se demonstra que a abertura seja necessariamente favorável ao crescimento.

A Fiesp também avaliou a produtividade em relação à produtividade dos Estados Unidos antes e depois da abertura comercial de diversos países. Houve 6 casos de insucesso e 4 de sucesso.

Em relação ao Brasil, considerando o ano de 1991, adotado pela SAE como o de abertura comercial, a média de crescimento do PIB caiu de 4,6% nos 20 anos anteriores a ela para 3,3% nos 20 posteriores. No PIB per capita a redução foi de 2,4% para 1,9%.

E após a abertura a produtividade brasileira caiu em relação à norte-americana.

Não dá, conclui o levantamento da Fiesp, para dizer que a abertura determine o aumento do crescimento.

Corona destacou o peso da falta de competitividade do Brasil. “A vida é um pouco mais complicada do que a abertura comercial”, afirmou, citando problemas como as altas taxas de juros, os elevados spreads bancários e outros, além de deficiências em indicadores como o de habilidade em leitura dos estudantes.

O gerente do Decomtec ressaltou também o impacto da burocracia tributária sobre a indústria brasileira e de outros fatores que reduzem a competitividade industrial, como o custo da energia elétrica, superior ao de outros países.

Os produtos nacionais, devido ao custo Brasil e à valorização cambial, são 30,4% mais caros que os importados, mostra o levantamento da Fiesp (período de 2008 a 2016).

Outro dado apresentado foi o da geração de caixa e resultado das indústrias devido ao peso do crédito e da tributação. E na comparação com outros países fica claro que no Brasil vale mais a pena investir em renda fixa do que na indústria de transformação – o oposto do que ocorre em outros países. Isso levou à desindustrialização precoce (considerando o PIB per capita da época da desindustrialização).

Medidas de reindustrialização são adotadas por diversos países e são importantes. Além disso, diversos países reduziram a alíquota de Imposto de Renda das empresas.

A agenda de competitividade tem que ser simultânea à abertura comercial, disse Corona. Perguntou se o Brasil quer manter a atual regressividade ou ter produtos de maior valor agregado e como inserir a discussão das transformações trazidas pela Indústria 4.0 numa discussão açodada sobre abertura comercial.

Thomaz Zanotto, diretor titular do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp (Derex) e vice-presidente do Coscex, criticou o estudo da SAE e as soluções propostas por economistas de diversos espectros para o Brasil. “O problema do Brasil não é ser fechado. É ser difícil.”

Rubens Barbosa afirmou que se tem dado muita importância ao documento da SAE, mas sua repercussão já se encerrou. “Não vale absolutamente nada”, disse, lembrando diversos estudos, inclusive da Fiesp, que são relevantes.

A situação, disse, não vai mudar com a eleição. Em relação à abertura, lembrou que a Fiesp é favorável, mas não a qualquer uma; a uma abertura que tenha previsibilidade. Defendeu que se coloque como bandeira essa previsibilidade, que a abertura seja feita ao longo do tempo e que não seja unilateral. Isso depende de acordos comerciais, que incluem uma evolução de tarifas e outros fatores ao longo de determinado período. Nos últimos 18 anos houve apenas 3 acordos fechados pelo Brasil, precários, com baixo impacto comercial, destacou.

Outro problema a atacar é a estrutura tarifária brasileira, que tem distorções. “É uma pauta concreta, realista, pragmática e objetiva, para controlar essa abertura comercial que está em discussão.”

Na sequência, Barbosa falou sobre os programas de governo dos candidatos à Presidência. Há neles enorme confusão entre política externa e comércio exterior, disse. No geral, o presidente do Coscex considera o conteúdo muito pobre.

Reunião do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Reunião do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

PIB e produtividade desaceleraram após abertura comercial brasileira, aponta Fiesp

Agência Indusnet Fiesp

Estudo realizado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) mostra que não é possível estabelecer uma relação automática entre abertura comercial e crescimento econômico. Engajada na retomada da economia brasileira, a Fiesp alerta que é preciso melhorar as condições de produção para a indústria nacional, de olho em uma agregação de valor às cadeias produtivas locais, antes de focar esforços apenas em uma abertura comercial.

Na avaliação do presidente em exercício da Fiesp, José Ricardo Roriz, é preciso que a pauta exportadora seja mais diversa no Brasil, com bens manufaturados, como mostra a experiência internacional. “O adverso e elevado Custo Brasil e a equivocada política cambial elevam os custos de produção, encarecendo a produção nacional e reduzindo a capacidade de inovação da indústria”, afirma.

De acordo com ele, a pauta de exportação brasileira tem baixa complexidade e é concentrada em produtos de baixo valor agregado, enquanto as importações feitas pelo país miram produtos de maior valor agregado e alta intensidade tecnológica; 60,3% da pauta concentra bens de média-alta (44,6%) e alta tecnologia (15,7%). Em 2001, o Brasil ocupava o 38º lugar no ranking mundial de complexidade econômica. Em 2015, ficou com a 51ª posição, confirmando a menor estrutura produtiva do país.

O saldo anual de comércio exterior para bens manufaturados brasileiros está negativo desde 2007. De 2001 a 2015, o déficit médio de importações contra as exportações corresponde a 1,8% do PIB. “No Brasil, o excesso de custos é maior do que a proteção, em forma de barreiras tarifárias e não tarifárias”, diz Roriz.

De acordo com o levantamento, tanto o Produto Interno Bruto (PIB) per capita quanto a produtividade em relação à força de trabalho recuaram no país desde o processo de abertura comercial em 1991. A análise feita em julho foi a primeira de uma série de estudos da entidade sobre a liberalização comercial no Brasil. Para a Fiesp, a baixa competitividade de um país limita o crescimento do PIB, favorece o crescimento das importações e limita e crescimento das exportações.

A Fiesp aponta que a produtividade do trabalho (PIB/população ocupada) cresceu em média 1,1% ao ano de 1971 a 1991, aumentando para 1,4% de crescimento médio anual de 1992 a 2011. No entanto, a produtividade do trabalho (PIB/força de trabalho) na mesma comparação de períodos passou de crescimento médio anual de 2,1% para 1,5%. E o PIB per capita (PIB/população total) teve seu crescimento médio anual reduzido de 2,4% para 1,9%, na mesma base de comparação.

Além disso, a taxa de crescimento brasileira desacelerou ante outros países em desenvolvimento nos mesmos anos. De 1992 a 2011 o crescimento do PIB do Brasil recuou 1,3 ponto percentual em relação ao período 1972 a 1991, enquanto outras economias emergentes avançaram 1,2 ponto percentual.