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‘Temos que focar na China e nos Estados Unidos’, diz conselheiro em reunião na Fiesp

Antonio Carlos Rodrigues do Amaral foi um dos palestrantes convidados do debate do Consea na manhã desta segunda-feira (18/06)

Isabela Barros, Agência Indusnet Fiesp

De olho no presente, mas com foco nas possibilidades do futuro, foi realizada, na manhã desta segunda-feira (18/06), a reunião do Conselho Superior de Estudos Avançados (Consea) da Fiesp. Na pauta, “as oportunidades e desafios para o Brasil: políticas comerciais e reforma tributária do governo Trump e a ascensão da China”.

O encontro foi mediado pelo presidente do conselho, Ruy Martins Altenfelder Silva e teve a participação do presidente em exercício da federação, José Ricardo Roriz Coelho. Também esteve presente o terceiro vice-presidente da casa, Rafael Cervone Netto. Já os palestrantes convidados foram o conselheiro do Consea e professor na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, Marcos Troyo, e o também conselheiro do Conselho Superior de Assuntos Jurídicos e Legislativos (Conjur) Antonio Carlos Rodrigues do Amaral.

“Em março, uma pesquisa de investimento apontava para um crescimento do PIB de 2% este ano”, afirmou Roriz Coelho. “Agora, estamos em 1,5% de estimativa de crescimento”, destacou ao afirmar a importância de debater a economia brasileira e seus rumos.

Primeiro palestrante a se apresentar, Marcos Troyjo começou afirmando que, se extraterrestres chegassem na Fiesp a fim de saber o que de mais relevante acontece no mundo hoje, deveriam ser informados de três pontos em especial.

“Em primeiro lugar a chamada “desglobalização”, que tem como um dos motores a eleição do Donald Trump para a maior economia e potência militar do mundo, os Estados Unidos”, disse. “O segundo ponto é a emergência da China como força econômica e mundial, o que vai representar uma virada na economia internacional nos próximos anos”, explicou.

O terceiro ponto a relatar aos eventuais visitantes do espaço, conforme Troyjo, é o advento da indústria 4.0 na Alemanha, com “uma nova maneira de ver a economia”. “Estamos falando de empresas de tecnologia, que trabalham alinhadas com esse propósito”, disse.

Segundo o professor, a eleição de Trump representou um rompimento na política que vinha sendo observada nos Estados Unidos desde os anos 1940. “Agora, do ponto de vista econômico, temos o chamado trumponomics”, afirmou.

Na prática, isso significa que existe um processo de realinhamento econômico do mundo em curso, o que inclui, tendências como a transformação dos Estados Unidos em um “low cost country” com alta eficiência, um ambiente onde é possível produzir a preços muito baixos. “Para isso, é preciso promover competitividade tributária”, explicou. “Estamos passando agora por guerra tributária com impactos globais”.

Um segundo ponto da trumponomics é o renascimento do investimento em infraestrutura. “Vai ficar mais difícil oferecer pacotes de investimento em infraestrutura para estrangeiros”, disse. “Isso porque o segundo tempo do governo Trump vai ser focado exatamente nessa área”.

China 2.0

O tema da chamada China 2.0, tecnológica e pronta para assumir uma posição de liderança mundial, foi destacado por Troyjo. “Durante muito tempo os chineses administraram a sua moeda artificialmente desvalorizada e mantiveram o custo baixo da mão de obra”, disse. “Essa é a China 1.0, que já não é mais a mesma”, afirmou. “Agora o país direcionou parte importante de seus investimentos em pesquisa e desenvolvimento, se transformando numa grande receptora de patentes, a segunda maior do mundo”.

E isso pode ser bom para o Brasil. “A ascensão chinesa está promovendo no país um desinteresse em manter atividades de menor valor agregado, que agora estão migrando para o Vietnã e a Índia, por exemplo”, disse.  “Com isso, a economia indiana vem crescendo mais do que a China nos últimos dois anos”.

Mesmo diante desse cenário, o professor destacou que “nenhum dos candidatos a presidente do país tem projeto específico para China, o maior investidor direto no Brasil”. “Não conseguimos nem fazer reforma tributária”.

Tem que bater na porta

Em sua apresentação, Antonio Carlos Rodrigues do Amaral lembrou que em 1978 os Estados Unidos reconheceram a China como um governo legítimo, “recebendo massivos investimentos internacionais na década de 1980”. “Em dezembro de 2001, a China ingressou na OMC”, disse.

Hoje, conforme Amaral, as políticas de Donald Trump “deixam todos perplexos”. ”Ele escolheu a China como adversária principal”.

Diante da disputa, o Brasil pode e deve adotar uma postura mais ativa em busca de oportunidades. “Os Estados Unidos não vão comprar bife da China e vice-versa”, afirmou.  “A China é o nosso maior parceiro comercial, comprou US$ 50 bilhões de dólares do Brasil e vendeu US$ 28 bilhões no ano passado”, disse. “A diferença está na pauta de exportações, vendemos minério de ferro e soja para a China enquanto, para os Estados Unidos, vendemos mais industrializados”.

Assim, é preciso “pensar em uma política para a China”. “Parte substancial dos investimentos desse país são energéticos, uma boa oportunidade para nós”, disse. “Temos que ter uma agenda pé no chão, pragmática, focar na China e nos Estados Unidos”, afirmou. “Ter negociações comerciais com o estabelecimento de metas e uma boa coordenação entre os entes governamentais”.

E tudo isso com a “revisão do ambiente regulatório e das questões tributárias”.

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A reunião do Consea: foco nas oportunidades abertas pela concorrência entre a China e os Estados Unidos. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp