Para Samir Nakad, indústria brasileira de calçados é bem vista no exterior, mas é preciso eliminar entraves para mantê-la competitiva

Em entrevista, o coordenador do Comitê da Cadeia Produtiva da Indústria de Couro, Calçados e Artefatos (Comcouro) da Fiesp fala dos desafios do setor

Dulce Moraes e Juan Saavedra, Agência Indusnet Fiesp

Samir Nakad, coordenador do Comitê da Cadeia Produtiva do Couro, Calçados e Artefatos (Comcouro) da Fiesp. Foto: Helcio Nagamine/FIESP

O empresário Samir Nakad é conhecido da indústria couro-calçadista por seu espírito empreendedor. Iniciou sua indústria aos 19 anos de idade e contribuiu para a formação do polo calçadista da cidade de Birigui, município do noroeste paulista. À frente do Sindicato das Indústrias do Calçado e Vestuário de Birigui (atual Sinbi), ele conseguiu assistir à transformação da cidade em “capital brasileira do calçado infantil”.

Nakad foi vice-presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) e hoje é o coordenador titular do Comitê da Cadeia Produtiva da Indústria de Couro, Calçados e Artefatos (Comcouro) da Fiesp, organismo que busca soluções para aumentar a competitividade dos setores coureiro, calçadista e de artefatos, no âmbito de São Paulo e do Brasil.

Em entrevista ao portal da Fiesp, ele afirma que a indústria calçadista brasileira é boa, tem um bom volume de tecnologia, mas é preciso eliminar os entraves à nossa competitividade como a elevada carga tributária e o excesso de burocracia.

Veja a seguir a entrevista concedida ao portal da Fiesp:

Como o senhor avaliaria as conquistas do Comcouro/Fiesp nesses nove anos de existência?

Samir Nakad – A formalização do Comcouro permitiu que o setor tivesse mais acesso ao corpo diretivo da Fiesp e essa aproximação contribui para dotar os polos calçadistas do estado com equipamentos que realmente promovem melhores condições de formação de mão de obra para nossa cadeia. Como resultado, isso gerou condições de maior competitividade para cada um dos polos. Nossas escolas do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial de São Paulo (Senai-SP) foram dotadas de melhores e mais equipamentos. Em algumas cidades foram instaladas novas escolas. Outra conquista foi o Centro de Tecnologia em Design, que é muito importante para a área coureiro-calçadista em Franca e que também serve aos demais polos do estado.

Como o senhor definiria o “antes” e o “depois” do Comcouro?

Samir Nakad – Podemos dizer que o nosso setor amadureceu muito no relacionamento a partir da existência do Comitê, pois passou a ter um único lugar para discutir as necessidades e não é mais aquela “torre de Babel”. Todos falam por meio de uma única entidade e com isso nos tornamos mais fortes. No âmbito estadual, por exemplo, quando se precisa de algo, principalmente na questão tributária, todos buscam o Comcouro e temos ações que beneficiam a cadeia como um todo. No âmbito federal tivemos a Lei dos Portos, que foi a conquista mais recente e que de fato impacta muito nosso setor.

Mas, nesses nove anos houve outras proposituras realizadas e apoiadas pelo Comcouro. Algumas das ações são feitas em conjunto com o Comtextil, pois trabalhamos praticamente os mesmos pontos de vendas e também estamos no mercado da moda.

Nos últimos meses, o setor calçadista passou por um processo de desoneração de tributos. Qual foi o impacto dessas medidas?

Samir Nakad – Realmente tivemos desoneração do ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços], principalmente em relação ao estado de São Paulo. Tínhamos conquistado há alguns anos, por intermédio do Comcouro, a redução no cálculo desse tributo. No primeiro momento passamos a aplicar 18% sobre 66% do valor do produto. Com as novas mudanças acabamos tendo ICMS de 7% dentro do estado de São Paulo.

A questão do ICMS nos torna mais competitivo, porque São Paulo é o grande mercado e onde todos – tanto importadores como fabricantes de outros estados – querem vender. Ao reduzir a quantidade de ICMS que recolhemos dos produtos que vendemos, conseguimos maior competitividade.

E quanto à desoneração da folha de pagamento?

Samir Nakad – Foi um ganho essencial para o nosso setor que é intensivo em mão de obra. A indústria calçadista é muito artesanal, necessita de muita mão de obra. Antes, tínhamos que fazer a arrecadação do INSS [tributo do Instituto Nacional do Seguro Social] sobre a folha de pagamento. E a folha do nosso setor tem um peso excessivo. Recolhíamos 20% ao INSS (a parte do empregador) sobre algo que representava 30% em média do montante dos nossos custos. Hoje, recolhemos 1% de INSS sobre o faturamento. Assim a carga com INSS não é tão pesada, pois está atrelada ao faturamento e não à mão de obra, e podemos empregar mais pessoas.

O Brasil já foi grande exportador de calçados. Qual o cenário hoje?

Samir Nakad – Exportamos para o mundo todo, mas com a questão do real sobrevalorizado, temos tido dificuldades. O que vem acontecendo é que a exportação, ano a ano, vem diminuindo em número de pares. Eventualmente, o volume financeiro tem até certo incremento – pequeno, mas tem. Temos fabricado calçados mais caros e com maior valor agregado, mas nada comparado ao volume que já fizemos no passado. Continuamos a vender para os EUA, com certeza. Para o Oriente Médio, muito pouco, pois eles estão comprando da China. Exportamos também para Europa e, claro, sentimos o impacto da crise, pois o calçado é um produto supérfluo e que se pode adiar o consumo.

O calçado brasileiro é bem visto no mundo?

Samir Nakad – Tem acontecido, nos produtos que São Paulo exporta, uma agregação de valor via design, principalmente motivado pelo Senai-SP que tem trazido as inovações e nos ajudado a melhorar os produtos. Há também muito de P&D [pesquisa e desenvolvimento] das empresas de grande porte e o conceito do “calçado do Brasil”, com uma conotação tropical, de bem estar e alegria. E isso faz com que nossos produtos tenham valor agregado lá fora. Existem ainda as exportações sob encomenda em que as grandes redes nos dizem o querem que a gente produza. Mas vejo que há espaço para mais, se conseguirmos colocar o “quê” de calçado brasileiro. Tudo isso nos faz ser bem vistos no exterior.

A indústria de calçados brasileiros sofre muito com a entrada dos importados? O que se tem feito a respeito?

Samir Nakad – Junto com a Abicalçados pressionamos o governo na questão antidumping em relação aos países asiáticos. Conseguimos a majoração dos calçados vindos da China, o que ajudou um pouco. Hoje enfrentamos uma forte concorrência de outros países asiáticos, vizinhos da China que, de certa forma, nos repassam os produtos da China.

A eleição do embaixador Roberto Azevêdo, novo diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, poderá ser útil na solução dessas questões?

Samir Nakad – Sempre temos esperança. Foi uma grande novidade, uma alegria. A expectativa é de que haja um entendimento maior de nossos pleitos. Não estamos pedindo nada além. Nós já fomos maiores na fabricação de calçados, tivemos mais indústrias e muito mais gente empregada. E isso está diminuindo.

O Brasil sofre uma concorrência desleal por parte de produtos importados?

Samir Nakad – Sim. Os importados não têm uma carga tributária do tamanho da que temos aqui. Existe toda uma carga tributária a partir do couro, ou a partir do têxtil, ou dos sintéticos e outros produtos que compõem os calçados. Essa carga de tributação vai se somando na cadeia e acaba deixando os produtos caros.

Além disso, se a gente não conseguir desonerar, justamente para poder melhorar a remuneração nas indústrias, estamos fadados a não ter mais colaboradores. Assim, naturalmente, nossa indústria terá que migrar para outros locais. Se não houver uma redução da carga, com o intuito de migrar parte dessas receitas advindas da cobrança de impostos para benefício do trabalhador, corremos o risco de, daqui a 10 ou 15 anos, não estarmos presentes com a mesma pujança.

Quais as próximas batalhas do Comcouro?

Samir Nakad – A próxima batalha do Comcouro é relativa à cobrança do PIS/Cofins. O próprio presidente da Fiesp, Paulo Skaf, está nos ajudando. Mas está sendo uma batalha difícil. Abatemos o PIS e Cofins da matéria-prima, mas não sobre a mão de obra, sobre o marketing e sobre comissão de vendas. O PIS/Cofins era de 3,65%. A lei mudou, há uns oito anos, e, hoje, recolhemos mais de 7%. Essa mudança na sistemática de cobrança nos prejudicou muito. São essas condições estruturais que têm atrapalhado o setor.

E quais os outros entraves para o setor?

Samir Nakad – Nossos principais problemas são a questão tributária e o que chamo de “indústria da maldade” – a burocracia. Existe uma “indústria da maldade” na mente de todos os burocratas do governo, que é uma coisa impossível. Os processos de arrecadação melhoraram muito, ficou tudo eletrônico, mas não se vê redução da máquina estatal nesse âmbito. O presidente Paulo Skaf tem razão quando diz que o problema é da porta para fora. Em pé de igualdade, nós somos muito bons. Nossa indústria é boa, tem um bom volume de tecnologia. Estamos bem. O problema é quanto o governo nos atrapalha. E não é só o governo federal. Também temos problemas no âmbito estadual e municipal.

A indústria paulista se destaca em inovação?

Samir Nakad – Um fator positivo na cadeia é que o Brasil tem uma excelente indústria de máquinas para o setor calçadista, com muita tecnologia. E temos expectativa em ter uma padronização nas nomenclaturas e, com tecnologia, ter um maior controle em todas as etapas da cadeia produtiva.

Como desafios temos a busca de soluções para diminuir os custos, por exemplo, na logística de distribuição dos calçados. Uma caixa de sapato não tem 60% de área ocupada. Se pensarmos num caminhão com volume cúbico, 40% do volume não tem necessidade de existir. Estamos consumindo desnecessariamente mais combustíveis, prejudicamos o meio ambiente, ampliando custos de entrega. Temos que buscar uma forma mais moderna de fazer nossa distribuição, bem como achar solução para o excesso de matéria-prima obsoleta dentro dos nossos polos por conta da sazonalidade das coleções de moda. Enfim, precisamos buscar alternativas viáveis e sustentáveis.

E quanto aos desafios para o futuro?

Samir Nakad – Um desafio que temos que enfrentar é a falta de sucessão dos negócios na indústria calçadista. O governo do Estado já percebeu que essa é uma grande perda para a nação, uma vez que o setor calçadista é um dos poucos que geram emprego aos milhares. É preciso tornar o negócio mais atrativo. Neste mês, vamos a discutir esse assunto em um encontro, em Jaú, no Centro de Inteligência para Indústria do Calçado, recém-criado pelo governo paulista por meio da Fatec. Vamos levar também o pessoal do Comitê da Cadeia Produtiva da Biotecnologia (Combio) da Fiesp.