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Trabalho, crescimento econômico e sustentabilidade em discussão na Fiesp

Hélio Zylberstajn fala sobre contribuição da indústria para o trabalho decente e o crescimento sustentável

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

Gracia Fragalá, diretora titular do Comitê de Responsabilidade Social e vice-presidente do Conselho Superior de Responsabilidade Social da Fiesp, abriu a edição desta quinta-feira (31 de agosto) dos “Encontros Fiesp de Sustentabilidade, com o tema “Trabalho, crescimento econômico e sustentabilidade”. Para o debate, concebido para acompanhar o assunto destacado no boletim do Cores, com foco na meta 8 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (Trabalho decente e crescimento sustentável), foram convidados representantes da universidade, da indústria e da área sindical, com a mediação de Claudia do Amaral Vieira.

Hélio Zylberstajn, professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), coordenador do Projeto Salariômetro, membro do Conselho Superior de Estudos Estratégicos e do Conselho Superior de Relações do Trabalho da Fiesp, fez a apresentação Como as indústrias podem apoiar o trabalho decente e o crescimento econômico?

Dividiu em 5 pontos sua palestra:

Origens e desenvolvimento da responsabilidade social corporativa;

Estilos de desenvolvimento econômico;

Os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável;

O Objetivo 8;

Contribuição das indústrias.

Origens

Inicialmente rejeitado até por grandes economistas, como o norte-americano Milton Friedman, o conceito de responsabilidade social da empresa foi ganhando aceitação e virou bandeira do mundo empresarial, afirmou o professor. Objetivos sociais, ambientais e econômicos passaram a ser o padrão a perseguir, compondo o triple bottom line.

Também foi sendo refinada a definição dos aspectos sociais do trabalho. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) criou o conceito de trabalho decente, e a ONU depois lançou seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Estilos

Zylberstajn explicou a diferença entre crescimento e desenvolvimento econômico, que modifica a sociedade enquanto ocorre. No Brasil se encara o desenvolvimento muito mais como um fim que como um meio, disse. Há grandes problemas no país, incluindo ambientais e urbanos.

O caminho da industrialização poderia ter sido trilhado com custos sociais e ambientais muito mais baixos. Um desses custos é o excedente de mão de obra, que leva à informalidade do mercado de trabalho. Exemplo de melhor caminho está no Japão, que fez uma reforma agrária e ocupou as pessoas no campo, assim como a Coreia do Sul. Os EUA também fizeram isso, ocupando a fronteira agrícola com a distribuição de terra – o que também ajudou a manter os salários, devido à existência de uma opção.

E no Brasil, além disso, as políticas de fomento incentivam o investimento poupador de mão de obra.

O Federal Reserve, o banco central dos EUA, além do controle monetário, tem como objetivo o emprego. “Se exagera na taxa de juros, pode prejudicar o emprego, então tem que balancear.” O desenvolvimento econômico não pode se dissociar do ambiente social em que se insere, em nome inclusive da sustentabilidade, defendeu Zylberstajn.

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“Encontros Fiesp de Sustentabilidade, com o tema “Trabalho, crescimento econômico e sustentabilidade”. Foto: Everton Amaro/Fiesp


Os objetivos

O professor fez questão de ler os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), definidos pela ONU.

O objetivo 8, com relação direta com o tema do encontro, desdobra-se em diversos itens, dos quais o professor destacou estes dois:

8.6 Até 2020, reduzir substancialmente a proporção de jovens sem emprego, educação ou formação

8.b Até 2020, desenvolver e operacionalizar uma estratégia global para o emprego dos jovens e implementar o Pacto Mundial para o Emprego da Organização Internacional do Trabalho.

Em resumo, o professor da FEA disse que a contribuição das indústrias deve ser imitar a Alemanha e a Coreia do Sul e qualificar os jovens. Para isso, devem se tornar uma extensão da sala de aula, para qualificar. E o Senai pode contribuir com sua experiência para treinar supervisores.

No Brasil, engenharia e áreas correlatas respondem atualmente por apenas 5,2% das pessoas graduadas em faculdades, destacou Zylberstajn.

Sustentabilidade na prática

O case do Grupo Malwee – responsável por 9 marcas, 6.000 colaboradores e 35 milhões de peças produzidas e distribuídas por ano – foi apresentado por Taise Beduschi, da área de sustentabilidade. Entre os objetivos da Malwee está o desenvolvimento de ações que estimulem o uso consciente de seus produtos pelo consumidor, até seu destino final. No processo produtivo, a sustentabilidade é buscada, por exemplo, com a redução do consumo de água e energia. Também se estende essa busca de sustentabilidade aos fornecedores.

No Brasil, a empresa contabiliza 2.747 fornecedores, e desse total, 190 (6,9%) são empresas que atuam como prestadores de serviço para o processo de costura e acabamento das roupas. Essas confecções, importantes para a manutenção da capacidade produtiva e competitividade, caracterizam-se por serem empresas de pequeno porte com uso intensivo de mão de obra, o que amplia o risco de ocorrerem situações de não conformidade com a legislação trabalhista e os princípios de respeito e garantia dos direitos humanos.

Um dos maiores investimentos da Malwee, dentro do Plano 2020, é o fortalecimento das políticas internas para assegurar que seus fornecedores cumpram estritamente todas as regulamentações legais do país, bem como a criação de novos mecanismos de controle para impedir a ocorrência de práticas que estejam em desacordo com seus valores e compromissos.

Camila Zelezoglo, coordenadora de Negociações Internacionais do Sindicato das Indústrias de Fiação e Tecelagem do Estado de São Paulo (Sinditêxtil), citou entre as iniciativas do setor:

Parceria Público-Privada OIT, iniciada em maio deste ano, com duração prevista de 18 meses, na Região Metropolitana de São Paulo, tendo como eixos de atuação trabalhadores (as) migrantes, donos de oficina de costura e instituições (federal, estadual e municipais);

Laboratório da Moda Sustentável, iniciativa da Abit, Abvtex e OIT, com investimento inicial do Instituto C&A e realização do Instituto Reos. Suas duas fases preveem a construção de cenários futuros e um Laboratório social;

Programas Melhoria da Produtividade, com 120 horas de consultoria especializada durante 3 meses e a meta de redução do excesso de produção, tempos de espera, transporte, inventário e defeitos.

Os Encontros

Os “Encontros Fiesp Sustentabilidade”, do Comitê de Responsabilidade Social da Fiesp (Cores), têm como objetivo disseminar os conceitos e os valores da sustentabilidade. Periodicamente um especialista, representantes da indústria e dos sindicatos são convidados a apresentar temas e compartilhar seus conhecimentos e boas práticas de forma a inspirar, orientar e motivar o desenvolvimento de novas ações.