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10° Encontro de Energia
São Paulo - 06/10/2009


Monopólio da Petrobras faz gás nacional ficar mais caro que boliviano

Política de precificação da estatal para conter consumo não seguiu queda da demanda. Indústria sugere diálogo para resolver problema

A redução do preço do petróleo no mercado internacional puxou para baixo o valor do gás natural boliviano, hoje cotado em US$ 6 por metro cúbico de BTU (unidade inglesa de medida). Na contramão, o preço praticado do gás brasileiro é 50% mais caro: US$ 9 o MBTU.

A explicação estaria na política de precificação criada pela Petrobras para desestimular o aumento da demanda interna e, assim, deslocar o energético para geração termelétrica, a fim de compensar a redução no nível de reservatórios de hidrelétricas no ano passado. A medida ampliou o consumo das termelétricas para mais de 15 milhões de MBTU, em 2008. Atualmente, o uso de gás para produção de energia está na casa dos 4,8 milhões.

O problema, de acordo com debatedores reunidos nesta terça-feira (6), no 10° Encontro Internacional de Energia, promovido por Ciesp e Fiesp, em São Paulo, é que o valor cobrado pelo gás não acompanhou a nova realidade brasileira. “Esse preço foi estabelecido num momento em que havia pouco gás e alta no preço do petróleo”, recordou Rodolpho Tourinho, ex-ministro de Minas e Energia.

Tourinho, atual assessor de relações institucionais e governamentais da Fiesp, afirmou que o alto preço decorre de monopólio exercido pela Petrobras. “A produção está 95% concentrado na mão dela e a distribuição, 100%”, enfatizou.

Na avaliação de Luiz Pedro Biazoto, consultor da  Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), a valorização do gás prejudica o segmento. “Como é que o setor vai competir com um preço interno maior do que o praticado por seus competidores diretos, como Estados Unidos e Itália?”, questionou. Nos EUA, o MBTU custa US$ 3,5 – duas vezes e meia menos que no Brasil.

Biazoto afirmou que algumas empresas estão reduzindo a produção e outras, como a GPC Química, do Rio de Janeiro, tiveram que encerrar suas atividades por falta do insumo, tanto como energético como matéria-prima.

“Este é o momento de aproveitar o pré-sal para colocar a discussão do gás como matéria-prima para a indústria química”, sugeriu o representante da Abiquim. “Estamos no instante exato de adotar essa política, porque demora quatro anos para implantar uma fábrica, justamente o período em que o pré-sal entrará em operação”, alertou Biazoto.

Diálogo

Segundo levantamento apresentado pela GasEnergy, o volume total de gás natural que circula pelo Brasil é de cerca de 60 milhões de MBTU anuais – sendo o setor industrial o maior consumidor, com 23 milhões, seguido pelo petroquímico (6,8 milhões). “Está sobrando gás por causa da redução do consumo provocada pela crise e do equilíbrio entre oferta e demanda”, avaliou Ricardo Pinto, diretor de negócios da empresa.

O executivo afirmou que há uma folga de 20 milhões de MBTU devido a um excedente de 10 milhões no volume contratado da Bolívia (do total de 31 milhões, o Brasil só tem importado 21), e outros 10 milhões da produção interna.

O diretor da GasEnergy, no entanto, alertou que o Plangás (plano da Petrobras para expansão da oferta) deve ampliar a produção interna para 71 milhões de MBTU até 2013, ou seja, antes da operacionalização do pré-sal. “O País terá muito gás, mas esse gás precisa ter um mercado firme que possa consumi-lo”, indicou Pinto.

Para Lucien Belmonte, superintendente da Associação Técnica Brasileira das Indústrias Automáticas de Vidro (Abividro), o excesso de oferta pode indicar algum erro de comunicação do mercado. “A única forma de diminuir o custo [para as distribuidoras] é aumentar o consumo. O problema é que não estamos conseguindo chegar a um acordo”, reconheceu.

Belmonte propôs reunir produtores, distribuidores e consumidores para tentar acordar um preço mínimo que contente a todos. “A alternativa que temos é sentar e conversar. Já fizemos tudo, menos isso”, sugeriu.

Nivaldo Souza, Agência Indusnet Fiesp

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