Fiesp debate segurança hídrica do Estado de SP para período de seca

Secretário Benedito Braga detalha planos até 2050 para garantir abastecimento

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

O Conselho Superior de Meio Ambiente da Fiesp (Cosema) debateu nesta terça-feira (27 de junho) o enfrentamento da crise hídrica e o abastecimento de água no período de seca que se inicia (pouca chuva entre julho e outubro), conforme enfatizou seu presidente, Walter Lazzarini que abriu a reunião com um convidado especial: Benedito Pinto Ferreira Braga Júnior, secretário de Estado de Saneamento e Recursos Hídricos e também presidente do Conselho Mundial da Água.

De acordo com o secretário, a água conecta os assentamentos humanos, a sociedade, com impacto na saúde pública, nos meios de produção de alimentos, como propulsor da economia e da geração de energia, impulsionando o desenvolvimento da indústria e do comércio mantendo o meio ambiente equilibrado.

Nesse sentido, os números são esclarecedores: até 2050 teremos 70% das pessoas vivendo em cidades e 2 bilhões de pessoas sem acesso à água potável ou saneamento básico. Na alimentação da agricultura, haverá demanda aumentada em 70%, e no setor industrial e de energia, mais 40% de demanda até 2030 e 1,3 bilhão sem acesso à eletricidade. Em termos de ecologia, 50% das áreas úmidas terão sido perdidas, e haverá rios que não alcançarão os mares.

Ao tratar da variabilidade hidrológica, Braga Jr. afirmou que há situações de pouca água ou seu excesso e expectativa que ela se acentue ainda mais nos próximos anos, em função da mudança climática e da queima de combustíveis fósseis.

A importância da correlação entre chuva e economia teve como exemplo o cenário do Zimbábue. Com mais oferta de água, aumenta-se o Produto Interno Bruto (PIB), mas com sua infraestrutura precária, sem armazenagem, o índice é de 40 a 50 m³ por habitante/ano. Nos Estados Unidos, este índice é de 5.000 m³ por habitante/ano. Esta é uma forma de elucidar que as nações mais ricas compartilham pequena janela hidrológica favorável. As chuvas torrenciais também provocam prejuízos ao PIB: 14% nos países menos desenvolvidos, por falta de reservação de água, 4% nos mais desenvolvidos.

Braga não compartilha a ideia de que as guerras futuras serão movidas pelo controle da água, porque a história tem demonstrado mais exemplos de cooperação do que de conflito. Mas não descarta que tumultos possam a vir se acirrar no futuro.

Em uma retrospectiva do Estado de São Paulo, Braga rejeitou as críticas de que faltou planejamento quando tratou da crise 2014/2015, a seca mais severa nos últimos 84 anos e com probabilidade de ocorrer a cada 250 anos. Os estudos climatológicos àquela época indicavam situação de normalidade.

Do sistema Cantareira e seus quatro reservatórios, com capacidade de 986 milhões de m³, vem 50% do abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) onde habitam 22 milhões pessoas. O sistema hídrico integrado – composto por oito mananciais – tem potencial de 75,5% m³/s e disponibilidade hídrica 95% do tempo.

Braga explicou como a crise foi enfrentada: os vários sistemas não estavam interligados, e foram feitas as devidas conexões. As áreas abastecidas pelo Cantareira passaram a ser atendidas pelo Alto Tietê (AT) e Guarapiranga (6,6 m³/s de transferência de água entre os sistemas), além da utilização do volume morto (que não gera energia) e obras emergenciais. Essas ações se somaram à intensificação do combate a perdas/redução da pressão e programas de bônus e ônus entre os usuários.

O combate às perdas no sistema foi resolvido com válvulas redutoras de pressão, especialmente à noite, pois quanto maior a pressão, maior o vazamento, segundo explicou Braga. Assim, obteve-se redução de 13 m³/s nas perdas verificadas.

No Cantareira, houve redução de 17,4 m³/s, redução de 55% na produção de água (fevereiro de 2014 a agosto de 2015). A crise foi contornada com o auxílio do Guarapiranga e do AT: na RMSP como um todo se produziam 71 m³/s e, no auge da crise, caiu para 52 em função das providências tomadas. Na avaliação do secretário, a população atendeu ao apelo de economizar água e houve redução de 27% na produção, na RMSP, e esse bônus se prolongou com a mudança de hábito de todos.

“O governo se esforçou para aumentar a segurança hídrica”, afirmou Braga. Entre as ações de médio prazo para 2016-2018, citou reforço no Cantareira, de 5,1 m³/s captado no reservatório do Jaguari (Paraíba do Sul) além do reforço para o AT com transposição do rio Itapanhaú, que soma mais 2 m³/s; além do reforço na zona Oeste da RMSP, 6,4 m³/s com a transposição do São Lourenço, em parceria público-privada, e em fase de finalização. Houve a recomposição de algumas adutoras e a utilização de membranas ultrafiltrantes. Estão em curso obras de grandes proporções, como a do sistema produtor São Lourenço. Portanto, a ajuda não veio “só de São Pedro”, conforme enfatizou o expositor.

Nas ações de longo prazo, trabalhando-se para o ano 2050, será necessário aumentar mais uma vez a segurança hídrica e realizar o detalhamento de alternativas estruturantes do Plano da Macrometrópole (reversão do Alto Paranapanema a partir da represa Jurumirim), e estão sendo feitos inventários hidrológicos. E, ainda, a gestão da demanda, mais controle de perdas, incentivo ao reúso com o apoio do sistema Aquapolo Ambiental, com ênfase em edifícios e condomínios com a individualização das unidades, e sistemas tarifários incentivadores.

Em sua conclusão, Benedito Braga brincou que “este ano não ouvirão falar tanto da Secretaria de Recursos Hídricos”. O presidente do Cosema, Walter Lazzarini, fez coro para garantir a tranquilidade da situação hídrica do Estado de São Paulo.

Abastecimento de água em São Paulo no período de seca foi tema do Cosema. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp