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| São Paulo - 04/11/2009
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O Cinema como factor de afirmação da identidade cultural
A organização da 10ª Festa do Cinema Francês, que decorre entre 7 de Outubro e 10 de Novembro em algumas cidades portuguesas, constitui um evento de grande relevância cultural que deve motivar uma reflexão sobre o papel do cinema na afirmação da identidade cultural dos povos.
A iniciativa, que passou no último fim-de-semana pelo Teatro Municipal de Faro com a exibição de uma dezena de obras representativas da melhor cinematografia francesa, foi organizada pelo Instituto Franco Português com o apoio da embaixada de França em Portugal e de um conjunto significativo de patrocinadores.
Entre os filmes exibidos encontram-se obras recentes de cineastas aclamados como Jacques Rivette, Claude Chabrol, Jean Paul Rappeneau e Costa Gravas, para além de obras menos conhecidas de uma nova geração de realizadores franceses.
Num período em que se assiste a uma profunda transformação do cinema, cada vez mais dependente de factores económicos que determinam o próprio sistema de distribuição e condicionam a exibição dos filmes nas salas de cinema, um evento como a 10ª Festa do Cinema Francês, assume uma importância fundamental na luta contra a tendência de homogeneização da produção cinematográfica contemporânea que tem vindo a ser imposta pela indústria de cinema de Hollywood.
Nesse sentido, a realização deste evento constitui uma iniciativa importante com vista a contrariar a hegemonia do cinema comercial de Hollywood, que actualmente controla quase por completo os circuitos de distribuição e exibição cinematográfica em toda a Europa, e que só poderá ser eficazmente contrariada através da implementação de um sistema de cotas de exibição que permita ao cinema europeu ultrapassar o circuito restrito dos festivais de cinema, cinematecas ou salas especializadas e chegar finalmente ao grande público.
Contra a ditadura dos Blockbusters americanos, veículos de uma estética visual anódina e cada vez mais influenciada pelos jogos de computador, o cinema europeu deve assumir-se como alternativa não só ao nível estético, mas também numa perspectiva de multiculturalidade e proximidade com as diversas realidades nacionais, contrariando desse modo a actual tendência de uniformização do gosto dos espectadores, resultante de um processo de globalização económica e cultural que tem precisamente na indústria audiovisual norte-americana um dos seus principais instrumentos.
O apoio institucional que a Festa do Cinema Francês recebeu das autoridades gaulesas, constitui também um sinal da importância que o cinema assume presentemente na estratégia de afirmação cultural da França no actual panorama europeu.
Nesse sentido, acredito que igual visão estratégica do cinema deveria ser seguida pelo governo português, nomeadamente através de um forte incremento dos apoios à produção cinematográfica nacional, acompanhada pela implementação de um programa de promoção do cinema português no estrangeiro, tendo em vista a divulgação, não só da cinematografia nacional, mas acima de tudo da nossa própria identidade cultural, expressa com naturalidade através da obra de cineastas que revelando um estilo pessoal, conseguem através do cinema, reflectir sobre um vasto conjunto de temas que marcam a sociedade portuguesa contemporânea, proporcionando desse modo aos espectadores nacionais e estrangeiros um olhar português sobre o pais e o mundo em que vivemos.
Na actual sociedade da imagem, o cinema constitui um instrumento fundamental na afirmação cultural dos povos. A defesa das cinematografias nacionais e a sua divulgação externa devem por isso constituir instrumentos fundamentais na política cultural de qualquer governo que saiba perceber a importância do cinema como factor de afirmação da identidade cultural de um povo.
Fonte: regiaosul.pt
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