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Paraguai quer vender energia de Itaipu no mercado livre para financiar desenvolvimento

Vizinho sul-americano afirma que está "reinterpretando o tratado"; e se oferece como zona complementar à expansão econômica do Brasil

A pretensão do Paraguai de vender livremente os megawatts sobressalentes dos 7.000 MW a que tem direito por sua co-propriedade de Itaipu, cerca de 95% que obrigatoriamente devem ser repassados ao Brasil por US$ 360 milhões anuais – valor ajustado em julho deste ano, quando o Palácio do Planalto aceitou aumentar em 300% os US$ 120 milhões pagos até então –, ganhou novos argumentos nesta segunda-feira (5), durante o

10° Encontro Internacional de Energia

, que Ciesp e Fiesp realizam em São Paulo.

Foto: Fávio Martin


Carlo Quinto Mateo Balmelli, presidente da

parte paraguaia da hidrelétrica binacional

De acordo com o presidente da parte paraguaia da hidrelétrica binacional, Carlo Quinto Mateo Balmelli, a negociação da energia não usada por seu país no livre mercado pode patrocinar o desenvolvimento econômico do vizinho sul-americano.

“O Brasil é o país que vai ser competidor global e que vai se sentar à mesa das grandes potências mundiais. Mas há um pergunta: o Brasil vai crescer com ou sem a América do Sul? Vai crescer com o Paraguai como associado ou é mais negócio ter um vizinho empobrecido?”, questionou.

Foi com o viés da integração regional que Balmelli colocou a cooperação econômica e energética no centro de seu discurso. Segundo ele, vender no mercado livre seria uma forma eficaz de financiar a chegada da energia de Itaipu a Assunción – principal centro consumidor do país. “Brasileiros e Paraguaios podem aprofundar a integração energética e econômica entre nossos países e regional. Nesse sentido, propusemos uma reinterpretação do tratado sem a modificação do tratado”, sugeriu.

O executivo também indicou que os recursos obtidos com a venda livre poderiam financiar a exploração de outras regiões com potencial hidroenergético. “A geração de energia com o uso das águas do Rio Paraná e outros afluentes, assim como do sistema hidrológico paraguaio, podem complementar-se em uma sinergia de esforços que nos permita crescer”, reforçou.

Balmelli ressaltou que o Paraguai quer carona no crescimento econômico brasileiro. “Não se pode negar que o Brasil entra num processo de expansão. O Paraguai tem que ter bases estruturais para colocar suas bases energéticas a serviço desse crescimento do Brasil, como complementaridade econômica”, indicou. “Queremos converter o Paraguai em uma plataforma de investimento para o capitalismo brasileiro”, afirmou.


Fatores limitantes


Foto: Flávio Martin


Fernando Xavier Ferreira,

presidente do Coinfra / Fiesp

Para o presidente do Conselho Superior de Infraestrutura (Coinfra) da Fiesp, Fernando Xavier Ferreira, o Paraguai precisa pensar bem no seu pedido, pois caso vá para a livre comercialização ficará a mercê de oscilações do mercado. Hoje, por exemplo, a iniciativa estaria dando prejuízo. O preço praticado no mercado está abaixo do US$ 45 do kilowatt/hora pagos pelo Brasil.

Ferreira apontou a amortização da dívida contraída pelos governos de ambos os países para construção da usina (US$ 27 bilhões) como um fator que deve ser gerenciado como lucro. “O espaço liberado do custo entra no Paraguai como ganho líquido”, disse.

Já o lado político da decisão de Assunción foi avaliada pelo professor-titular da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, Sidnei Martini. “O Paraguai sabe que se vier para o mercado livre e não conseguir preço melhor, ele terá que se explicar para a sociedade paraguaia”, ressaltou.

Marini avaliou que o Paraguai pode vender até 300 megawatts por ano no mercado aberto brasileiro, sendo que essa carga é cumulativa. Mas indicou que a viabilidade técnica pode ser fator limitante, tendo em vista que a rede transmissão cedida hoje pela Eletrobrás terá que ser contratada.


Três Petrobras

A parte paraguaia da Usina de Itaipu pode ser considerada como o equivalente, em importância, a três Petrobras. A comparação foi feita pelo ex-presidente brasileiro da hidrelétrica binacional e atual presidente do Coinfra da Fiesp, Fernando Xavier Ferreira. Ele alertar que “se não houver entendimento da importância que há na usina para cada lado, não será possível avançar na discussão”.

Ferreira ressaltou que a sensibilidade diplomática brasileira sobre a necessidade paraguaia não pode prejudicar o consumidor brasileiro. “A discussão sobre um tratado de 50 anos deve ver não apenas um momento isolado, mas a totalidade do período pelo qual vale”, disse. Ele ressaltou que durante a crise da dívida nos anos 1980, o Brasil arcou com sua responsabilidade, comprando todo excedente de energia paraguaio sem utilizá-lo.