Jovens, mulheres e negros são protagonistas no mercado consumidor brasileiro

Ariett Gouveia, Agência Indusnet Fiesp

Mulheres, idosos, jovens, negros e a nova classe C foram os públicos destacados como os atuais protagonistas do consumo no Brasil pelos palestrantes do seminário “A indústria e seu mercado consumidor”. O evento foi realizado nesta terça-feira (15/04), na sede da Federação e do Centro das Indústrias do Estados de São Paulo (Fiesp e Ciesp).

O diretor da Quorum Brasil Informação e Estratégia Claudio Silveira fez a apresentação “Comportamento do consumidor – o que têm em comum as mulheres, homens, jovens e idosos?”. Por meio de dados obtidos com pesquisas, ele trouxe novas informações sobre o que busca cada um desses públicos.

As pesquisas indicaram, por exemplo, que os idosos reclamam por não encontrarem roupas, comida e hotéis feitos para pessoas com mais de 65 anos. E dizem que não gostam de serem chamados de “terceira idade”. “Mais do que poder de compra, eles também influenciam nas compras da família”, alertou Silveira.

Sobre os jovens brasileiros na faixa dos 13 a 19 anos, o diretor destacou que esses correspondem a um mercado de R$ 32 bilhões. “Os jovens cada vez mais pensam no futuro e gostam das marcas, mas estão atentos ao dinheiro.”

Silveira: empresas precisam estar atentas aos interesses de idosos, jovens e mulheres. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Silveira: empresas atentas aos interesses de idosos, jovens e mulheres. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


As mulheres são um público que pensa diferente e gosta que todos saibam disso, segundo o diretor da Quorum. “Cerca de 75% das mulheres não se enxergam nas propagandas dirigidas para elas. Essas consumidoras adoram uma cozinha limpa, mas sem elas mesmas com o rodo na mão e um pano de chão.”

Segmentar a comunicação para cada público é fundamental, de acordo com Silveira. “Não adianta dizer ‘eu vou vender para a classe B’ ou ‘eu vou vender para a classe C’, porque esses grupos são formados por pessoas. É preciso pensar ‘eu vou vender para uma mulher de 35 anos, casada, que se comporta de tal forma’ ou para ‘um jovem de 18 anos que compra de determinada maneira’.”

Ele destacou também a necessidade de colocar a inovação como foco na empresa. “A informação é de que 23% dos empresários dizem que inovação eleva a competitividade, mas só 10% falaram que têm investimentos voltados para a área”, explicou. “A gente continua sendo impulsionado para a inovação pela concorrência e não porque isso está no DNA da companhia.”

Nova classe média

Marcio Falcão, gerente de novos negócios do Data Popular, apresentou algumas características de um dos mercados de mais destaque hoje: a nova classe média. “Só a classe C do Brasil está em 18º lugar em consumo no mundo e em 12º em termos de população. Para ser líder de mercado no seu segmento, tem que brigar.”

E o que significa consumo para essa classe média? Segundo as pesquisas do Data Popular, representa inclusão e pertencimento, oportunidade e investimento, satisfação de necessidades e sensação de prazer.

“Muita gente olha com preconceito e pensa que essas pessoas estão apenas comprando smartphones, bens de consumos duráveis. Isso é verdade, mas também há uma preocupação muito forte com a educação”, disse Falcão. “Isso acontece por dois fatores: um ano de estudo a mais pode representar até 15% de aumento na renda dele. O outro é a meta de ser o primeiro ‘doutor’ da família, o primeiro que se formou”.

Os três grandes protagonistas da nova classe média brasileira, segundo o Data Popular, são as mulheres, os negros e os jovens. “A renda das mulheres cresceu, nos últimos dez anos, quase o dobro se comparada a dos homens, o que se deve ao acesso ao mercado de trabalho”, relatou o gerente do instituto. Já 75% das pessoas que ascenderam para a classe média nos últimos anos são negros, é preciso olhar para esse mercado.”

Sobre os jovens, Falcão diz que eles são 42 milhões de pessoas com idade entre 18 e 30 anos e que 55% deles já estão na classe média e com uma inserção social melhor do que seus pais tiveram. “Se compararmos o jovem de uma família de classe alta e um de classe média, para cada R$ 100 que o pai coloca em casa, o jovem da classe alta coloca R$ 47 e o da classe média, R$ 89. Quem vai ter um poder de decisão pela família maior?”.

O executivo concluiu falando da necessidade de quebrar barreiras na questão do consumo para esse público. “Para chegar a esse consumidor, é preciso criar uma comunicação específica e também vencer a questão de preconceito”, explicou.


Integração entre a indústria e o varejo é debatida em seminário na Fiesp

Isabela Barros, Agência Indusnet Fiesp

Hora de promover a integração entre a indústria e o varejo. Com esse objetivo, está sendo realizado, na manhã desta terça-feira (15/04), na sede da Federação e do Centro das Indústrias de São Paulo (Fiesp e Ciesp), o seminário “A Indústria e seu Mercado Consumidor”. O evento reúne empreendedores e especialistas para debater temas como a reinvenção das lojas e o comportamento do consumidor, entre outros. Isso além do lançamento da atualização do aplicativo “Inteligência de Mercado da Indústria 2014”.

A abertura do evento foi feita pelo primeiro vice-presidente do Ciesp, Rafael Cervone, e pelo vice-presidente da Fiesp e diretor titular do Departamento de Competitividade e Tecnologia (Decomtec) da Fiesp, José Ricardo Roriz Coelho. Estiveram presentes ainda o diretor titular da Central de Serviços (Cser) da federação, Paulo Schoueri, e o diretor do Decomtec Manoel Canosa.

“É preciso estimular a interação entre a indústria e o varejo”, afirmou Cervone. “É uma estratégia importante para a indústria interligar as cadeias produtivas de ponta a ponta: dos fornecedores de fibras às vitrines das lojas, no caso do setor têxtil, por exemplo”.

Cervone: interligação das cadeias produtivas de ponta a ponta é estratégica. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Cervone: interligação das cadeias produtivas de ponta a ponta é estratégica. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


De acordo com Cervone, nos últimos anos, o Brasil vem ganhando espaço como mercado “número um” do varejo internacional. “Essa é uma faca de dois gumes, afinal, esses varejistas podem manter seus próprios fornecedores ou usar fornecedores nacionais”.

Segundo Roriz, é preciso discutir ainda a  “necessidade de viver uma verdadeira cultura de planejamento empresarial”.  “Se não há a disseminação do planejar e depois realizar, aspectos como integrar os canais de venda e conhecer o consumidor-alvo ficam em segundo plano e isso possivelmente impacta negativamente a competitividade empresarial”, afirmou.

Novos caminhos   

A primeira palestra do seminário foi feita pelo sócio-sênior da consultoria GS&MD – Gouvêa de Souza, Luiz Goes. Especializado em varejo, Goes destacou os “novos caminhos” do setor.

Partindo da necessidade de “reinvenção”das lojas, ele explicou que, hoje, uma “loja vencedora” precisa ter como objetivo a “oferta de valor”. “O consumidor tem que saber que, se comprar naquele lugar, vai sair ganhando. O ponto de venda precisa ser relevante na cabeça do cliente”, disse.

Para Goes, além do “valor”, é preciso manter o foco em pontos como a consistência do negócio, ou seja, em “entregar esse valor para o consumidor todos os dias”. “Há os aspectos ligados à emoção, como o estilo de vida e a experiência de consumo, e aqueles relacionados à razão, como preço, sortimento e conveniência”, explicou. “Não adianta só apresentar os produtos, tem que emocionar”.

Goes: “O consumidor tem que saber que, se comprar naquele lugar, vai sair ganhando”. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Goes: “O consumidor tem que saber que, se comprar naquele lugar, vai sair ganhando”. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

E isso sem perder o foco no mundo digital, claro. “Tudo tem que ter integração com os canais digitais”, afirmou o consultor. “Pensar no varejo sem pensar na internet é decretar falência”.

Pimentão América

Entre os exemplos de inovação no varejo citados por Goes em sua apresentação estão iniciativas como a criação do personagem “Pimentão América” pela rede Hortifruti, de frutas e verduras, presente nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. “O que pode ser mais commodity do que isso? É um jeito novo de apresentar o produto”, destacou.

Nessa linha, foram apontadas ainda empresas como a Livraria Cultura e as redes de magazines de roupas que convidam estilistas famosos para assinar coleções, como a Riachuelo. “A Cultura oferece uma experiência inigualável no ponto de venda. Às vezes, o consumidor entra só para passar o tempo e termina saindo com um livro na mão”, disse. “Já a Riachuelo oferece o conceito de moda a preço acessível”.

A indústria que ensina o varejo

Os casos em que a indústria ajuda o varejo não ficaram de fora do debate. “A Apple oferece, além dos produtos, serviços nas lojas. Quem quiser, pode aprender a mexer nos artigos vendidos”, disse. “Veio para ensinar o varejo a vender melhor”.