Integração de lavoura com pecuária e pastagem para combater degradação do solo ganha força no Brasil

Sistema desenvolvido pela Embrapa ganhou discussão em workshop promovido pelo Cosema, na sede da Fiesp

Roseli Lopes, Agência Indusnet Fiesp

O Brasil possui 170 milhões de hectares de pastagens plantadas, Desse total, estima-se que 100 milhões de hectares estejam com o solo em acelerado processo de degradação, ou seja, perdendo água e nutrientes e, consequentemente, capacidade produtiva, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Esse ‘desgaste’ gera perdas ao produtor, ao setor agrícola e, por extensão, à economia. Adoecido, o solo pode sofrer erosão, carregando com a terra a matéria orgânica e com ela sua fertilidade. A boa notícia é que, nos últimos dez anos,  uma solução desenvolvida pela Embrapa em parceria com cooperativas e associações tem ajudado a minimizar a degradação de áreas agrícolas: o sistema Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF).

O conceito do ILPF é simples: milho, soja, pastagem, árvores e gado podem se desenvolver em uma única área, juntos, construindo com isso uma sinergia de forma que a lavoura beneficie a pastagem, a pastagem beneficie a pecuária e as árvores beneficiem a lavoura, diz o professor Júlio Cesar Salton, pesquisador da área de Manejo do Solo da Embrapa Agropecuária, no workshop do Conselho Superior de Meio Ambiente (Cosema) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na terça-feira, 26 de setembro. “Embora o reaproveitamento do solo seja uma prática antiga, que remonta a séculos, a forma como o Brasil vem colocando isso em prática, com plantio direto e manejo diferenciado,  em colocado o país numa posição de vanguarda em relação a outras nações”, diz.

Salton conta que os efeitos positivos dessa integração podem ser percebidos na fazenda com a melhora na qualidade do solo e da água. Para o produtor há ganho no aumento da renda, diversificação das culturas, menor gasto com insumos e agrotóxicos. Estudos da Embrapa concluíram que o sistema de integração também é capaz de gerar o dobro de proteína na pastagem em relação ao sistema convencional, com uma única cultura. Isso permitiu elevar o ganho do peso animal de 670 gramas por cabeça ao dia para 940 gramas.

Reunião do Cosema, presidida por Walter Lazarini (terceiro da esq. para a dir.) discutiu o reaproveitamento do solo agrícola no país por meio de solução da Embrapa. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Ganhos

Em relação à matéria orgânica contida no solo, outro estudo, diz o professor, mostrou a viabilidade econômica do ILPF ao calcular a margem de ganho do produtor em um período de quatro anos. No primeiro ano, indicou o estudo, o produtor teve um ganho de R$ 5mil. No segundo, de R$ 57 mil, no terceiro, de R$ 118 mil e no quarto, de R$ 220 mil.   “Um solo não sustentável fica mais exposto, sem proteção, sem cobertura, sofre o impacto das chuvas, da exposição excessiva ao sol, dois agentes que podem acelerar o processo de degradação. Mas se o produtor tiver um solo coberto, protegido pela palha proveniente de outras culturas ele fica imune à ação das chuvas, por exemplo, reduzindo significativamente a possibilidade de erosão.

“O sistema de integração é muito importante dada a relação que a agricultura tem com o meio ambiente e porque o Brasil é um dos grandes produtores mundiais de alimentos”, disse Walter Lazarini, presidente do Cosema. Lazarini, que também é agrônomo de formação, lembra que é uma forma extremamente avançada, estudada, pesquisada de exploração agrícola que é trabalhada em harmonia com o meio ambiente”. “Seguramente estamos preservando o solo e garantindo a alimentação e a sustentabilidade para as futuras gerações, completou.

O fomento à adoção da ILPF feito pela Embrapa usa uma rede de 100 Unidades de Referência em Tecnologia, a chamadas URTs, que envolve a participação de 19 Unidades de Pesquisa da Embrapa. Hoje, segundo levantamento da Embrapa, a ILPF já atingiu a marca de 11,5 milhões de hectares do agronegócio brasileiro. O Estado do Mato Grosso do Sul (MS) é o maior exemplo de sucesso do sistema integrado. MS tem atualmente 10 milhões de hectares de pastagem degradados, que vêm sendo recuperados aos poucos graças à implementação por parte de produtores dos sistemas de integração.