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Para ONS, falta de reservatórios contribui para dependência térmica

Participação das hidrelétricas na matriz diminuirá 10% em cinco anos

A redução gradativa da capacidade de controle plurianual, devido à construção de usinas hidrelétricas com pequenos reservatórios para armazenar água das chuvas, é um dos motivos para a maior dependência da geração térmica de energia. A afirmação é do diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Chipp.

“Hoje temos pouca ou nenhuma capacidade de regularização. E há muito tempo não se faz usina com reservatório. Além disso, as dificuldades no licenciamento ambiental levam à escassez de novos projetos”, avaliou Chipp, ao participar do 


10º Encontro Internacional de Energia


nesta terça-feira (6), promovido pela Fiesp e o Ciesp, em São Paulo.

De acordo com o ONS, a capacidade de armazenamento em relação à carga de energia era de 6,2% em 2001 – taxa que cai para 4,7% na projeção de 2013.

As novas usinas do Rio Madeira (RO) – Santo Antônio e Jirau, previstas para entrar em operação até 2012 – e o projeto hidrelétrico de Belo Monte (PA), cujos 11.233 MW devem entrar em leilão ainda este ano, foram concebidos para operar a fio d’água, ou seja, a água do reservatório segue diretamente para as turbinas.

O diretor-geral do ONS explicou que, em grande escala, a única alternativa à falta de reservatório é a térmica a óleo. “Deveria haver uma reflexão: qual delas prejudica mais o meio ambiente? Porque não tem condição, é uma ou outra”, apontou.

José Goldemberg, professor-titular do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (USP) e ex-presidente da Cesp, defende novos projetos hidrelétricos. Para ele, aumentar a participação das térmicas na matriz energética é andar na contramão da sustentabilidade.

“Uma usina hidrelétrica de 1 milhão de kilowatts produz energia suficiente para atender às necessidades de 1 milhão de residências, ou 4 milhões de pessoas. É essa filosofia que devemos ter para enfrentar com coragem os problemas de licenciamento”, afirmou Goldemberg, que também foi secretário paulista de Meio Ambiente no governo Alckmin.


Geração combinada


Para Amílcar Guerreiro, diretor de estudos econômicos e energéticos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia, o Brasil tem a vantagem de contar com o maior sistema interligado elétrico do mundo. Com isso, é possível atender a uma carga energética até 20% maior.

“Podemos aproveitar a diversidade hidrológica do País, por conseguir transferir água entre os reservatórios. Essa vantagem só é possível se tivermos capacidade de regulação, mas estamos abrindo mão dela”, afirmou Guerreiro. “Sem reservatório, toda a geração fica mais cara, inclusive a sinergia com fontes alternativas”, acrescentou.

Segundo o ONS, a geração hidráulica, que hoje representa quase 80% da matriz, cairá 10% em um horizonte de cinco anos (81.763 MW neste ano para 88.642 MW em 2013). Já a geração a óleo deverá saltar de 2,7% para 9% no período – 2.800 MW para 11.254 MW. A potência instalada do Sistema Interligado Nacional (SIN) crescerá 18% – de 104.000 MW para 126.725 MW.


Energia competitiva



Para a secretária de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, Suzana Kahn, é preciso manter elevada a participação renovável na matriz elétrica, que hoje é de 46%. “Ao aumentar o uso de combustíveis fósseis, no fundo, perdemos competitividade pelo olhar ambiental, no que se refere a carbono”, alertou.

Segundo ela, o custo de mitigação de emissões de gases estufa é estimado entre 1% e 3% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial até 2050. Mas se nada for feito agora, o passivo de adaptação poderá superar 15% da economia global no período.

“A matriz limpa é um fator competitivo, uma vantagem que pode ser transacionada no futuro. Não podemos perder isso. Não é apenas uma questão ambiental, mas sobretudo comercial”, frisou.

Está em tramitação no Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) uma proposta de resolução que dispõe sobre a mitigação de parte das emissões de CO2 de termelétricas a óleo e carvão. Segundo Suzana Kahn, a ideia é internalizar os custos como parte do licenciamento ambiental das usinas, como, por exemplo, em atividades de recuperação florestal.