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Para Marcos Troyjo, Brasil deve se preparar para ascensão da ‘China 2.0’

Diretor do BRIC Lab, centro de estudos da Columbia University, foi um dos palestrantes de Seminário na Fiesp

Dulce Moraes, Agência Indusnet Fiesp

Como o processo de “reglobalização” vai afetar a economia brasileira? A questão foi um dos temas debatidos durante o seminário comemorativo aos 20 anos da Sociedade Brasileira de estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Soobet), nesta sexta-feira (22/08), na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

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Marcos Troylo: vem se desenhando é uma nova fase de “reglobalização”. Foto: Everton Amaro/Fiesp

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Para se compreender o cenário futuro, o economista e diretor do BRIC Lab da Columbia University, Marcos Troyjo, recomendou que se fizesse uma visita no tempo e avaliasse as rápidas mudanças ocorridas nos últimos 20 anos em termo de geopolítica e da economia global.

Ele destacou que, há 20 anos, o mundo apresentava quatro características fundamentais. A primeira era o liberalismo econômico como sistema eficiente, onde o binômio “democracia e livre mercado” sustentava como espinha dorsal a visão valorizada do modelo ocidental. “O Ocidente estava na moda”, disse.

Outra característica apontada foi a mudança do eixo do Atlântico para o Pacífico, com o surgimento dos chamados tigres asiáticos, tendo o Japão como locomotiva.

A terceira característica tem a ver como as empresas passaram a buscar inovação, Muitas vezes, essa nova forma de conceber a inovação fez com que as próprias empresa se reinventasse como corporação, como a gigante IBM (ou International Business Machine), que deixou de ser fabricantes de equipamentos, passando a prover sistemas corporativos, softwares, criando novos modelos de negócios e gestão.

Os anos 1990 também foram marcados por um processo de integração entre nações, movidas por afinidades geográficas e também políticas, tendo como exemplo mais ilustrativo a Comunidade Europeia, que inspirou o surgimento de outros blocos, como o próprio Mercosul.

“A essas conjunto de quatro características os economistas deram o rótulo de ‘globalização profunda’. O curioso é que muitas pessoas acham que ainda estamos vivendo nesse modelo. Mas se olharmos para o hoje veremos que não”, afirmou Troyjo.

Vivemos uma desglobalização

Em sua análise Marcos Troyjo, destacou que nos últimos anos a trama global passou por mudanças radicais, como a ascensão de capitalismos de estados, no lugar do “Ocidente” como modelo, e a China surgindo como locomotiva a puxar a contínua trajetória de ascensão da Ásia.

“Vale lembrar que, em dezembro deste ano, os chineses devem fechar seu Produto Interno Bruto (PIB) nominal em US$ 10 trilhões, caminhando rapidamente para que, em 2023 e 2024, a gente possa confirmar a existência desse ‘eclipse raríssimo’ na história do homem, que é a ultrapassagem de um país em relação ao outro. Crescendo a uma média de 9 ou 7% ao ano, a China toma o lugar dos Estados Unidos como maior economia do mundo. Algo que não acontecia deste 1978, momento em que os Estados Unidos ultrapassaram a Inglaterra.”

Outra mudança, segundo Troyjo, é que o conceito de inovação praticamente implodiu. “Ele deixou de ser, sobretudo, o resultado de vultosas somas de pesquisas e desenvolvimento concentrados em empresas de grande porte. Hoje, das 50 maiores empresas do mundo em termos de graduação em mercados acionários, 22 delas não existiam a poucos anos atrás.“

Sobre o cenário de integração regional, o economista considerou que há uma tendência atual de “cada um por si, diferente de nacionalismos, mas com individualismos nacionais. Segundo ele, o momento atual poderia ser rotulado de “desglobalização”, um sistema que já vem incomodado a todos há um bom tempo.


Preparar-se para o futuro

Em termos de futuro, o cenário que vem se desenhando, na visão de Troyjo, é de uma “reglobalização”. Uma nova fase que deverá ser marcada pelo fortalecimento e a sofisticação de cadeias de colaboração global – indo desde a concepção do design até a logística e distribuição – e que serão facilitadas (ou dificultadas) por parcerias transnacionais.

Os próximos quinze anos será marcado, segundo ele, pelo durgimento de um tipo de “China 2.0”, que vai liderar o mundo em algumas áreas de atuação e fará com outros o que fizeram com ela.

Um ponto de atenção sobre essa China, como superpotência econômica e também de prestígio, por parte da sua influência, segundo Troyjo, é que a China, como boa estrategista, sabe muito bem o quer do mundo. Essa “China 2.0” vai sofisticar as relações com as quais outros países terão com ela”, afirmou.

Outra fator de destaque é o ressurgimento do “talento”, tanto do ponto de vista individual, comercial e de também de países. “Vamos nos tornar mais especialistas e buscar o que mais se pode fazer além do que você se é bom”. Não bastara se especializar apenas no próprio score business.

Para a construção da estratégia internacional brasileira, Troyjo sugere que o Brasil se questione: qual a sua política para fortalecimento das cadeias globais de colaboração? Qual a sua projeção para essa nova idade da geopolítica? Como se adaptar e se proteger – e, se possível, tirar vantagem – da ascensão da China 2.0? E em que medida o país está preparando seus indivíduos para isso?

“Se o Brasil, minimamente, se equipar para lidar com essa trama, o nosso país poderá ser uma das sociedades mais dinâmicas nesse mundo que vem por aí”, concluiu.