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“Por pior que esteja, o Mercosul é uma das poucas fontes de superávit comercial para o estado de São Paulo”, afirma diretor do Itamaraty

Bloco foi pauta da reunião do Conselho Superior de Comércio Exterior (Coscex) da Fiesp

Amanda Viana, Agência Indusnet Fiesp

Em sua origem, todo movimento de integração são processos políticos. No caso da União Europeia, a motivação foi evitar uma nova guerra e criar um espírito de cooperação. Já a criação do Mercosul começou a partir de uma aproximação entre Brasil e Argentina após ditaduras militares em ambos países. Foi traçando um paralelo histórico que o diretor do Departamento de Mercosul do Itamaraty, Reinaldo Salgado, iniciou sua palestra na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), nesta terça-feira (19/5).

Salgado falou aos membros do Conselho Superior de Comércio Exterior (Coscex) da Fiesp sobre as perspectivas para o Mercosul.

Para o diretor, o bloco tem um histórico de motivação política, mas desde o início foi um processo ambicioso, no qual queriam levar os países ao livre comércio em três anos e depois instituir a união aduaneira em tempo recorde. “O comércio do Mercosul foi um grande êxito e ainda é, mas poderia e deveria ser melhor, sim, porque temos barreiras comerciais que não deveriam existir”, disse.

Diretor do Departamento de Mercosul do Itamaraty, Reinaldo Salgado. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Diretor do Departamento de Mercosul do Itamaraty, Reinaldo Salgado. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


Ainda hoje o Mercosul é, no entanto, um escoamento preferencial de produtos industrializados. “Mais de 80% das exportações são de bens manufaturados e pelo menos metade disso em bens muito avançados, como carros”, explicou Salgado.

De acordo o representante do Itamaraty, todo processo de integração tem uma característica básica que é a tendência de concentrar a atividade econômica em polos mais dinâmicos da economia. “Por esse motivo os números de comércio são tão favoráveis a São Paulo, que é o maior polo dinâmico da economia do Mercosul”, completou. Os números, ainda hoje, dão razão aos que defendem o bloco de comércio, avaliou. “Por pior que esteja, o Mercosul é uma das poucas fontes de superávit comercial para o estado de São Paulo”.

Dados referentes ao comércio paulista em 2014, um ano reconhecidamente ruim, foram apresentados pelo palestrante. “O déficit de São Paulo no comércio exterior em 2014 foi de US$33 bilhões. No caso do Mercosul, tivemos exportações de US$9,5 bilhões e importações de US$4 bilhões. Então, São Paulo teve, no ano passado, um superávit com o Mercosul de US$5,5 bilhões”, frisou.

Argentina

As maiores críticas que o Mercosul recebe dizem respeito às restrições argentinas, afirma Salgado, e tendem a se atenuar na medida em que há a previsão de um novo governo no país vizinho do Brasil.  O palestrante avaliou que as restrições argentinas mudaram muito de motivação. “Até 2011, eram medidas, sobretudo, setoriais, que tinham como objetivo a proteção de determinados ramos da indústria”.

A partir de 2011, houve o aumento da restrição externa argentina, que passou a ser generalizada e com o objetivo central de obter superávit comercial. “O Brasil, por ser o principal parceiro da Argentina, certamente sairia prejudicado”, afirmou.

O palestrante explicou que o problema não são as regras, mas certas questões locais impactaram diretamente algumas políticas do Mercosul. “Vale lembrar que essa restrição externa deles é real, já que este ano a Argentina tem vencimentos de dívidas de bilhões de dólares, não tem acesso a mercados internacionais de crédito, e dificilmente terá acesso a investimentos”.

Medidas de crise como essa, que afetam o interesse nacional, tendem a pesar sobre os demais. “Se fôssemos pensar Mercosul como prioridade absoluta, a desvalorização da moeda brasileira em 1999 deveria ter sido conversada, mas não foi, e isso gerou desconfortos entre os países”, relembrou Salgado.