
SPEKTOR: "Ainda há entraves para o Brasil tornar-se liderança na América Latina" |
Matias Spektor é coordenador do Centro de Estudos sobre Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV) e de seu programa de MBA em relações internacionais. Doutor em relações internacionais pela Universidade de Oxford, pesquisador visitante no instituto Ideas, da London School of Economics, é autor do recém-lançado livro Kissinger e Brasil. Em entrevista à Revista da Indústria, ele analisa que, neste mundo pós-crise, a abertura das principais instituições internacionais aos países emergentes, a expansão do G8, a reforma no sistema de votações do FMI e do Banco Mundial e a institucionalização das reuniões do Bric são mudanças que vieram para ficar. Na reunião de Copenhague haverá um avanço: desse encontro se sairá com definições claras da posição de cada um dos países. Não haverá espaço, segundo ele, para esconder o jogo.
Spektor avalia que para o Brasil se impor como líder no continente há dois entraves. O principal deles é que a opinião pública brasileira não está disposta a pagar os custos de ser potência regional e o episódio Zelaya é uma prova disso. Mercosul e Alca? Tanto um quanto outro estão francamente moribundos como modelo.
Revista da Indústria - Como o senhor analisa a conquista pelo Brasil de um assento rotativo no Conselho de Segurança da ONU. Seria esta uma sinalização de que o País poderia ser aceito como membro permanente? Por que a reivindicação do Brasil demora tanto a se concretizar?
Matias Spektor O fato de o Brasil ter assumido um assento rotativo no Conselho de Segurança não significa nada, pois é um fato muito comum. Existem dez assentos rotativos, que fazem parte da estrutura tradicional da ONU, e o Brasil já assumiu uma dessas vagas inúmeras vezes. Depois do Japão, é o país que mais vezes ocupou um desses assentos. Já a vaga de membro permanente será muito difícil de ser conquistada. Para abrigar o Brasil no conselho, seria preciso, por exemplo, uma reforma da estrutura da ONU, que depende da conivência dos cinco membros permanentes e obviamente eles não têm nenhum interesse nisso. Seria preciso também o apoio de dois terços dos mais de 190 países da assembleia geral. Além disso, o Brasil teria de concorrer com inúmeros países igualmente merecedores de ocuparem uma cadeira, ou seja, para obter o que quer, o Brasil teria, antes, de atravessar enormes disputas políticas.
RI Passado um ano da crise financeira mundial, quais as mudanças que, na sua opinião, se estabilizaram no cenário mundial?
MS Acredito que não há volta na abertura das principais instituições internacionais aos países emergentes e está consolidada a entrada em cena de novos grandes países em desenvolvimento. Também vieram para ficar a expansão do G8, a reforma no sistema de votações do FMI e do Banco Mundial e a institucionalização das reuniões do Bric, que deixou, definitivamente, de ser apenas uma sigla. Está consolidado. O que não mudou: a crença de que o capitalismo é o sistema mais eficaz para promover o crescimento econômico mundial. O capitalismo continua mais vivo do que nunca.
RI Com o baque do Japão durante a crise, mantém-se a força dos Tigres Asiáticos?
MS As notícias que têm circulado revelam que, embora todos os países do mundo tenham perdido com a crise, uns perderam bem mais que outros. Em termos relativos, a China e a Índia, mas principalmente a China, não se deram tão mal assim. A China pode não crescer mais acima de 10%, afinal todos foram de alguma forma afetados, mas vai continuar crescendo 8% ou 9%. O que não deixa de ser bom para o Brasil, pois parte da positiva trajetória econômica do País, nos últimos dez anos, está imbricada com a trajetória chinesa. Sobre o Japão, é muito cedo para dizer qualquer coisa, pois a economia japonesa já vinha declinando há muitos anos.
RI O que muda na geopolítica mundial a decisão de transformar o G20 no grande fórum de discussão da economia mundial, acolhendo as mais fortes economias emergentes?
MS Nessa questão, é preciso considerar três pontos importantes. Primeiro, é cedo para dizer que o G20 vai ser o principal fórum de decisões mundiais. Segundo, ainda não se sabe qual será o impacto que o grupo vai ter no processo decisório em relação à economia internacional e ao surgimento de normas e regras mais legítimas. E terceiro: até que ponto a ampliação do grupo não vai acabar engessando o processo de decisão. Obviamente, é muito mais difícil chegar a um consenso em uma mesa de 20 do que em uma mesa de oito. É sempre bom lembrar que o G8 era G3 quando foi criado, em 1973. Quanto mais membros, mais interesses conflitantes haverá e fica mais difícil chegar a um consenso.
RI Estamos às vésperas da Conferência Mundial sobre o Clima, a COP15, o senhor entende que o encontro terá condições de avançar em relação ao Tratado de Kyoto quanto às responsabilidades de metas para a redução de emissões?
MS Não acredito em resultados concretos na reunião de Copenhague, mas também acho que resultados específicos é o que menos importa ali. O principal avanço que deve sair desse encontro é o estabelecimento de um marco conceitual para lidar com o problema. Na COP15, não haverá espaço para esconder o jogo: todo mundo será obrigado a por as cartas na mesa, explicitar sua posição. Tudo vai depender da capacidade dos Estados Unidos, da China e Índia chegarem a um consenso sobre qual será o arcabouço geral, básico. Os Estados Unidos só vão assinar um tratado se, na percepção americana, China e Índia ficarem comprometidas.
RI E qual a chance disso acontecer?
MS Não é uma tarefa fácil em meio à imensa briga de interesses, mas é possível ficar otimista em relação a isso, principalmente depois que, em outubro, circularam notícias de que China e Índia estavam tentando formalizar um acordo comum pré-Copenhague. Estão tentando encontrar uma forma de lidar com o problema do clima sem afetar seu crescimento. Não querem metas de redução de emissão excessivamente sofisticadas, mas mostram disposição em evoluir, no argumento tradicional de que podem poluir, para até quanto podem poluir. Acredito que devem aceitar limites razoáveis.
RI A força da Rússia no Bric já foi contestada, isso sinalizaria o enfraquecimento desse bloco?
MS A Rússia é certamente uma potência declinante se se comparar com o império soviético, mas, em termos de poder, continua sendo muito relevante. Regionalmente, exerce um papel central. É detentora de potencial nuclear considerável e por isso tem capacidade para atrapalhar ou facilitar as decisões que devem ser tomadas no ano que vem, na Conferência Mundial de Revisão do Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Depois, continua uma potência econômica, por ser uma grande produtora de gás e petróleo, o que lhe garante também um papel importante nas discussões sobre o clima. Além disso, é uma potência financeira, pois, gostemos ou não, uma crise por lá afeta fortemente as finanças mundiais. Já demonstrou isso uma vez. Quanto ao bloco do Bric, a trajetória de nenhum dos quatro países que o compõem é declinante neste momento, logo a tendência está longe de ser de enfraquecimento. Muito pelo contrário.
RI Qual a posição da América Latina hoje em relação às forças políticas e econômicas mundiais?
MS O sucesso econômico de alguns países latino-americanos como Chile, Brasil, Peru, não garante que o continente vai ganhar um papel de maior destaque na geopolítica mundial. Há muita diferença entre os países: enquanto há alguns com enormes possibilidades econômicas, há outros, como a Argentina, que estão em trajetória econômica declinante. No caso do Brasil, porém, acredito que a atual posição de destaque tende não só a se manter como a se espalhar para outras áreas, como a segurança da América do Sul.
RI O Brasil está em melhor posição hoje, mas o senhor não acha que o País tem tido dificuldades para se impor como liderança do continente? Quais seriam, na sua avaliação, os maiores entraves?
MS Existe hoje uma grande diferença entre o que o mundo espera do Brasil e o que o Brasil quer do mundo. Os Estados Unidos, por exemplo, gostariam que o nosso País assumisse o papel de síndico do continente sul-americano, mas não temos nem dinheiro nem interesse nisso. Acredito que para o Brasil se impor como líder no continente há dois entraves principais. O primeiro é que a opinião pública brasileira tem pouco apetite para uma política externa assertiva na região. Ou seja, os brasileiros não estão dispostos a pagar os custos de ser potência regional e como, numa democracia, os governos precisam assegurar apoio popular. O segundo obstáculo é que a América Latina não é uma região tranquila, tem problemas econômicos e conflitos sociais importantes. É difícil ser líder nessa região.
RI O episódio Manuel Zelaya, em Honduras, poderia ser um exemplo disso?
MS Exatamente, embora a crise não tenha sido produzida pelo Brasil, esse é um bom exemplo do tipo de problema que o Brasil vai encontrar na medida em que sua agenda de política externa for ampliada. Terá, então, necessariamente, de manifestar opinião sobre temas em relação aos quais preferiria se calar. A denúncia de atos de tortura contra a embaixada brasileira em Tegucigalpa, levada pelo representante do Brasil à OEA, pode ter sido um primeiro passo, embora ainda seja difícil uma interpretação, pois o assunto está na chapa quente.
RI Na sua avaliação, qual o destino do Mercosul e da Alca?
MS Tanto o Mercosul, quanto a Alca, no seu modelo original, estão francamente moribundos, definitivamente perderam espaço entre os temas relevantes no continente. E a opção brasileira por fundar a Unasul talvez possa ser interpretada como uma tentativa de diluir a importância do Mercosul no horizonte da política externa brasileira. Não acredito que haja boas perspectivas para o Mercosul no curto prazo. E a Alca não está em melhor posição. Não há apetite para ela nem no Brasil, nem no México, nem nos Estados Unidos, onde, hoje, o ímpeto para o livre comércio minguou significativamente. Nem Mercosul nem Alca são vistos como modelo gerencial plausível para a próxima década. No caso do Mercosul, esse modelo não era satisfatório para os sócios menores, embora fosse para o Brasil, que acabou batendo de frente com uma enorme postura protecionista por parte da Argentina.
RI Na sua avaliação, o que justifica a entrega do prêmio Nobel da Paz ao presidente americano Barack Obama? Seria mesmo, como críticos levantaram, um prêmio preventivo?
MS Se observarmos ao longo de sua história, o comitê que escolhe os premiados com o Nobel não necessariamente por posições concretas. Várias vezes já distinguiu ideais, conceitos, visões de mundo. E esse é o caso do prêmio dado a Barack Obama. Se você ler a justificativa dada, fica claro que, embora ele ainda não tenha provado seu valor como estadista, por estar a pouco tempo no poder, na avaliação do comitê já demonstrou que tem uma maneira de olhar o sistema internacional diferente de seu antecessor. Se Bush tinha o terrorismo como tema principal, Obama não faz diferença entre civilização e barbárie.
RI Mas, apesar das promessas de campanha, o envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Afeganistão continua forte, podem até levar mais tropas americanas ao campo de batalha?
MS A situação do Afeganistão é muito complicada. E, se a história serve de guia, as perspectivas não são boas. Por lá, enterraram o pé tanto britânicos quanto soviéticos. E olha que, no caso da Rússia, eles tinham muito mais capacidade de mobilização de tropas. O problema de Obama é conseguir conciliar a demanda interna para uma retirada e as pressões do sistema político e militar, na tentativa de justificar o que já foi feito, as mortes que se acumulam. Nesse sentido, a lógica democrática americana complica a tomada de decisão e ajuda a explicar o gap entre promessas e realidade. É preciso também levar em conta que Obama está em seu primeiro mandato. Para manter a possibilidade de se reeleger, tem de ser avesso ao risco. Obviamente, isso não é uma característica dele, mas uma postura comum entre os políticos americanos. É preciso aguardar o segundo mandato.
RI E o caso do Iraque?
MS Aí a situação é mais simples e o movimento de retirada lenta, progressiva, é bastante claro.
RI No campo doméstico, o senhor acredita que Obama vencerá o embate pela reforma do Sistema de Saúde. O assunto, explosivo, já arranhou a imagem do presidente americano.
MS Não conheço esse assunto o suficiente para opinar, mas acho que o que é relevante é o fato de que essa agenda interna complica a agenda externa, bastante ousada. Há pouco espaço, tanto no congresso como na opinião pública americana, para mais uma grande frente de batalha.
RI O senhor acredita que a comunidade mundial acompanhará, no ano que vem, as eleições presidenciais no Brasil, uma vez que o presidente Lula tornou-se uma liderança reconhecida?
MS Não vejo motivo para que o mundo se preocupe com as eleições brasileiras. Vivemos numa democracia consolidada e não há nenhum candidato que possa representar qualquer mudança, qualquer ruptura, nem na política econômica nem na social. Embora se saiba muito pouco sobre o que esses candidatos a candidatos pensam sobre política externa, se a história serve como guia, não haverá mudanças drásticas. Logo não há apreensões. A única consequência relevante é a saída do presidente Lula, já que a pessoa dele, nos últimos anos, foi um fator de influência importante nas relações internacionais. E isso certamente não terá continuidade, ganhe quem ganhar.