Finep apoia conceito de São Paulo 4.0 defendido pela Fiesp

Presidentes de agências de fomento federais participam de reunião do Conic

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

O presidente da Finep, Marcos Cintra, participou nesta sexta-feira (11 de agosto) de reunião do Conselho Superior de Inovação e Competitividade da Fiesp (Conic). Rodrigo Loures, presidente do conselho, conduziu o evento. Explicou na abertura o conceito de Bio Cidade 4.0, pretendido para São Paulo, com o estímulo ao surgimento de um ecossistema de inovação. “O que os atores precisam é de uma transformação do ambiente, para que se aproveitem suas potencialidades.”

Loures defendeu a transformação da cultura nos diversos sistemas ligados ao desenvolvimento para permitir o florescimento do empreendedorismo. A imensa área de oportunidades está na cidade de São Paulo, em que não há falta de empreendedores, mas há falta de qualidade do empreendedorismo, devido às deficiências sistêmicas. Sem haver inovação, o Brasil não vai voltar a crescer, afirmou.

A Finep, segundo seu presidente, Marcos Cintra, tem todo interesse em apoiar a iniciativa São Paulo 4.0 da Fiesp. “São Paulo é uma grande vitrine. O que acontece aqui é visto, acompanhado e repercute no resto do Brasil”, disse. “Às vezes fazer projetos-piloto como o proposto pode ser mais eficiente, pela infraestrutura existente, em vez de diluir e espalhar recursos.

Frisou que São Paulo tem mantido seu potencial de desenvolvimento, apesar dos problemas. Transformar ou lançar programas que sejam inovadores exige agilidade, flexibilidade e pouca burocracia, destacou.

Wilson Nobre, conselheiro do Conic, comentou a existência em São Paulo de muitas questões intensas, mais que na maior parte das cidades concorrentes. A gestão pública, com maior eficiência, pode levar à organização dessas demandas, defendeu. Se conseguirmos que se use a quarta revolução industrial para atacar esses problemas, o conceito validado com 20 milhões de habitantes em São Paulo poderia ser escalado para os 200 milhões do Brasil. E depois essas tecnologias poderiam ser exportadas para aquelas partes do mundo com problemas semelhantes, onde há população de 4 bilhões de habitantes.

Finep

Marcos Cintra fez a apresentação Tendências Mundiais no Apoio à C,T&I e o Papel da Finep. Mencionou a tendência à morosidade nas instituições públicas no Brasil.

Recomendou a leitura dos Innovation Outlooks, da OCDE. Disse que é particularmente interessante a de 2016 sobre tendências mundiais em temas como tecnologia e sociedade. Demografia, por exemplo, é um problema seriíssimo, com o envelhecimento da população e uma série de desafios ao poder público e à sociedade.

Há novas demandas, mas demora para que a prioridade se assente na sociedade, explicou.

Gastos públicos em C&T atingiram um limite e provavelmente tenderão a diminuir ao longo do tempo. Nos EUA a linha já é declinante. Também UE e Japão. A grande exceção é a China, em que o setor é uma das grandes prioridades.

Uma primeira mensagem, disse, é que não se pode esperar muito do setor público. Os gastos privados em C,T&I têm crescido, especialmente a partir de 2011.

O Brasil, diferentemente da tendência ocorrida mais recentemente em outros países, até 2014 mostrava expansão; depois houve queda, por razões conjunturais.

A tendência tem sido de grande expansão de gastos privados financiando investimentos públicos em C&T. Há interesse em instrumentos como crédito, compras governamentais, subsídios e subvenções que não necessariamente representem desembolsos (non spending ways).

A filantropia científica, por meio por exemplo de fundações,  não faz parte da cultura brasileira, mas em países como os EUA têm tido grande expansão.

Também a área de cooperação internacional se mostra tendência forte, com divisão de custos e compartilhamento de estudos.

Estamos, disse Cintra, vivendo situação de extrema escassez de recursos públicos, devido à crise fiscal brasileira. O principal fundo financiador, o FNDCT, por meio do qual a Finep opera suas principais linhas de apoio, que já chegaram a mais de R$ 4 bilhões, teve no projeto de lei orçamentária para 2018 seus recursos limitados a R$ 745 milhões. “É uma queda absolutamente dramática.”

Destacou entre programas recentes afinados com as tendências mundiais da Finep, que completa 50 anos, o Finep Startup, com edital lançado em 27 de junho e que teve 513 empresas inscritas, das quais 25 serão escolhidas agora e outras 25 em janeiro. O aporte será de até R$ 1 milhão para empresas com faturamento anual de até R$ 3,6 milhões. Há R$ 50 milhões disponíveis nesse primeiro edital, de um total de R$ 400 milhões. Isso é feito por meio de contrato de opção de compra das empresas, o que permite usar recursos do Banco Finep.

Uma das grandes dificuldades no apoio a startups, lembrou, Cintra, é a avaliação de seu valor. No caso do Finep Startup, havendo liquidez ao longo dos três anos de apoio, a instituição pode exercer ou não a opção de compra. Se não fizer a opção, é porque o projeto não deu certo, e isso é lançado como prejuízo. Nas que forem bem-sucedidas a Finep espera alto retorno.

Uma característica importante, na avaliação de Cintra, é o coinvestimento privado, que tem remuneração extra, ficando com 10% do retorno que seria da Finep.

Outro programa destacado por Cintra é o de apoio às empresas de telecomunicações, desta vez atuando pelo lado da demanda, com recursos de R$ 630 milhões do Funtel, para financiamento de equipamentos, conforme a portaria MCT 950/2006. Também foi lançado em junho.

Reunião do Conic, da Fiesp, com a participação dos presidentes da Finep e do CNPq. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

 

Cintra explicou o desenvolvimento pela Finep de um seguro garantia, como alternativa de menor custo à fiança bancária, com redução de 60% para as empresas. Em pouco mais de dois meses, é bem-sucedido, afirmou.

O presidente da Finep revelou também a aprovação, em reunião de diretoria no dia anterior, de um novo programa, o Finep Conecta, de estímulo a investimento no setor público com recursos disponíveis para empresas, por meio de encomendas. Com o mínimo de 15% de cooperação com institutos públicos de pesquisa, o programa oferece até 100% de financiamento do projeto de investimento (contra 70% normalmente). Com 25% de cooperação, há alongamento do prazo e uso de TJLP + 1,5%. Para 50% ou mais de cooperação com ICTs, a taxa passa a ser a TJLP pura. Nesse caso, segundo Cintra, há subsídio implícito de R$ 20 milhões para um investimento de R$ 50 milhões.

A menta do Finep Conecta, explicou Cintra, é aumentar a interação de empresas com pesquisadores, no caso brasileiro muito concentrados no governo e no ensino superior (74%, contra 26% nas empresas). O Finep Conecta também prevê um sistema de matchmaking, que até o fim de agosto permitirá que empresas localizem ICTs e pesquisadores de suas áreas de interesse.

Outra ação, para a qual pediu o apoio do Conic, é a tentativa de transformar o FNDCT de contábil em fundo financeiro. Geraria rendimento anual de R$ 2,5 bilhões, tornando o fundo autossustentável.

CNPq

Também o presidente do CNPq, Mario Neto Borges, defendeu que o FNDCT seja um fundo financeiro não contingenciável. Ele disse que as agências de fomento, federais e estaduais, precisam trabalhar articuladamente para que o Brasil saia da crise e que haja planejamento de longo prazo. Além disso é preciso injetar recursos e promover a desburocratização.

Lembrou que o Brasil concentra em commodities suas exportações e que na área específica do agronegócio isso de deve à pesquisa, feita por Embrapa, Lavras, Esalq e outras instituições. Nas importações há concentração em produtos acabados, de maior valor agregado. Há espaço para produzir no Brasil com mais inovação e competitividade, afirmou.

O grau de complexidade da estrutura produtiva brasileira é baixo, o que só muda com investimentos em C,T&I. “Somos muito montadores, em vez de desenvolvedores.”

Borges descreve o programa Chamamento CNPq para o setor empresarial, com linhas de interesse como o apoio ao desenvolvimento de projetos científicos, tecnológicos e de inovação e capacitação de recursos humanos em pesquisa e inovação, no Brasil ou no exterior.

Os eixos de sustentação da C,T&I são distorcidos no Brasil, explicou, com muito desenvolvimento de ciência e pouco de tecnologia e inovação, o que impede a criação e redistribuição de renda. É preciso, defendeu, ter recursos para corrigir o problema.

No fomento à inovação há um programa chamado Rhae, de pesquisadores na empresa, bolsas de fomento tecnológico, e novidades como o Doutorado Acadêmico Industrial (DAI) e o BJT (bolsa de jovens talentos) e o Start-up BR, relançado em sua terceira fase pelo CNPq na véspera da reunião, com R$ 10 milhões em recursos.

O DAI vai ser lançado também com o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), depois de uma experiência bem-sucedida e renovada com a Universidade Federal do ABC. Prevê orientador acadêmico e supervisor industrial. Borges apresentou o caso da Mercedes-Benz, que aderiu ao programa, tendo como resultado o estudo de um compósito de prolipropileno com pó de pneu, para reduzir o volume de rejeitos e encapsular motores, reduzindo a poluição sonora.

A Bolsa Atração de Jovens Talentos (BJT) procura fazer que os alunos trabalhem em empresas da Embrapii, em atividades tecnológicas, pesquisa aplicada e empreendedorismo. Serão 200 bolsas inicialmente.

Questão cultural

Antonio Carlos Teixeira Álvares, vice-presidente do Conic, descreveu sua experiência com a Finep, como acionista de indústria de embalagens de aço. Apesar de estar em setor maduro, a empresa cresceu 400% nos últimos 20 anos graças à inovação, com o desenvolvimento de tecnologia pela qual obteve patente mundial. Teve para isso o apoio da Finep, da qual conseguiu o primeiro financiamento em 1994.

“Inovação é um negócio horizontal”, afirmou. Está na cultura e precisa ser estendida a toda a organização.

A Fiesp tem mais de 100 mil indústrias filiadas, lembrou. E há espaço nelas para a inovação, pensada como cultura. Inovação é transformar conhecimento em produto e em dinheiro, frisou.

Radicado no Vale do Silício, no Centro de Desenvolvimento da Samsung, Ricardo Bucholtz, diretor de desenvolvimento de negócios para a América Latina da plataforma Artik, frisou que as respostas para a criação de um ecossistema de inovação de classe mundial em São Paulo já foram dadas na própria reunião do Conic, começando pela desburocratização. “É muito difícil para uma empresa pequena trazer inovação para dentro de si. Se aqui não tem, por que dificultar a entrada de tecnologias que podem ajudar?”

Destacou que “Indústria 4.0 a gente não tira da prateleira de uma loja. Não é só tecnologia. Parte está na mudança no modo de pensar das empresas. Uma vez mudado o modus operandi, a tecnologia só vai ajudar.”