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Vai demorar para que investimento retorne à produção de etanol, diz Plinio Nastari

Presidente da Datagro participou de painel sobre biocombustíveis no terceiro dia do L.E.T.S., Semana de Infraestrutura da Fiesp

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

A situação dos produtores de etanol é de dívida elevada e de investimentos paralisados em meio a um desequilíbrio causado pelo subsídio do governo à importação da gasolina. E mesmo que o preço do combustível fóssil seja corrigido, o setor deve demorar em experimentar investimentos em sua expansão por conta da cautela ante à possibilidade de novas intervenções.

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Plínio Nastari, presidente da consultoria Datagro, participou do painel “Biocombustíveis e Redução de Emissões na Matriz de Transporte”, no terceiro dia de L.E.T.S. Foto: Tâmna Waqued/Fiesp

A avaliação foi feita pelo presidente da consultoria Datagro, Plínio Nastari, no painel “Biocombustíveis e Redução de Emissões na Matriz de Transporte”, durante a Semana de Infraestrutura (L.E.T.S), evento da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

“O capital de risco aguarda sinal de redução da intervenção para voltar a investir. Mesmo quando o preço da gasolina for corrigido, ainda assim acreditamos que vai demorar um tempo para que retorne o investimento em expansão em moagem”, ponderou Nastari.  Ele reiterou ainda que uma “mudança de política é uma grande incógnita nesse momento”.

O presidente da Datagro confirmou as estimativas da consultoria para o ano safra 2014/15. A região centro-sul do Brasil, que responde por 90% da produção nacional, deve moer 574,6 milhões de toneladas de cana-de-açúcar.

A produção de açúcar na região deve chegar a 33,2 milhões de toneladas no período, ligeiramente superior ao previsto anteriormente pela empresa, enquanto a produção de etanol do centro-sul em 2014/15 está estimada em 23,63 bilhões de litros, sendo 11,6 bilhões de litros na forma de anidro (para mistura na gasolina) e 12,03 bilhões de litros de hidratado (usado nos carros flex fuel).

Os números de moagem de cana-de-açúcar dos últimos são significativamente inferiores aos registrados em 2003, com o início efetivo do consumo de carros flex. Na ocasião, a moagem de cana superou os 620 milhões de toneladas.

“Mas desde 2010 temos observado uma oferta de ATR (Açúcar Total Recuperável) bastante cambaleante, e uma rota bastante conturbada até 2014”, analisou Nastari.

Além de condições climáticas adversas, Nastari também creditou a queda da oferta de ATR ao aumento de impurezas vegetais na cana que chega às usinas, fruto da colheita mecanizada.

“Com a colheita mecanizada, parte da cana que está chegando às usinas tem um volume crescente de palha. Essa moagem não é a mesma moagem de cana que tínhamos antes da colheita mecanizada”, explicou.

Abaixo do preço de oportunidade

Segundo Nastari, o etanol está sendo vendido abaixo do preço de oportunidade graças à uma “política distorcida” que incentiva o consumo da gasolina. Ele garantiu que se o imposto de Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) não tivesse sido zerado em 2012 e se não houve o subsídio ao preço do combustível fóssil, a realidade do setor sucroalcooleiro seria “completamente diferente”.

“Se fossemos atualizar o valor da Cide, quando ela começou a cair no final de 2007, hoje seria de R$ 0,41 por litro e a realidade do setor seria completamente diferente”, disse. “Mas a sociedade brasileira está com essa política importando gasolina que não gera desenvolvimento econômico do país e deixando de utilizar o anidro, que acaba sendo vendido abaixo do preço de oportunidade”, criticou.

Nastari analisou que o consumo de etanol a partir da cana não é apenas uma ferramenta para controlar a importação de gasolina, mas também para superar problemas na área de eletricidade.

Em 2013, foram colocados pelo setor canavieiro ao menos 1,73 gigawatts médios no grid energético. Em 2014, a cifra pode chegar a 2,3 gigawatts médios. “Mas o potencial do setor é de 10 gigawatts. Então, em períodos de inverno, quando baixa a água do reservatório, essa seria uma solução, mas com essa política não é possível.”

Etanol e emissões de CO2

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Szware: “A gente precisa deixar de apenas elogiar as iniciativas e realmente internalizar na economia os benefícios que os produtos bio podem trazer”. Foto: Tâmna Waqued/Fiesp

Segundo estimativas do consultor de emissões e tecnologia da União da Indústria de Cana de Açúcar (Unica), Alfred Szwarc, de março de 2013 a março de 2013, o Brasil reduziu em 241 milhões de toneladas as emissões de CO2 com o uso de etanol em veículos flex.

“Isso equivale a emissão de CO2 pela Áustria durante três anos e meio”, afirmou Szwarc.

Ele ponderou que para contribuir ainda mais para a redução de emissões pelo transporte, a produção de etanol “passa por uma revisão de políticas públicas que temos tido ou até a falta dessas políticas”.

“A gente precisa deixar de apenas elogiar as iniciativas e realmente internalizar na economia os benefícios que os produtos bio podem trazer”, concluiu.

Também participou do painel o presidente da Volvo Bus Latin America, Luís Carlos Pimenta, e o professor da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), Luiz Augusto Horta Nogueira.

L.E.T.S.

A Semana da Infraestrutura da Fiesp (L.E.T.S.) representa a união de quatro encontros tradicionais da entidade: 9º Encontro de Logística e Transporte, 15º Encontro de Energia, 6º Encontro de Telecomunicações e 4º Encontro de Saneamento Básico.

O evento acontece de 19 a 22 de maio (segunda a quinta-feira), das 8h30 às 18h30, no Centro de Convenções do Hotel Unique, em São Paulo.

Mais informações: www.fiesp.com.br/lets