À prova de crise

A desaceleração da economia fez com que empresas brasileiras reduzissem o volume de investimentos sociais – mas a área da educação passou ilesa pelos cortes

A escola Jardim Conceição, em Osasco, na região metropolitana de São Paulo, vem passando por uma ampliação desde 2013. A unidade, uma das 40 mantidas no país pela Fundação Bradesco, braço filantrópico do banco Bradesco dedicado à educação, atende gratuitamente quase 3.000 alunos e ganhou mais seis salas de aula nesse período.

As outras 39 escolas da rede também estão sendo ampliadas, um investimento total de 220 milhões de reais que tem o propósito de oferecer a quase 11.000 alunos do ensino médio aulas nos períodos da manhã e da tarde ainda neste ano — até agora só podiam frequentar o noturno. Com a mudança, eles terão 1 hora de estudo a mais por dia.

“Estamos empenhados em ampliar o conteúdo das disciplinas; e, quanto mais tempo eles permanecerem na escola, melhor”, diz Denise Aguiar, neta do banqueiro Amador Aguiar, fundador do Bradesco, e diretora da fundação. Só em 2013, a entidade investiu 457 milhões de reais no funcionamento de suas 40 escolas — montante 22% maior do que o investido em 2012. Em 2015, o montante para beneficiar cerca de 105.000 alunos deve chegar a 537 milhões de reais — orçamento que cresce na mesma proporção que o lucro do banco.

Na seara do investimento social privado, quase ninguém tem cifras semelhantes às da Fundação Bradesco no Brasil. Feita essa ressalva, trata-se de um exemplo acabado da predileção do empresariado brasileiro quando o assunto é filantropia: educação. É o que revela um levantamento realizado pela Comunitas, ONG criada pela ex-primeira-dama Ruth Cardoso, com 308 empresas e 26 fundações e institutos corporativos.

Em 2007, os recursos destinados a projetos educacionais representavam 32% de todo o investimento social privado no país. Em 2013, chegou a 40%, o equivalente a 746 milhões de reais. Trata-se de um nicho que se mostrou, inclusive, à prova de crise e cresceu 3% em relação ao ano anterior — diante de um corte de 25% nos investimentos totais.

A predominância do tema da educação tem um motivo principal — consiste num investimento estratégico para o país. “O desenvolvimento econômico e social sustentável de um país só se torna realidade quando há educação de qualidade para todos”, diz Patrícia Mota Guedes, gerente da Fundação Itaú Social. O que também explica a opção, segundo especialistas, é o fato de que as companhias preferem abraçar bandeiras consensuais e livres de polêmicas — o que não acontece na mesma escala, por exemplo, com investimentos culturais.

De maneira geral, os responsáveis pela queda no montante do investimento social privado foram projetos de curto prazo, como patrocínios em arte e cultura, que hoje representam menos de 8% de todo o investimento. “O corte em patrocínios pontuais ajudou a concentrar esforços em ações mais estruturadas e que precisam de tempo para render frutos, como as de educação”, afirma Anna Peliano, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e responsável pelo estudo.

Uma das empresas que ajudaram a puxar para baixo o volume total dos investimentos no país em 2013 foi a Vale. Os aportes da mineradora nesse período somaram 134 milhões de dólares. Trata-se de uma soma vultosa, mas 40% menor do que a dedicada pela companhia no ano anterior. Em resposta à reportagem da revista Exame, a empresa informou que a redução em 2013 se explica, em parte, porque menos investimentos em infraestrutura física para realização dos projetos sociais foram necessários no período.

É fato que a Vale tem sofrido nos últimos anos com a queda acentuada do preço do minério de ferro. Em 2012, ano anterior à realização da pesquisa, a receita e o lucro da empresa caíram 23% e 51%, respectivamente. De maneira pragmática, ninguém espera que os investimentos sociais passem incólumes por um período de crise.

Cortes abruptos nessa área, porém, podem colocar a perder os resultados conquistados até então. “A filantropia, para trazer resultado, é por natureza um investimento de longo prazo, e não uma despesa pontual”, afirma Regina Célia, diretora da ONG Comunitas. “Além disso, nos momentos de retração econômica, as demandas sociais se tornam ainda mais preementes”. Eis o dilema atual: precisamos como nunca da filantropia, mas os recursos tendem a cair conforme a crise avança.

Fonte: Revista Exame