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‘Mercosul, como está, caminha para irrelevância’, diz embaixador José Botafogo

Segundo ele, é importante considerar no momento a formação original do bloco e focar em duas vocações de negócios: energia e alimentos

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

Há dois elementos que fazem do Mercosul um bloco com capacidades “extraordinárias” de integração no sentido prático, a produção e exportação de energia e alimentos, avaliou nesta terça-feira (16/09) o embaixador José Botafogo Gonçalves. Segundo ele, a formação original do bloco (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) deveria ser o foco das intenções de integração regional.

“É preciso voltar a pensar no Mercosul dos quatro [países]. Porque o Mercosul, como está, caminha para uma absoluta irrelevância, na medida em que se converte cada vez mais num centro político de debate bolivariano. Por esse lado não há nada a fazer”, disse Botafogo ao participar da reunião do Conselho Superior de Comércio Exterior (Coscex) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). A Venezuela integrou o bloco em 2012, com a suspensão temporária do Paraguai.

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Botafogo: Mercosul deveria se concentrar em aumentar o comércio de produtos alimentícios transformados pela própria indústria do Brasil. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


O embaixador defendeu a mudança da vocação do Mercosul para o comércio energético, uma vez que a Argentina figura entre uma das promessas de abastecimento energético graças à descoberta de hidrocarbonetos não convencionais no sudoeste do país, na jazida de Vaca Muerta.

A jazida, que tem praticamente a área da Áustria, coloca o vizinho do Brasil na posição de terceiro detentor de hidrocarbonetos não convencionais do mundo.

“A Argentina tem enorme potencialidade no caso do gás natural. Os investidores estrangeiros vão olhar para as potencialidades energéticas brasileiras e também para as argentinas. Então, há todo um interesse de abrir uma discussão bilateral entre Brasil e Argentina, não só de empregos mas a título de governo, sobre políticas energéticas que sejam pelo menos convergentes”, avaliou Botafogo.

Segundo ele, potenciais como o da Argentina e do Brasil atribuem uma nova vocação “para o que eu chamaria de Mercosul energético, mas é preciso começar praticamente do zero”.


Alimentos

Botafogo também defendeu o potencial da produção de alimentos do Mercosul e afirmou que o bloco deveria se concentrar não só em aumentar o comércio de commodities agrícolas como também de produtos alimentícios transformados pela própria indústria do Brasil, inclusive.

“O que exportamos hoje são commodities agrícolas. Deveríamos focar em produtos, vender bife, latas e chegar à gôndola do consumidor chinês”, exemplificou o embaixador.

Ele acredita que as negociações comerciais do Mercosul no campo do agronegócio estão, no entanto, focadas no que não é o potencial sobretudo brasileiro: o acordo entre o bloco com a União Europeia (UE).

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Rubens Barbosa: Brasil precisa ter visão de médio longo prazo na dinâmica de negociação. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

“O Brasil sempre protesta contra a política agrícola da UE, mas o potencial do país não está na Europa, e sim na Ásia. A China vai incorporar nos próximos 10 anos mais de 400 milhões de pessoas na vida urbana. E quem vai dar comida para esses novos milhões de chineses que vão parar de produzir no campo para consumir na cidade?”, questionou.

“Um Mercosul alimentar envolvendo Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina também parece evidente, mas não há nada feito ainda a esse respeito”, concluiu.

A reunião do Coscex foi conduzida pelo embaixador Rubens Barbosa, presidente do conselho na Fiesp. Segundo ele “o Mercosul, como está, vai ser muito difícil recuperar o dinamismo negociador e comercial”.

Barbosa também afirmou que a nova percepção das vocações do bloco apresentada por Botafogo pode “injetar uma nova dinâmica na negociação. O problema é que para fazer isso a gente precisa de uma estratégia e de visão de médio, longo prazo que a gente não tem”.