
Pastore: na defesa da livre negociação entre empregado e empregador |
Uma das maiores autoridades brasileiras, senão a maior, quando o assunto são as relações do trabalho, José Pastore critica a postura do governo de regular essa área
Professor titular da Faculdade de Economia e Administração e da Fundação Instituto de Administração, ambas da Universidade de São Paulo (USP), José Pastore assegura que a redução, por lei, da jornada de trabalho de 44 horas semanais para 40 horas não trará aumento do emprego no País.
Não encontrei uma só evidência de que a redução da jornada por lei redunde automaticamente em mais empregos, afirma Pastore. Para ele, a empresa brasileira terá, sim, aumento de custos se a polêmica Proposta de Emenda Constitucional (PEC) for aprovada pelo Congresso Nacional.
O professor Pastore, que também é pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) e consultor de relações do trabalho de diversas instituições, como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Federação Nacional dos Bancos (Febraban), e membro do Conselho Superior de Responsabilidade Social da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), falou ainda da necessidade de se regulamentar a terceirização no Brasil e sobre o polêmico estudo do governo que defende que as empresas distribuam obrigatoriamente os lucros e resultados, independentemente de acordo entre as partes.
Revista da Indústria O Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e as centrais sindicais dos trabalhadores dizem que a redução da jornada de trabalho de 44 horas semanais para 40 horas semanais pode gerar 2,2 milhões de empregos no Brasil. Isso é correto?
José Pastore O papel aceita tudo. Em mais de 20 pesquisas sobre o assunto, não encontrei uma só evidência de que a redução da jornada por lei redunde automaticamente em mais empregos.
RI A redução, se aprovada no Congresso, se dará sem a respectiva redução dos salários. Isso não significa um aumento no custo para as empresas e, portanto, uma perda de competitividade do produto brasileiro?
JP O aumento de custo decorre não só da redução das quatro horas, mas sobretudo de uma série de providências que as empresas têm de tomar para adotar a medida: compra de mais máquinas e equipamentos, despesas com recrutamento e ajustamento de novos funcionários, ampliação das facilidades atuais, como restaurante, transporte e ambulatório, e incorporação dos benefícios negociados nos acordos e convenções a uma força de trabalho mais numerosa. A conta vai longe. Tudo isso afeta a competitividade, desestimula o investimento e conspira contra o emprego.
RI O Brasil corre o risco de perder ainda mais espaço, tanto aqui dentro quanto em terceiros mercados, para seus competidores estrangeiros mais diretos, como China, Rússia, Índia, Argentina e México?
JP Não há duvida. O alemão que compra as nossas mercadorias não vai aceitar um aumento de preços de 2% ou 3% decorrente da redução de jornada. Ele vai procurar o México ou algum país do Leste Europeu. Internamente, corremos o risco de as empresas nacionais terem de enfrentar preços de importados muito mais baixos.
RI Como é a experiência internacional na questão da jornada de trabalho? Alguns países, como a França, reduziram a jornada legal. Que efeitos surgiram disso? Foram criados mais empregos?
JP Nos países avançados, a jornada legal de trabalho tem se mantido estável e longa. A negociação permite diferenciar as jornadas por setores de atividade, por tamanho de empresa, por características da força de trabalho etc. O único país que recentemente aditou essa redução por lei foi a França, mas, em 2008, teve de voltar atrás: as empresas foram liberadas para contratar mais horas. Isso porque os investimentos se reduziram e os empregados reclamaram que, com 35 horas, o trabalho estava sendo muito intenso e estressante.
RI Houve uma grita geral contra a redução, mas, pelas palavras dos líderes empresariais, não é por causa da redução em si, e sim pelo fato de ser feito por meio de lei, não da negociação. Se fosse por essa via, a redução da jornada de trabalho seria factível?
JP Isso já vem acontecendo e de maneira bastante intensa. De todas as jornadas existentes, a de 40 horas é a que mais tem crescido nos últimos anos, em especial na indústria. Tudo ajustado por negociação. Quem pode reduzir reduz. Quem não pode adia.
RI Quais as probabilidadeschances de a PEC 231 ser aprovada no Congresso neste ano, que é eleitoral?
JP Não sou político. Não tenho essa sensibilidade. O jogo é muito complexo.
RI Recentemente foi divulgado que o governo tem um estudo que defende o pagamento obrigatório de lucros e resultados das empresas aos trabalhadores. Isso é constitucional? Qual o entendimento dos empresários em relação a essa questão?
JP Essa obrigatoriedade aumentaria ainda mais as já elevadas despesas de contratação, os encargos sociais, com impactos negativos nos custos de produção, na competitividade das empresas, nos seus investimentos e na geração de empregos. Tudo isso numa hora em que se fala em desonerar a folha de salários. Essa proposta despreza completamente a filosofia que orientou a criação da Participação nos Lucros e Resultados (PLR): a de levar empregados e empregadores a trabalharem juntos e em um ambiente de confiança e parceria. Tudo isso por meio do estabelecimento de metas, como preconiza a lei. A livre negociação entre as partes tem permitido ajustes dessas metas às especificidades das empresas e do quadro de pessoal, o que não se consegue fazer por lei. Há casos em que a meta estabelecida é a economia de energia. Em outros, busca-se a melhoria da qualidade dos bens e serviços. Em alguns acordos, os benefícios são diferenciados por grupos de empregados ou setores da empresa em função da sua importância estratégica no alcance das metas.
R I Mais uma vez a imposição de uma lei não é o caminho?
JP Nenhum desses ajustes sobreviverá se uma nova lei vier a obrigar todas as empresas a distribuir lucros independentemente do desempenho dos empregados. Será um golpe letal na filosofia de integração e parceria que preside o dispositivo constitucional. O sistema perderá a adaptabilidade que hoje é garantida pela livre negociação. Isso não é teoria. Dezenas de pesquisas têm mostrado que a PLR constitui um mecanismo eficiente de melhoria da produtividade das empresas e elevação da renda dos empregados, porque consegue transformar interesses divergentes em interesses convergentes. Esse estudo tem o potencial de causar sérios prejuízos às empresas, aos trabalhadores e às boas relações no trabalho. Não há razão para retroceder e aniquilar um mecanismo de entendimento que está dando certo.
RI O que o senhor tem a dizer sobre as mudanças recentes no Seguro Acidente de Trabalho (SAT) e no Fator Acidentário de Prevenção (FAP)? Elas aumentaram o cálculo para muitas empresas. Como as empresas driblarão essa alta repentina nos custos?
JP Há uma grande contradição no Brasil de hoje. Enquanto os ministérios da área econômica anunciam a disposição de desonerar a folha de pagamentos, o Ministério da Previdência Social provoca um aumento brutal do SAT. A variação pode saltar de 2% para 4%. Há casos ainda mais graves. Isso vai incidir nas despesas gerais de contratação, que já chegam ao astronômico valor de 102,43% do salário. Nos casos citados, tais despesas ultrapassaram a casa dos 106%. É um absurdo. Parece que os governantes não se entendem. E quem paga a conta é o povo, porque o aumento referido desestimula os investimentos e reduz os empregos.
RI O senhor acredita que está havendo um viés intervencionista do poder público? Pode, por isso, haver desinvestimento no Brasil?
JP Não há duvida. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) e outras centrais sindicais sempre reivindicaram mais negociação. Agora que chegaram ao governo praticam mais legislação porque esse é um caminho mais rápido embora enganoso de concretizar os pleitos dos sindicalistas. Isso é ilusório. Intervenção dá em sonegação. No campo do trabalho, desestimula os investimentos e conspira contra o emprego.
RI
A terceirização não é regulamentada no Brasil. Como isso prejudica a indústria brasileira? Ela perde competitividade em relação aos outros países de mesmo porte?
JP Nenhuma empresa pode fazer tudo sozinha. Isso é assim em todas as partes do planeta. Não há empresa construtora que tenha nos seus quadros todos os funcionários que entram na edificação de um prédio: arquitetos, engenheiros, pessoal de terraplanagem, mestres de obras, pedreiros, eletricistas, encanadores, vidraceiros etc. Tudo isso é contratado com quem faz melhor, mais rápido e mais barato. O travamento da terceirização significa o travamento do progresso. O Brasil precisa sair desse impasse e aprovar de uma vez por todas regras simples de terceirização que protejam os trabalhadores e deem segurança jurídica às empresas. Do contrário, estaremos perdendo competitividade, sim.