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Internet das Coisas como alavanca de inovação

IoT mudará arquitetura de cidades e trará impactos para investigação forense

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

A Internet das Coisas (IoT) guarda relação direta com a inovação, pois permite de forma rápida a integração de tecnologias e o desenvolvimento tecnológico, promovendo modelo de negócios para a indústria. “O empreendedor precisa tomar riscos”, de acordo com Patrícia Peck Pinheiro (docente de Direito Digital da FIA e vice-presidente jurídica da Associação Brasileira dos Profissionais e Empresas de Segurança da Informação – Asegi) moderadora de um dos painéis do III Congresso de Direito Digital da Fiesp e do Ciesp, realizado em 17 de maio.

“Somos imigrantes digitais”, afirmou Giuseppe Sidrim Marrara (diretor da Cisco do Brasil e da Comissão de IoT da Associação Brasileira da Industria Elétrica e Eletrônica – Abinee) ao se referir à geração que ainda nasceu no tempo do analógico. “A nova geração tem outros requisitos e não aceita limites, quer ter acesso em todos os lugares. Nosso conhecimento agora é cumulativo não só em termos da quantidade de dados baixados, mas também a forma, a velocidade”, explicou.

Esses fatores levam a algumas conclusões: aplicar as regras do passado nesse novo cenário não terá eficácia em termos de regulação. Marrara questionou como lidar com isso no que diz respeito ao talento e à educação se a previsão é que, em 2025, metade dos empregos existentes será substituída por computadores e máquinas – e com uma população que envelhece rapidamente. “Antes, ter a informação tornava um profissional valioso, mas hoje ela é encontrada na Internet. O que irá funcionar é ter expertise, extrair lógica dos dados, big data analytics. Se é possível criar conhecimento com a informação, o processo, há um valor agregado, uma sabedoria que antecipa o que irá acontecer. E a indústria vai inovar muito mais rápido com ganho de produtividade e logística, como predizer fraudes no sistema de óleo e gás, o monitoramento de pressão e vazamentos”, exemplificou. Para ele, todo esse processo trará impacto para a vida das pessoas com a possibilidade de incremento de empregos mais qualificados, economia de 50% de água e 30% de energia, além da oferta de educação e saúde a valores infinitamente menores ao elencar os aspectos positivos dessa ruptura.

Por isso mesmo, Lucas Pinz (especialista em tecnologia e diretor da Logicals) disse que as startups são fundamentais para a inovação e a IoT. “Temos sensores transferindo dados, e é preciso pensar no uso de informações de modo inteligente para a tomada de decisão em tempo real”, afirmou, ao exemplificar que, em São Paulo, foram instalados dispositivos em 110 bocas de lobo. O objetivo é monitorar a quantidade de lixo acumulada em bueiros, pois 60% dos que são abertos para limpeza não necessitam do serviço. Essa tecnologia avisa quais bocas precisam ser efetivamente limpas, o que reduz alagamentos na cidade, salvando vidas, carros e com impacto nos custos de manutenção.

Compliance e segurança

O painel seguinte debateu compliance e segurança. Como fica a proteção de dados pessoais? Quais os aspectos de conformidade regulatória e as necessidades de segurança da informação para IoT para que se garanta a proteção de dados e a privacidade de informações pessoais, que devem fazer parte de qualquer solução que a indústria apresente ao mercado?

A partir de dados do Big Data é possível reunir características de uma pessoa quanto às suas preferências individuais, de religião, personalidade, realizar essa psicometria, revelou Alexandre Zavaglia (diretor executivo do Instituto de Direito Público de SP-IDP) que questionou o uso desses dados quando bilhões de dispositivos estiverem conectados à internet. “O fato envolve inevitavelmente a responsabilidade de todos nós, das empresas e do pessoal da área de direito também”, disse o expositor.

Sobre o futuro da privacidade, ele comentou que é possível realizar, via programa, uma escuta ambiental: por meio de imagens de câmera é possível revelar o que duas pessoas estão falando na rua. “Com esse programa, acaba a profissão de tradutor, dublador”. Outro exemplo diz respeito ao IBM Watson News Explorer que faz buscas em 6 segundos, reunindo informação de clientes, notícias contidas em jornais, cruzando todos os dados, inclusive por relevância e em quais países. E apontou ainda uma outra situação: uma empresa pequena de aplicativos de jogos é vendida para outra, e os dados dos clientes são transferidos. Qual a garantia possível quanto à privacidade?

Para Cristina Moraes Sleiman (docente da pós-graduação em Direito Digital e Compliance da Faculdade Damásio), há muitas leis em discussão nesse sentido, incluindo o marco civil da internet. “As leis estão preparadas para essa transformação?”, questionou. “O que a empresa pode fazer para se prevenir? As empresas têm responsabilidade objetiva e há consequências”, avaliou.

“Mesmo quando se diz que seus dados não serão armazenados, é possível recuperá-los”, alertou Rogério Winter (coronel do Exército brasileiro). Aumenta a área de ataque com tantos dispositivos disponíveis, em sua avaliação, e é preciso questionar o que o usuário entende como privacidade e qual sua reação a isso. A criptografia é uma solução, mas se adquirirmos equipamentos que vêm de fora, ela estará subordinada às leis desses países. “Quem programa? Quem testa e faz a validação? A certificação e a auditagem?”, perguntou.

Há outro risco, na visão do coronel: o time to marketing, pois são lançados produtos novos agora que serão substituídos por outros em seis meses apenas. Assim, é preciso ter uma visão sociotecnológica, e não apenas tecnológica, considerando o ambiente onde ocorre o evento, os processos, as pessoas envolvidas. Ou seja, revisão da segurança e suas políticas.

Smart cities

Há uma oportunidade aberta para o empresário de microeletrônica para garantir segurança para IoT, um mercado para players industriais fazendo inovação, na análise de Johnny Doin (da Frente Parlamentar Mista em Apoio às cidades inteligentes e humanas da Câmara dos Deputados). As smart cities se confundem com IoT (com dados que podem estar na nuvem) mas naquela se envolve a estrutura física das cidades e também a segurança física, pois elas são vulneráveis a ataques e é preciso pensar na arquitetura voltada para a guerra cibernética. “Quem não enfrenta o processo com requisitos bons terá passivos no futuro”, alertou, enfatizando a necessidade do direito à segurança cibernética que deveria ser tratado como direito do cidadão, pois segurança é pública, e o cidadão deveria se sentir seguro nas ruas da cidade também.

Na opinião de Jeferson D’Addario (Daryus Consultoria), há uma falta de gestão de TI, o que possibilitou o ataque de vírus de resgate na semana passada (ransomware).“Os hackers acham tudo isso inútil, equivocado, que não serve para nada [sobre a nossa realidade], aprendem tecnologia de ponta, mas isto não vale nada”, concluiu.

Experiências do mercado e dispositivos IoT conectados

O objetivo desse painel foi promover sólida visão de casos práticos já em pleno uso de IoT, no Brasil e no mundo, além de seus impactos regulatórios, legais e de segurança, de forma que se possa entender os desafios das soluções de dispositivos já implantados.

“Precisamos de algumas regras, pois um ponto em comum de todos esses dispositivos é a programação, e aí se encontram as vulnerabilidades, mas quem opera é um ser humano”, pontuou Renato Opice Blum (docente do Insper e vice-presidente da Comissão de Direito Digital e Compliance da OAB-SP).

O crime tem usado muito a IoT. Exemplo é o ataque de 9 de abril quando, em Dallas, todas as sirenes de emergência foram disparadas por duas horas exatamente por tudo estar conectado, ilustrou Thiago Bordini (New Space Prevention Inteligência Cibernética e membro da Comissão de IoT da Abinee). Em São Paulo, um pesquisador alertou que o sistema de metrô poderia ser paralisado por conta de uma vulnerabilidade e foi constatado, no seu manual, que a criptografia vinha desativada por questão de segurança.

Para isso é preciso política de Estado, e não de governo, para que muitas coisas saíam da burrice natural e migrem para a inteligência artificial, observou Eduardo Oliva (consultor independente). E citou como exemplo o uso de drones na agricultura para alcançar microrregiões.

As ações para desenvolvimento de IoT são incentivadas com recursos do governo, em sua maioria, e por projetos de cooperação público-privada. As soluções para smart cities têm claros benefícios econômicos e sociais, como o caso da Indústria 4.0. Essas observações partiram de Francisco Giacomini Soares (diretor da Comissão de IoT da Abinee). Ele elencou os principais impactos de IoT esperados para o Brasil: legislação, regulação, mercado, tecnologia e recursos humanos.

Há diversos projetos mundiais em andamento para smart cities. Na Europa, trabalha-se nesse sentido desde 2011 com investimentos de 7 bilhões de euros a fundo perdido em pesquisa e IoT. O mesmo acontece no Japão. Na China, há um grande projeto sendo desenvolvido a fim de transformar quantidade [de produtos] em qualidade, e a IoT é compreendida como oportunidade. O mesmo se dá no Japão também e no Reino Unido, contando-se inclusive com consórcio de empresas privadas, informou o representante da Abinee.

Investigação forense

Um painel específico do III Congresso de Direito Digital foi focado em Investigação Forense e IoT, a fim de compreender problemas relacionados à investigação criminal, que deve ser conduzida em análise de casos que envolvam esse tipo de sistema, suas particularidades, dificuldades na coleta de vestígios de evidencias e indícios sob a ótica ética e lógica. O mediador foi Adriano Valim (perito forense computacional e docente no Mackenzie e Unip).

As câmeras de segurança podem ser invadidas, e esses dispositivos, hackeados, alertou Fernando Carbone (diretor de investigação cibernética na Kroll). Assim, é possível visualizar as imagens na casa da pessoa que tem esse dispositivo. O wireless também presta informações valiosas, segundo explicou o expositor.

Também integra a responsabilidade social da empresa se ela presta informações que ajude na esfera forense a esclarecer crimes. A observação feira por Marcos Tupinambá (docente da Academia de Polícia do Estado de São Paulo) foi ilustrada com o caso de lâmpadas inteligentes que foram “atacadas”, eram ligadas e desligadas remotamente, e essa falha precisou ser corrigida.

Para João Roberto Peres (professor e consultor da FGV), a IoT promove uma expansão para as pontas, com os sensores, e de outro lado, quando liga tudo isso a uma rede. Assim, cria-se um espectro mais vasto de análise de dados com a consequente ampliação da investigação, disse, na conclusão do painel.