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‘Não construimos um Guimarães Rosa ou um Tom Jobim na dança’, diz Antonio Nóbrega

Multiartista pernambucano foi o convidado do bate-papo mensal promovido pelo Sesi-SP na noite desta terça-feira (22/07), destacando a necessidade de maior teorização e pesquisa a respeito dessa arte no Brasil

Isabela Barros, Agência Indusnet Fiesp

Mesmo que por aqui não falte ginga, saracoteio e molejo, a dança ainda é uma arte pouco pesquisada e destacada teoricamente no Brasil. Entre citações e referências variadas, a discussão esteve no centro do InteligênciaPontoCom, bate-papo mensal do Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-SP), realizado na noite desta terça-feira (22/07) com o multiartista pernambucano Antonio Nóbrega. O debate ocorreu no Espaço Mezanino do prédio do Sesi-SP e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na Avenida Paulista, em São Paulo. E teve a mediação da pesquisadora, professora da PUC-SP, palestrante e crítica Helena Katz.

“Falta corpo crítico, teórico, pesquisadores da dança brasileira”, afirmou Nóbrega. “A literatura brasileira tem toda uma história, desde a carta de Pero Vaz de Caminha. No caso da dança isso não existe”.

Nóbrega: “Falta corpo crítico, teórico, pesquisadores da dança brasileira”. Foto: Tâmna Waqued/Fiesp

Nóbrega: “Falta corpo crítico, teórico, pesquisadores da dança brasileira”. Foto: Tâmna Waqued/Fiesp

Nóbrega  é chamado de multiartista por cantar, dançar, interpretar e tocar instrumentos variados. Ao longo do tempo, desenvolveu um estilo próprio de concepção em artes cênicas e música, fruto de seu envolvimento com o universo da cultura popular. A partir de 2007, com o espetáculo Passo, começou a conciliar o seu trabalho de músico com o de dançarino e coreógrafo. Entre 2006 e 2008 lançou o espetáculo dedicado ao frevo Nove de Frevereiro. Em 2009 estreou Naturalmente – Teoria e Jogo de uma Dança Brasileira e, em 2011, o DVD da apresentação.

Tendo se mudado para São Paulo em 1983, fundou o Instituto Brincante na Vila Madalena, na Zona Oeste da capital, espaço para apresentações e cursos de música e dança popular brasileira.

“Não chegamos a construir um Guimarães Rosa ou um Tom Jobim na dança”, disse.  “Somos povo tão dançarino, de riqueza corporal tão grande, seríamos muito mais interessantes se tivéssemos um trabalho mais forte nessa área”.

Levado ao universo da dança brasileira pelo “prazer de dançar”, Nóbrega destacou que “falta ideologia para legitimar a nossa cultura”. “A cultura popular é compreendida como folclórica e o olhar das pessoas que trabalham com essa dança ainda traz essa visão”, afirmou. “São números feitos para serem dançados em sala de aula”.

Helena e Nóbrega no InteligênciaPontoCom: debate sobre os caminhos da dança brasileira. Foto: Tâmna Waqued/Fiesp

Helena e Nóbrega no Inteligência: debate sobre os caminhos da dança brasileira. Foto: Tâmna Waqued/Fiesp


Dessa forma, ao longo de seu trabalho, o fundador do Brincante foi direcionando o seu olhar para “procurar entender dentro da dança brasileira o que existe de valorativo e interessante”. “Acho a dança clássica um dos monumentos da humanidade, mas ela não é a única. Me sinto muito bem dentro da dança popular brasileira e tento entender que valores e conteúdos ela me traz”, disse.

Requebra

Entre esses diferenciais, Nóbrega destacou um “imaginário vocabular rico e exuberante”. “Se juntar frevos, batuques e afins, são muitas possibilidades de requebros, movimentos que se mexem dentro de processos singulares”, explicou.

Nesse mundo de requebrados, apontou Nóbrega, a presença marcante é a do “elemento negro”. “Os negros deram coloração à cultura popular brasileira, nos fizeram além de ocidentais”, afirmou. “O Brasil resignificou o que veio da tradição ocidental europeia”.