PIB só pode crescer com aumento da produtividade, afirma Delfim Netto

Juan Saavedra e Guilherme Abati, Agência Indusnet Fiesp

Para o presidente do presidente do Conselho Superior de Economia (Cosec) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Antônio Delfim Netto, a indústria vem tendo um desempenho ruim porque o câmbio foi utilizado pelo governo como instrumento coadjuvante no controle da inflação. “Há uma tendência dos ministros de Economia, e eu posso dizer com conhecimento de causa, de tentar usar câmbio para conter a inflação e normalmente dá com os burros na água”, disse.

Segundo ele, um dos participantes do primeiro painel o 11º Fórum de Economia da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), nesta segunda-feira (15/09), em São Paulo, o Produto Interno Bruto (PIB) só pode crescer pelo aumento da produtividade de cada trabalhador”.

“Se almejamos um crescimento de 3%, 4%, temos que fazer produtividade aumentar 3 ou 4%. Não tem nenhum outro truque. Não tem jeito de superar essa coisa banal.” Ele destacou ainda que o país precisa de investimento em infraestrutura e de mão de obra mais sofisticada para operar bens de capital mais sofisticados.

Netto: mais investimentos em infraestrutura. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Netto: mais investimentos em infraestrutura. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Delfim Netto disse também que, em função do aumento dos preços externos, a taxa de câmbio não afetou a agricultura como a indústria, mas que esse cenário mudou. “A taxa de câmbio para a agricultura foi suficiente para resistir a todas as estripulias. Isso na minha opinião terminou”, disse Delfim Neto. “Nessa safra que vem aí vamos sentir os primeiros efeitos do câmbio sobre a agricultura brasileira.”

Segundo ele, também contribuem para esse cenário outros fatores: o alto e crescente custo da mão de obra com relação ao índice de produtividade, a falta de apoio às exportações por meio de um sistema inteligente de tarifas efetivas, com absoluta desoneração tributária das exportações, sistema de “draw back” efetivo e crédito e taxa de juros existentes no mercado internacional.

Carga tributária

Segundo Mansueto Almeida, economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), também convidado do painel, o país precisa de mudanças em seu regime fiscal. “Importante é controlar o crescimento da despesa em relação ao PIB. A carga tributária brasileira é igual a de países com três vezes o nosso PIB”, disse. “O cenário é nebuloso”, afirmou.

Além disso, Almeida defende um ajuste fiscal gradual, com “foco na simplificação da reforma tributária”.

Desenvolvimento com sustentabilidade

André Nassif, da Universidade Federal Fluminense e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), defendeu o desenvolvimento econômica brasileiro com estabilidade. “O Governo federal errou ao perseguir políticas que estimularam o consumo, quando o incentivo deveria vir pelo investimento em infraestrutura”, afirmou.

Os debatedores do primeiro painel do Fórum na FGV-SP: produtividade e reforma tributária. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Os debatedores do primeiro painel do Fórum na FGV-SP: produtividade e reforma tributária. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


Para ele, os esforços governamentais devem buscar o aumento de produtividade. “Embora se recomende manter o tripé econômico atual, a sugestão é que se mude substancialmente sua governança”, concluiu.

Controle cambial

Para o ex-secretário executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, o desafio para crescimento econômico é cambial e monetário. “Desafio é controlar inflação sem depender da taxa de câmbio”. No campo fiscal, para ele, meta deverá ser recuperar a capacidade de geração de resultados primários.

Além disso, Barbosa aconselhou a diminuição da perda fiscal com preços regulados e a redução da folha de pagamento da união. “É preciso aumentar a transparência do gasto tributário federal”, disse.


‘Não há recessão’, afirma Guido Mantega em evento na FGV

Guilherme Abati, Agência Indusnet Fiesp

“Não há recessão e temos condições para retomar o crescimento nos próximos anos”, afirmou o ministro da Economia, Guido Mantega, durante a abertura do 11º Fórum de Economia  da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), evento promovido em parceria com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e o Instituto Estudos Desenvolvimento Industrial (Iedi) na capital paulista. O debate foi realizado na manhã desta segunda-feira (15/09).

“O cenário econômico não é tão catastrófico como pensam. Atenuamos os efeitos da crise com níveis aceitáveis de crescimento”, disse. Segundo ele, a economia brasileira vai crescer mais no segundo semestre de 2014 do que no primeiro. “Estamos mantendo a inflação sob controle, prontos para iniciar um novo ciclo de crescimento da economia, com aumento de emprego e renda”, completou.

Para o ministro, o país respondeu “bem” à crise econômica mundial, com desempenho bastante razoável em comparação aos países do G20. “O Brasil foi um dos países mais equilibrados, com crescimento do Produto Interno Bruto per capita e aumento de empregos.”

Mantega: a economia brasileira vai crescer mais no segundo semestre de 2014. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Mantega: a economia brasileira vai crescer mais no segundo semestre de 2014. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


Em sua visão, com o fim da crise, a economia brasileira continua sólida, com crescimento da massa salarial. “Terminamos a crise nosso mercado consumidor intacto”, analisou.

Segundo Mantega, um novo ciclo de desenvolvimento econômico deverá ser guiado por investimentos em infraestrutura, inovação e educação, com aumento de oferta de serviços.

Para 2015 

Para 2015, o atual ministro defende ajustes macroeconômicos “gradualistas”, com redução de estímulos econômicos, e aumento gradual do primário, com projeção de 2,5%. “A política cambial deverá permanecer flutuante, com intervenções para correção de volatilidade.”

Em relação às políticas de desenvolvimento, Mantega acredita que as desonerações da folha de pagamento deverão ser mantidas nos próximos anos. “Política industrial deve ser mantida. Com manutenção de programas de investimento e financiamento para compras de máquinas e equipamentos.”

Segundo ele, apesar do aumento do poder aquisitivo da população, com o emprego, falta crédito para o consumo, com queda do setor varejista e prejuízo para a indústria. “Assim, a indústria acumula estoque. Medidas anticíclicas foram feitas pensando na indústria, que vive uma situação sensível”, disse.

Mantega explica que as medidas tomadas em sua gestão sempre buscaram privilegiar os setores produtivos, impedindo a “deterioração” da indústria. Os maus resultados acumulados pelo setor industrial brasileiro, segundo ele, se devem à uma combinação do retraimento dos mercados estrangeiros, que frearam o consumo.

Desconforto com a economia está em todos os setores, diz presidente da Fiesp

Juan Saavedra, Agência Indusnet Fiesp

A preocupação com as perspectivas da economia brasileira não é apenas da indústria, mas de todos os setores, alertou o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Benjamin Steinbruch, na manhã desta segunda-feira (15/09) na abertura do 11º Fórum de Economia da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP).

“Na indústria já se materializou a realidade dos números que nós vivemos, mas estou falando de todos os outros setores. Na Fiesp temos uma boa avaliação daquilo que se passa com cada um dos setores. E na verdade esse desconforto está presente em cada um deles. A indústria, talvez, seja o caso mais particular, que se antecipou, mas na verdade o desconforto e o descontentamento está presente em tudo”, disse Steinbruch em mesa com a presença do ministro da Fazenda, Guido Mantega, no evento coordenado pela Escola de Economia da FGV-SP em parceria com a Fiesp, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e o Instituto Estudos Desenvolvimento Industrial (Iedi).

>> ‘Não há recessão’, afirma Guido Mantega em evento na FGV-SP
>> Benjamin Steinbruch: economia brasileira precisa de medidas imediatas 

Afirmando que “normalmente os números não mentem”, o presidente da Fiesp disse estar angustiado. “A realidade que nós vivemos não é uma mentira. Existe divergência entre aquilo que nós hoje estamos percebendo como realidade com os números que nos são apresentados – não só pelos governos, mas pelos economistas – que não refletem o dia a dia, a realidade, o cotidiano da produção e do emprego. Isso nos causa uma tremenda agonia e nos faz, talvez, os mais pessimistas com relação aos dias que nós estamos vivendo.”

Steinbruch: “Normalmente os números não mentem”. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Steinbruch: “Normalmente os números não mentem”. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


Steinbruch aproveitou a presença do ministro Mantega para uma mensagem. “Eu não quero convencê-lo das ideias, porque acho que não conseguimos até agora”, assinalou. “Mas que a gente consiga pelo menos uma convergência de números”, ponderou, afirmando que as observações têm caráter construtivo.

“O empreendedor quer empreender. O que nos angustia é a perspectiva de recessão, de desemprego e de falta de investimento. Infelizmente essa é a realidade que estamos tentando passar de forma concreta e não estamos conseguindo”, concluiu o presidente da Fiesp.

Dieese: é preciso ‘grande convergência’ 

O diretor do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, disse esperar que o debate no fórum possa ser um caminho para um acordo para um conjunto de políticas e reformas. “Nós precisamos de um espaço para fazer o debate e esse debate propiciar que esses sujeitos políticos sejam capazes de fazer o interesse geral daquilo que a sociedade quer.”

Segundo ele, a única possibilidade de acertar é com uma grande convergência política. “Para isso é preciso fazer grandes acordos. Esse fórum é sempre uma oportunidade de fazer isso. “

De acordo com o presidente da Fundação Getúlio Vargas, Carlos Ivan Simonsen Leal, uma parte dos problemas a economia brasileira tem origem internacional. “Tem uma situação que não é só do nosso controle, tem impacto global”, observou ao falar da situação europeia e do crescimento ainda expressivo da China. “O mundo inteiro tem complicações pesadas.

Segundo ele, políticas adotadas anteriormente tiveram sucesso, mas é preciso olhar para a frente. “Como vamos enfrentar esse brutal desafio estratégico. Como vamos competir o mundo? Como vamos aumentar o nosso investimento em infraestrutura? Como vamos atender às políticas sociais levantadas para o bem, acredito eu, nos últimos 12 anos?”, questionou.

“O nosso processo de discussão de estratégia vai ter que se aprofunda”, disse Leal, lembrando que são políticas de longo prazo.

O fórum, com a coordenação de Luiz Carlos Bresser-Pereira, tem dois dias de programação, com painéis ao longo desta segunda-feira (15/09) e de terça-feira (16/09).