No Dia Nacional da Inovação, Fiesp pede mais ação do governo em prol da tecnologia

Em evento realizado na sede da Federação sobre inovação tecnológica, José Roriz, vice-presidente e diretor titular do Decomtec, diz que o Brasil não pode perder a oportunidade, que considerou temporal, de se juntar aos países que estão na vanguarda. No evento, que teve participação da Desenvolve SP, da Fatesp e Finep, foi lançado o programa de crédito Finep Conecta.

Roseli Lopes, Agência Indusnet Fiesp

Em 2016, a Totvs labs, laboratório de pesquisa da maior empresa de software empresarial da América Latina, elegeu a robótica como uma das oito tecnologias que mudarão o mundo até 2020. Mas um estudo, também do ano passado, da Delloite apontou que para cada 10 mil trabalhadores da indústria o Brasil tem apenas 11 robôs. A China tem 36, na mesma base comparativa, a Coreia do Sul, 531, o Japão, 305, a Alemanha, 301 e os Estados Unidos, 176. Por trás dos números há uma mensagem negativa: essa densidade robótica revela a distância do Brasil em relação a países que estão na vanguarda da inovação industrial, afirmou José Ricardo Roriz Coelho, vice-presidente e diretor titular do Departamento de Competitividade e Tecnologia (Decomtec) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) na abertura do workshop de Inovação Tecnológica realizado, nesta terça-feira (19 de outubro), na sede da Federação, celebrando o Dia Nacional da Inovação.

Vencer essa distância é, hoje, o principal desafio do Brasil para entrar definitivamente na indústria 4.0, ou quarta revolução industrial, disse Roriz. Para isso, no entanto, o país, ressalta o diretor da Fiesp, precisa de políticas públicas, a exemplo de outros países, que promovam o desenvolvimento da tecnologia e inovação. “Neste momento em que a questão fiscal domina as discussões cabe a todos nós alertar sobre a importância que deve ser dada ao tema inovação e chamar a atenção do governo e da equipe econômica para que não faltem recursos voltados à inovação tecnológica”, disse Roriz. “Apesar da crise econômica brasileira, é fundamental criar condições de investimento sob o risco de agravamento do setor industrial”, falou o vice-presidente da Fiesp, lembrando a política forte do governo dos Estados Unidos voltada à industrialização com manufatura avançada, a estratégia da Alemanha, que investiu 250 bilhões de euros nos últimos 15 anos na inovação industrial e o 1,8 trilhão de euros que está sendo aplicado pela China nos próximos anos, de olho nos desdobramentos e avanços da quarta revolução industrial.

Nesse movimento, Roriz diz que o Brasil precisa acelerar o passo para aproveitar essa oportunidade temporal, para que o país embarque no desenvolvimento tecnológico que tem sido feito no mundo. E quanto antes o Brasil entrar nesse movimento mais terá voz nas questões de regulação e na criação de plataformas que serão organizadas dentro dessa nova indústria, a 4.0, ou quarta revolução industrial, avaliou. “Até 2020, o mundo investirá US$ 907 bilhões em inovação e o Brasil não pode ficar para trás”, disse. Álvaro Sedlacek, diretor financeiro e de negócios da agência de fomentos paulista Desenvolve SP, fez coro dizendo que é preciso que aqueles que governam o país percebam que talvez esta seja a última oportunidade de o Brasil se reinserir no contexto mundial  em relação à inovação industrial, porque está perdendo espaço.

“Não consigo imaginar um país competitivo globalmente que não tenha uma base industrial sólida. “Até os Estados Unidos, que foram a primeira nação que se tornou basicamente um país de serviços, estão revendo um pouco esse conceito. No mundo inteiro a indústria lidera os investimentos em P&D e não podemos perder isso. Temos vários exemplos de países dentro da América Latina que se desindustrializaram de tal maneira que hoje estão reduzidos a farrapos e não queremos isso para o Brasil”, ressaltou Sedlacek.

Carlos Américo Pacheco, diretor-presidente do Conselho Técnico Administrativo da Fapesp e membro do Conselho Superior de Inovação e Competitividade (Conic) da Fiesp reforçou a cobrança de mais investimentos lembrando que hoje o mundo assiste a uma transformação gigantesca da indústria, com tecnologias que convergem, que são disruptivas em vários aspectos. Essas rupturas, diz Pacheco, são oportunidades que o Brasil tem de olhar para a frente e ver que rumo tomar, pois as novas tecnologias transformam de forma radical a base técnica da indústria e seus modelos de negócios e nisso o Brasil está muito atrasado, avalia. “Temos um país grande, com um mercado consumidor relevante e portanto pronto para enfrentar esse desafio. O gasto em P&D agregado no estado de São Paulo é de 1,7% do PIB, bem menos do que no Brasil, de menos de 1% em relação a seu PIB. Desse 1,7% do PIB, 60% são gastos privados. diferentemente do resto do Brasil. É o único lugar da América Latina em que o gasto privado é maior do que o público e ainda assim a maior parte desse gasto público é feito com recursos do governo estadual e não federal”, diz o diretor-presidente do Conic.

Fiesp celebra o Dia da Inovação com debates sobre as oportunidades e os desafios no Brasil e com a assinatura de acordo para o programa de crédito da Finep. Foto: Fiesp

Finep Conecta

Se o índice de utilização de robôs no Brasil é um indicador do atraso brasileiro em relação a outros países, Marcos Cintra, presidente da Financiadora de Estudos e Projetos da Finep chama a atenção para outro fato que considera contraditório e que ajuda a emperrar os programas de inovação no país: “Embora 70% dos investimentos em tecnologia e inovação em São Paulo sejam feitos por empresas, hoje, apenas 26% dos pesquisadores no Brasil estão nas empresas. O restante, 74%, está no setor público. “Apesar de termos quase toda nossa capacidade de trabalho em termos de geração de P&D e inovação concentrada no setor público, essa interação com empresas é muito baixa comparativamente à de outros países, como por exemplo a Finlândia, onde 28% das empresas inovadoras têm profunda interação com universidades ou institutos públicos de pesquisa. No Brasil, são apenas 6%, número que denuncia falta de sintonia entre quem investe e quem gera o conhecimento básico para a sustentação desse investimento.

Pensando em aproximar a empresas e os centros geradores de P&D, que, no Brasil, estão concentrados no setor público ou nas instituições de ensino, a Finep lançou nesta quinta-feira, durante o evento na Fiesp e com a parceria da Federação, o Programa Finep Conecta, para financiar a inovação em empresas paulistas. “Do ponto de vista operacional, o Finep Conecta não tem novidade. É uma operação de crédito, com taxas de juros, carências, um plano estratégico de inovação conhecido. A grande novidade que ele traz é o foco na aproximação das empresas aos centros geradores de P&D, ou seja, as Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs)”, conta Cintra. O objetivo, diz o presidente da Finep, é levar o conhecimento gerado nas ICTs e universidades para as empresas e também fazer com que as ICTs e as universidades desenvolvam linhas de atividade e de pesquisa demandadas pelas empresas. “Queremos proporcionar uma via de duas mãos, que as empresas busquem conhecimento nas ITCs, mas também que as instituições sejam motivadas a atender demandas geradas pelo setor privado para resolver seus problemas específicos.

O volume disponível inicialmente será de R$ 500 milhões, reembolsáveis. O prazo de financiamento é de até 16 anos, com correção dos valores pela Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) mais 1,5% ao ano. Vale lembrar aqui que a medida provisória que mudou a TJLP para TLP não inclui a Finep, que pode manter a TJLP em suas operações. Para incentivar o diálogo entre a empresa e as ITCs, a Finep dará incentivos ao tomador do crédito. A empresa que usar 15% dos recursos do financiamento em ações colaborativas com as ITCs ou as universidades terão vantagens relativas às linhas tradicionais. “Se a empresa usar 50% dos recursos em ações colaborativas, além da carência de 6 anos e prazo de pagamento de até 16 anos, a empresa terá correção dos valores apenas pela TJLP. Outro ponto fundamental é que o Finep Conecta é uma linha de crédito de longo prazo, não encontrado no mercado.

“Estamos oferecendo taxa de juros reduzida, longo prazo de carência, longo prazo de amortização e sobretudo a oportunidade de estimular a maior interação entre o setor produto e os ITCs para atender o modelo brasileiro onde existe a assintonia entre quem investe e quem produz conhecimento”, disse Cintra. O programa começou a funcionar nesta quinta-feira, logo após a assinatura do convênio entre a Fiesp e a Finep. “O problema no setor de inovação no Brasil não é desconhecimento, não é estrutura, não é capacidade de investimento nem de mobilização, não é qualidade da mão de obra, de falta de recurso, é puramente institucional. É um problema que precisa ser resolvido junto ás instituições.”, conclui Cintra.