Entrevista – Dedo na ferida

Modelo de treinamento de alto impacto procura estimular no íntimo das pessoas as mudanças de comportamento necessárias à melhora da vida corporativa e pessoal

Você já imaginou ficar 30 horas sem falar e dormir? Pode parecer estranho, mas estas são apenas algumas das técnicas utilizadas durante os chamados treinamentos de alto impacto. O conceito existe há cerca de uma década no Brasil e promete verdadeiras revoluções organizacionais através de atividades pouco ortodoxas. Esqueça palestras, material didático ou dinâmicas de grupo. Em busca de motivação e para evitar que o comodismo e a inércia atinjam os profissionais, “nada melhor do que um exercício que mexa com as vísceras dos participantes”, garante Orlando Pavani Jr, diretor-executivo da Gauss Consulting e idealizador do Olho de Tigre, treinamento de alto impacto indicado para empresas que estejam passando por algum processo de transição.

Acostumado a liderar projetos de gestão organizacional, o consultor decidiu enveredar pelos caminhos da neurologia na tentativa de encontrar uma maneira eficaz de lidar com profissionais resistentes às mudanças. “A única maneira que eu conhecia de como enfrentar a resistência alheia era através da demissão, só que isso era um erro, pois além da resistência eu demitia também capital intelectual e outras competências”, explica. Pavani, que possui formação em Administração de Empresas, passou mais de cinco anos estudando conceitos como dianética, hipnose ericksoniana e análise transacional para chegar ao formato do treinamento, que possui dois módulos – com 16 e 30 horas ininterruptas de duração.

O Olho de Tigre surgiu em 2000 e, até o momento, já participaram cerca de 3,7 mil pessoas de empresas como Volkswagen, Sabesp e SKF, entre outras. Uma das regras fundamentais é não revelar o que acontece durante as dinâmicas, como forma de garantir o impacto e a surpresa dos futuros participantes. Nesta entrevista, Pavani detalha as etapas do treinamento e conta de que forma as empresas podem se beneficiar de técnicas de programação neurolinguística para motivar seus profissionais e garantir a sobrevivência em um mercado cada vez mais competitivo.

O que é o Olho de Tigre?
Orlando Pavani Jr – Trata-se de um treinamento de alto impacto que simula metaforicamente situações reais do cotidiano pessoal e profissional. O objetivo é provocar a transformação na atitude dos participantes, através de atividades motivacionais que privilegiam a vivência de situações adversas. Não se enquadra na forma tradicional de ministrar treinamentos, ou seja, não tem palestras, datashow, flipchart ou material didático. Como o fator surpresa é primordial, as dinâmicas são mantidas em segredo e os participantes comprometem-se a não revelar o que acontece.

Mas você pode dar uma ideia sobre a metodologia de treinamento?
Pavani – Trabalhamos com quatro sensações básicas: medo, alegria, raiva e tristeza, tudo no limite. Em suma, as pessoas vão chorar e rir muito. As dinâmicas geralmente acontecem em um hotel-fazenda e participam no máximo 60 pessoas. Às 7h em ponto acontece o credenciamento dos participantes, que recebem um crachá com um número. Em troca eles nos entregam celular, documentos e demais objetos pessoais, para que se desliguem do mundo real. A partir daí ninguém mais é chamado pelo nome, já que há sobrenomes que são mais importantes do que outros e lá dentro todos são iguais. O crachá contém ainda uma série de sinalizações que nos remetem às informações fornecidas no questionário, o que nos permite tocar na ferida das pessoas. Todas as dinâmicas começam em horários como 8h29 e 15h32, como forma de enfatizar a pontualidade, item fundamental para o sucesso na carreira corporativa. Às 8h29, quando começa o treinamento em si, acontece alguma coisa que faz todo mundo pensar em ir embora. Mas se ele permanecer mais 40 minutos vai pensar “que bom que não fui embora, vou ficar aqui”. A terceira dinâmica é arrebatadora, e assim por diante, seguindo a lógica da “tempestade e bonança”. Tudo é acompanhado por trilha sonora específica, em alto volume, elaborada com a intenção de maximizar a emoção trabalhada. Fazemos de tudo para contrariar a pessoa até que ela saia da zona de conforto.

Como andar sobre brasas, por exemplo? Ou as dinâmicas são essencialmente psicológicas?
Pavani – Uma das regras do treinamento é que, durante as vivências, e mesmo nos momentos de intervalo não é permitido conversar com ninguém, forçando as pessoas a ficarem reclusas em sua própria dor pessoal e também estimulando que a pessoa eventualmente perceba o quanto pode ser difícil “aturar” a si próprio. No Olho de Tigre 1 são 16 horas ininterruptas de atividades, que não envolvem esforço físico. Não tem tirolesa, não é preciso pisar em brasa quente, não tem nada disso que outros treinamentos de alto impacto costumam utilizar.

Qual a diferença entre os módulos 1 e 2 do treinamento Olho de Tigre?
Pavani – O treinamento Olho de Tigre 2 possui 30 horas de duração e só pode ser feito por quem fez o módulo anterior ou outra capacitação compatível. As atividades começam numa sexta-feira à noite, com um jantar ritualístico. Às 7h do sábado começam as atividades, que seguem até às 14h do domingo. Também não implica em nenhum esforço físico, mas em ambos os módulos não há tempo para descansar ou dormir. As dinâmicas do módulo 2 foram idealizadas a partir dos conceitos expostos no livro A lei do triunfo, de Napoleon Hill, com a intenção de capacitar os participantes a descobrir seus sonhos e destruir todas as posturas e atitudes que os impeçam de concretizá-los.

Sobre bases como esta obra de Napoleon Hill é que o treinamento foi desenvolvido?
Pavani – Basicamente é a neurologia que fundamenta o treinamento Olho de Tigre. Não utilizamos nenhum conceito psicológico, não somos terapeutas, mas partimos de diversos estudos sobre o cérebro humano – como análise transacional, programação neurolinguística, dianética, aprendizagem acelerada e antroposofia – para compreender de que forma o impacto pode transformar a atitude das pessoas, trazendo benefícios tanto para a vida profissional como pessoal.

O treinamento Olho de Tigre estimula quais competências?
Pavani – As mudanças ocorrem em diversos sentidos: as pessoas se tornam mais criativas, superam limites pessoais, aprimoram o trabalho em equipe e aprendem a lidar com as fobias, a pressão, o fracasso e o medo. Além disso, trabalhamos com sentimentos como a ansiedade, o arrependimento, a autoestima, o sofrimento por antecipação e o estresse.

Quais as vantagens do treinamento de alto impacto em relação aos métodos tradicionais?
Pavani – A principal vantagem é que não se trata de dinâmicas puramente intelectuais, em que o participante pode até apreender o conteúdo, mas aquilo não mexe no seu íntimo. Já os treinamentos de alto impacto lidam com o hipotálamo, ou seja, com as funções neurológicas da pessoa. O objetivo é atuar na sinapse dos neurônios, reprogramando o cérebro sem cirurgia. Não há teorizações ou explicações conceituais. É uma experiência vivencial que será lembrada pelo resto da vida. Toda vez que tocar a mesma música ou acontecer uma sensação semelhante, a pessoa vai se lembrar daquilo automaticamente.

E que benefícios um profissional tem quando opta pelo treinamento de alto impacto?
Pavani – A pessoa ganha compreensão do que ela é e, a partir disso, sente-se segura para tomar decisões importantes. Tem pessoas que participam e logo a seguir pedem demissão. Isso também é bom para a empresa, já que o profissional nunca ficaria satisfeito naquele ambiente ou função. Há casos de pessoas que mudaram radicalmente a forma de se relacionar com seus subordinados ou com a família. Há pessoas que mudam a forma de se vestir, de falar, de andar. Eu mesmo sou uma prova da eficácia desse tipo de experiência: cheguei a me curar de uma gagueira através de dinâmicas de alto impacto. Na verdade são atitudes – pequenas ou grandes – que vão transformar os participantes intimamente, o que vai ajudá-los muito tanto pessoal como profissionalmente. O foco do treinamento é: olhe para si mesmo e descubra o que é importante para você.

O treinamento Olho de Tigre é recomendado para quais tipos de empresa?
Pavani – Eu costumo dizer que o treinamento deveria ser obrigatório para qualquer ser humano. Mas é recomendado para qualquer organização que passe por processo de mudança. Atualmente, todas as empresas, de uma forma ou de outra, estão passando por mudanças. Tem uma frase que diz “se funciona, então está obsoleto”. Quer dizer, se alguma coisa que a empresa está fazendo hoje funciona, daqui a pouco não será mais suficiente para sustentar o seu sucesso, pois é preciso se reinventar constantemente no mercado. As organizações dinâmicas, pró-ativas, que buscam práticas de gestão refinadas, que estão orientadas para os clientes, estão em constante transformação. E são as pessoas que fazem isso. Se esses profissionais não se enxergarem por dentro, provavelmente não serão capazes de conduzir as mudanças necessárias à companhia.

Então qualquer pessoa pode participar?
Pavani – A empresa indica os funcionários que precisam fazer a capacitação, mas somos nós que decidimos quem pode participar. Para isso aplicamos um questionário que deve ser respondido previamente, com o qual avaliamos as condições psicológicas e médicas de cada um.

E por que algumas pessoas são impedidas de participar?
Pavani – Podemos vetar a participação de pessoas que tenham alguma patologia clínica muito acentuada ou que estejam passando por um processo terapêutico ou psiquiátrico. Acontece também de um indivíduo não ser aprovado porque nós não temos condições de lidar com a circunstância atitudinal dele, não significa necessariamente que o profissional tenha algum problema que o impeça de participar, nós é que admitimos não ter capacidade de lidar com aquele tipo de resistência. Não há nenhuma restrição física, já fizeram o treinamento pessoas com paraplegia, pressão alta, etc.

Qual o principal problema enfrentado pelas empresas que buscam treinamentos de alto impacto?
Pavani – Geralmente as organizações que nos procuram estão passando por problemas de resistência organizacional, quer dizer, têm profissionais com dificuldade de aceitar as novas práticas de gestão. E esse tipo de colaborador nunca se acha resistente. Quando a empresa indica um treinamento para ajudá-lo do ponto de vista comportamental, é comum ele achar que não precisa disso, que é o mundo que está errado e ele está certo. E enquanto essa pessoa não aceitar que precisa passar por um processo que mexa com as vísceras, não adianta participar, porque certamente ela vai desistir. A decisão de fazer o treinamento deve ser pessoal.

No caso do mercado varejista, o treinamento Olho de Tigre também funciona no sentido de motivar lojistas e vendedores?
Pavani – O treinamento é muito indicado para vendedores, pois estimula os profissionais a baterem metas e se superarem. Normalmente o vendedor é treinado no produto, mas não aprende a lidar com suas limitações comportamentais. Há muitas empresas de varejo que nos procuram, como as Casas Bahia e concessionárias de veículos.

Qual é o índice de desistência?
Pavani – Entre os treinamentos de alto impacto, o Olho de Tigre é o que registra o menor índice de desistência, em torno de 1%. Nosso índice é baixo por dois motivos: não iludimos ninguém sobre a natureza do treinamento e, através da avaliação prévia, não permitimos que pessoas com probabilidade de desistir participem. Em outros treinamentos do gênero cerca de 10% dos participantes costumam desistir. Muitas pessoas ficam abaladas, chegam a desmaiar ou vomitar, pois as emoções que vêm à tona são muito intensas.

Há alguma forma de medir a eficácia do treinamento?
Pavani – Como o treinamento é baseado no conceito de inteligência emocional, aplicamos o teste EQ-MAP antes e depois. Trata-se de uma avaliação desenvolvida por Robert K. Cooper que mede a capacidade de sentir, compreender e aplicar de modo eficaz o poder das emoções no contexto empresarial.

Linha Direta
Orlando Pavani Jr: (11) 4220-4950 / www.olhodetigre.com.br

Fonte: Por Mônica Pupo – Conteúdo publicado na Revista Empreendedor