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Novo modelo de negócio para o setor elétrico ganha debate na Fiesp

Tecnologia tende a promover mudanças na geração, distribuição e no consumo de energia

Roseli Lopes, Agência Indusnet Fiesp

Apesar das modernizações feitas pelo setor elétrico nos últimos anos, o avanço da tecnologia para as chamadas redes inteligentes vai exigir cada vez mais do setor a adoção de novos modelos de negócio. O tema foi debatido nesta quarta-feira (19 de julho) durante o workshop Novos modelos de negócio para o setor elétrico, realizado pela Fiesp. “Negócios são feitos olhando-se os produtos e serviços, mas no setor elétrico os negócios pedem ajustes, em especial na maneira que as empresas do setor energético operam”, disse José Sidnei Martini, diretor da Divisão de Energia da Fiesp, que atuou na moderação da discussão entre os palestrantes.

Diferentemente de outros setores, como o de telecomunicações, por exemplo, o setor elétrico ainda não teve uma revolução grande, na opinião de Amilcar Guerreiro, diretor de Estudos de Energia Elétrica da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), que falou sobre as perspectivas de planejamento do setor no longo prazo. Mas agora, disse Guerreiro, o setor se vê diante dessa possibilidade de mudança única. “Hoje, quando falamos em novos negócios dentro do setor de energia estamos falando especificamente das áreas de geração e distribuição que, juntas, impactam outra área: a da comercialização.”

Na geração a prioridade está no investimento das fontes renováveis. O Plano Decenal para a Expansão de Energia, que está sob consulta pública até o início de agosto, traz um foco maior sobre o tema geração em relação aos planos anteriores. Embora o Plano Decenal seja um plano indicativo e não determinativo, é possível, a partir dele, traçar possíveis novos modelos de negócio para a expansão da geração. “O plano parte de uma configuração inicial de que se tem 150 gigawatts instalados no final de 2016 e já quase 30 gigawatts contratados, sendo que quase tudo entra em operação até 2021/2022, apontando a necessidade de viabilizar a expansão já para que, em 2021/2022 eu tenha essa nova oferta”, diz.

A diferença na expansão está nas fontes renováveis – solar, eólica, pequenas centrais hidrelétricas e usinas movidas à biomassa. A inserção das fontes renováveis abre espaço para novos negócios, diz o diretor da EPE. Na distribuição, o consumidor ganha destaque no novo modelo de negócio. “Temos hoje um consumidor mais ativo, que deixa de ser só consumidor, que ganha função semelhante à de um stakeholder, ou seja, faz parte de um público estratégico para o negócio.” É, segundo ele, uma grande mudança, um respeito ao consumidor.

“O consumidor está mais ativo, mais participativo, consome e interage, começa a ter escolhas e pode gerar mudanças no setor e novas oportunidades de negócios”, diz Rodrigo D’Elia, diretor de Novas Tecnologias da AES Tietê. Para ele, esse novo consumidor busca confiabilidade, redução de custo e soluções específicas e moduladas para suas demandas. D’Elia destaca o mercado externo, onde a energia é vista como um serviço. “O modelo que vemos para o futuro é o integrador, onde se foca tanto o lado da oferta quanto para o cliente e para isso é preciso criar uma plataforma integrada de soluções. Lá fora vemos usinas virtuais, onde clientes trocam energia entre si”, diz. Aqui, a mobilidade do carro elétrico, por exemplo, será a oportunidade do setor elétrico de colocar o consumidor como um consumidor virtual e não mais atrelado a uma posição física, mas a um número de cartão de crédito ou uma conta bancária”, completa José Martini, da Fiesp.

Para Ananda Valei, gerente comercial de Geração Distribuída da CPFL Eficiência, o acesso às novas tecnologias empodera o consumidor e provoca disrupturas no setor.  “Hoje temos fortemente uma opção de o consumidor virar também um produtor de energia”, diz. Esse mesmo consumidor toma mais decisões e deverá em breve ser chamado de cliente, fazendo com que o modelo de mudança do setor elétrico se torne uma realidade, avalia. Ananda cita a internet e as redes móveis como responsáveis pela mudança desse consumidor. Por ele, o setor deverá se aprimorar, buscando um novo fundamento regulatório, diz a executiva da CPFL. O perfil de multiutilities é, em sua opinião, a nova forma de atender esse público e ao mesmo tempo uma maneira de o setor sobreviver às mudanças. Para isso, diz, “é preciso quebrar paradigmas dentro das empresas, como revisão de processos e expansão do portfólio”.

Para ter novos negócios, no entanto, é preciso entender para onde o setor elétrico caminha do ponto de vista dessas mudanças, na avaliação de Nivalde de Castro, professor de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). E para se adequar a essa nova dinâmica é preciso buscar inovações regulatórias. Castro também aponta a exigência maior sobre o planejamento do setor, notadamente em relação às matrizes, e ressalta a necessidade de mais investimentos em transmissão, em especial com a entrada das matrizes eólicas. Ele defende também mudanças na forma de contratação das termoelétricas.  Fechando a discussão, Richard Phillips, gerente da ESS INC, defendeu o uso de baterias para o armazenamento de energia como opção de armazenamento de longa duração, seguro e de baixo custo. Destacou a vantagem que o Brasil tem no campo ambiental, mas ressaltou o desafio do país na regulamentação do setor, que passa pela problemática da infraestrutura. Frisou que “aumentar as energias renováveis está entre os grandes desafios a vencer no setor, além do aumento da geração”.

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Workshop na Fiesp teve como tema Novos modelos de negócio para o setor elétrico. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp