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Padrões e investimento no comércio por valor agregado são tema de painel na Fiesp

Assunto foi debatido durante workshop sobre cadeias globais de valor

Ariett Gouveia, Agência Indusnet Fiesp

Especialistas em economia internacional e comércio exterior falaram sobre os novos padrões e investimentos no mundo do comércio por valor agregado, no workshop sobre cadeias globais de valor. O evento foi realizado nesta quinta-feira (03/04) na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

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Ken Ash, diretor para comércio exterior e agricultura da OCDE: “Brasil e Rússia são os dois países, entre os 57, menos integrados nessa cadeia”. Foto: Tâmna Waqued/Fiesp

O primeiro painel do evento teve a participação de Ken Ash, diretor para comércio exterior e agricultura da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Annalisa Primi, economista sênior da OCDE e Lucas Pedreira do Couto Ferraz, professor assistente da escola de economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A moderação ficou por conta do presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior (Coscex), o embaixador Rubens Barbosa.

Ash apresentou dados coletados pela OCDE em 57 países, entre eles o Brasil, em 18 setores da economia durante cinco períodos. De acordo com o estudo, o Brasil está entre os países menos integrados na cadeia de valor agregado.

“A China aumentou em três vezes a sua integração nesse mercado nos últimos 15 anos. Por outro lado, Brasil e Rússia são os dois países, entre os 57, menos integrados nessa cadeia”, relatou. “Mas isso não deve ser avaliado negativamente, porque isso está relacionado com a natureza da economia nesses dois países, que são muito significativos na produção de recursos.”

O diretor destacou aspectos que podem alavancar a indústria de forma global. “Para desenvolver qualquer setor industrial em qualquer país é preciso buscar e ter acesso a insumos de qualidade e bons serviços. Mas nem tudo é baseado no comércio”, alertou Ash. “Fatores como educação e formação qualificada de pessoas, infraestrutura da indústria, mercado de trabalho ativo, entre outros fatores também são essenciais para esse crescimento.”

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Annalisa Primi, economista sênior da OCDE, citou quatro fatores: variedade das manufaturas, volume de comércio e qualidade do capital humano fazem a diferença e políticas públicas efetivas. Foto: Tâmna Waqued/Fiesp

Citando um livro do século XVII, Annalisa listou quatro fatores fundamentais para o desenvolvimento de uma nação. “Ao ver os dados apresentados pelo Ken Ash, eu me lembro do macroeconomista italiano Antonio Serra, que, em 1613, escreveu um livro que visava explicar por que Veneza tinha muita riqueza e Napoli, não”, contou.

“O primeiro fator era variedade das manufaturas, já que as cidades mais ricas tinham estruturas produtivas diferenciadas. Depois, grande volume de comércio – no nosso caso, importação e exportação. Terceiro ponto é a qualidade do capital humano, da formação das pessoas. E, por último, um governo que seja capaz de entender essa dinâmica e traduzir em políticas públicas efetivas.”

Finalizando o painel, Ferraz focou sua apresentação na questão da competitividade. “Se um país fragmenta seu processo produtivo e, a cada etapa, escolhe o país mais competitivo para produzir, é evidente que vai ser muito competitivo e um país que faz tudo sozinho não vai conseguir competir”, disse. “Os países hoje não agregam mais em bens finais, mas em estágios de produção.”

O professor destacou a falta de investimento em infraestrutura como um dos grandes obstáculos na busca por mais competitividade no país.

“O Brasil vem investindo cada vez menos em infraestrutura em proporção ao PIB [Produto Interno Bruto], desde a década de 70”, disse o professor, que fez uma projeção para o comércio brasileiro com a redução de 50% do tempo gasto na burocracia portuária, que mostrou um grande impacto nas importações e exportações e um crescimento no retorno do capital.

Outro ponto importante para ele são as barreiras não-tarifárias. “As tarifas que as exportações brasileiras enfrentam nos países desenvolvidos já são muito baixas. Então, seria fora de sentido negociar tarifas de importação com esses países. O que temos que negociar são as barreiras não tarifárias, barreiras técnicas. Com uma redução de apenas 25% dessas barreiras, os fluxos comerciais com esses países podem aumentar em até duas vezes.”

“A despeito da forte abertura comercial dos anos 90, o Brasil ainda é considerado uma economia fechada para padrões globais, se comparado com outras economias emergentes e desenvolvidas”, concluiu Ferraz.