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‘Falta visão de médio e longo prazo’, diz consultor em workshop sobre pavimento de vias na Fiesp

Debate sobre o “Pavimento de Vias no Brasil” foi realizado na manhã desta quinta-feira (30/11) na sede da federação, em São Paulo

Isabela Barros, Agência Indusnet Fiesp

Foi realizado, na manhã desta quinta-feira (30/11), na Fiesp, em São Paulo, o workshop “Pavimento de Vias no Brasil”, que marcou o lançamento de estudo com o mesmo nome. O evento apresentou uma análise da cadeia produtiva da pavimentação no país, destacando os problemas que impactam o desenvolvimento da atividade a apontando soluções. A organização do debate ficou a cargo do Departamento da Indústria da Construção (Deconcic) da federação, responsável também pelo estudo.

O workshop foi mediado pelo diretor titular adjunto do Deconcic, Newton Cavalieri. Ele lembrou que a Fiesp discute o tema há muito tempo. “Em 2008 foi criado na Fiesp um grupo de trabalho sobre asfalto. Já em 2009 foi publicado um estudo sobre a cadeia produtiva do asfalto”, disse. “Em 2016 foi restabelecido um grupo de trabalho com escopo ampliado formado por empresas, gestores públicos, órgãos de fiscalização e controle e concessionárias, entre outros”.

Segundo Cavalieri, algumas das principais questões envolvidas no debate envolvem planejamento, manutenção e adequação da demanda às estimativas de uso do pavimento.

Nesse sentido, o Deconcic sugere uma agenda propositiva para a pavimentação no país, com ideias como licitar com projetos executivos, adotar maior peso ao critério de nota técnica, seguir normas de pavimentação mais adequadas, criar bancos de projetos e  investir também em vias com baixo volume de tráfego.

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O workshop sobre pavimentos: problemas de infraestrutura com impactos na economia. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

A demanda de tráfego nem sempre adequada ao pavimento colocado nas vias é outro ponto a ser observado. “Temos que tentar restabelecer uma política de investimento em infraestrutura, cobrar essa mobilização”, afirmou Manuel Rossitto, vice-presidente do Conselho Superior da Indústria da Construção (Consic).

Peso na economia

O Consultor  Fernando Garcia foi outro convidado do workshop. Ele apresentou um panorama da importância do transporte rodoviário na economia brasileira e dos problemas enfrentados pelo setor. “Cerca de 14,4% do custo da indústria extrativa no país está ligado ao frete”, disse. “Esse percentual é de 7,7% no comércio e de 4,2% na indústria de transformação”.

O custo do tempo também não deve ser ignorado. “Entre 2002 a 2014 a despeito dos investimentos feitos, aumentou muito o número de pessoas que levam mais de meia hora para chegar ao trabalho. “Em 2002, 46,5% dos brasileiros levavam mais de meia hora de casa para o trabalho. Em 2014, esse percentual subiu para 54,2%”.

Some-se a isso o grau de integração pequeno entre as modalidades de transporte. “A  infraestrutura é um elemento limitador”, disse Garcia. “É a safra que se perde pelas más condições da estrada ou pelo custo muito alto do frete”, explicou.

De acordo com o consultor, a receita do setor de transportes caiu. “Temos que voltar a planejar o futuro”, disse. “A nossa malha viária é precária e o ritmo de investimentos em infraestrutura para o transporte não acompanhou o aumento da frota de veículos no país”, afirmou. “Falta visão de médio e longo prazo”.

Também presente no evento, o deputado estadual Itamar Borges se mostrou otimista apesar de todas as dificuldades. “A economia está se recuperando, o importante é retomar a mobilização para recuperar os investimentos”, disse.

Investimentos

Rubens Cahin, chefe da Unidade de Coordenação do Programa Rodoviário do DER, falou sobre as ações do Governo do Estado de São Paulo no setor rodoviário. Cada vez mais se tentam ações coordenadas de médio e longo prazo, afirmou. Há sobrecarga nas rodovias, disse, reforçando a exposição de Fernando Garcia.

O modal rodoviário ainda concentra a maior parte da carga no Estado, com 80,8% (dado de 2011), mas já houve uma evolução em relação aos mais de 90% de 2000. Intenção é distribuir entre os outros modais, disse, destacando as hidrovias, em que o custo é de somente um quinto do transporte rodoviário, aliviando as estradas. A redução da sobrecarga é desejada porque o custo de manutenção aumenta muito devido a ela, lembrou.

São Paulo, afirmou Cahin, tem buscado incessantemente transferir para a iniciativa privada o que tem sustentabilidade econômica, permitindo que haja recursos para as outras rodovias. Além de 22.000 km de rodovias estaduais, São Paulo tem 1.000 km de rodovias federais e 15.000 km de estradas vicinais, que dão capilaridade do sistema de transporte.

Há uma densidade de 153 km de pavimentação por 1.000 km quadrados, cerca de seis vezes a média nacional. “Vamos investir muito para ampliar a capacidade dessas rodovias, com duplicações expressivas e implantação de faixas adicionais”, para melhorar o tráfego e aumentar a segurança.

A integração multimodal se justifica pela redução de custo. Uma das ações é o aumento dos vãos de pontes, para facilitar o escoamento via hidrovia e reduzir o custo logístico.

O DER ampliou seu foco também para a operação rodoviária, além da construção e manutenção das vias. O conceito é oferecer o serviço de transporte, explicou Cahin.

Todos os recursos da Cide são usados integralmente na manutenção de rodovias. “Por isso temos as melhores rodovias do país.” O investimento vem de outras fontes.

Além do Rodoanel, importante por fazer a conexão metropolitana das 10 maiores rodovias de São Paulo, Cahin ressaltou as obras da Nova Tamoios, para melhorar o porto de São Sebastião, por seu potencial para desafogar o de Santos. De 2015 a 2017 houve investimento próximo a R$ 10 bilhões nas rodovias paulistas, sendo R$ 4,8 milhões no Rodoanel, R$ 1,6 bilhão nos contornos da Nova Tamoios.

Há demanda reprimida de 1.500 km de recuperação na malha, disse. Para 2017 e 2018 os investimentos previstos são de R$ 3 bilhões. Há mais US$ 1,8 bilhão em obras graças a recursos do BID.

“A crise pegou todo mundo. Ficamos quase um ano sem licitações”, lembrou Cahin, e isso afetou todo o setor. Agora há novas condições, que exigem mais tecnologia das empresas e redução de custos. “Precisamos investir em projetos de qualidade.”

Falar do setor rodoviário de São Paulo é relativamente tranquilo, na comparação com outros Estados, ressaltou Cavalieri, que elogiou o relacionamento entre o DER e os empresários do setor.

Manoel Carlos Ferrari, vice-presidente do Sindicato da Indústria da Construção Pesada, destacou a queda nos últimos anos havida em seu segmento, pela redução nos investimentos. Diminuiu o uso de proteção ao pavimento, destacou. “Não se fala mais em micropavimento nem lama asfáltica no Estado de São Paulo”, destacou. Isso tem impacto sobre seu segmento. “As empresas não trocam equipamentos, e o reajuste do asfalto muitas vezes não cobre o aumento de custos.” Quanto mais se deteriora uma estrada, pior fica a manutenção e mais aumenta seu custo, destacou Ferrari. “Ano após ano vimos diminuírem os recursos do Governo para esse tipo de serviço, e cada vez teremos mais reclamações dos usuários, que jogam a culpa nas empresas.”

“É uma tarefa imensa cuidar de uma extensão tão grande de pavimento”, disse Cavalieri.

Hugo Rodrigues, diretor de comunicação da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), destacou a importância da pavimentação em concreto como alternativa ao asfalto. “Às vezes somos concorrentes, às vezes complementares”, disse. Para ele, uma questão a ser repensada é chamar de asfaltamento o que deveria ser chamado de pavimentação.

O pavimento de concreto tem características como o emprego de insumo nacional, a elevada durabilidade e a baixa manutenção. Com custo inicial competitivo e menor custo final, tem menor impacto ambiental, graças à redução da emissão de gases de efeito estufa, segundo a ABCP, representada no workshop também pelo engenheiro Marcos Dutra, que deu exemplos de pavimentação com concreto, como a BR 101, com mais de 1.000 km de extensão, BRTs, como o da Transcarioca, e vários casos de whitetopping.

Luiz Gustavo Rocholi, superintendente executivo da Associação Brasileiras das Indústrias Distribuidoras de Asfaltos (Abeda), também cobrou mais investimentos na construção e manutenção de rodovias. “Ainda estamos muito abaixo” de outros países, mesmo dos Brics, destacou. Há uma luz no fim do túnel em relação ao fornecimento de asfalto pela Petrobras, com maior previsibilidade graças à divulgação da política de reajustes da empresa. Segundo ponto importante nas conversas com a Petrobras se refere à importação, disse. Estuda-se a implantação de estrutura para permitir isso. Parceria com a ANP busca a melhora da qualidade do asfalto, disse.

“Antes de toda boa obra existe um bom projeto. E antes de uma boa pavimentação também existe um bom projeto”, disse José Roberto Bernasconi, presidente do Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva (Sinaenco). Defendeu também o resgate da engenharia. A falta da engenharia provoca diversos problemas e dá até margem à corrupção, disse. A engenharia está também na construção e na manutenção, não apenas no projeto das estradas, lembrou. “Precisamos de remuneração adequada, e o projetista tem que entrar no momento certo.”

Ao encerrar o evento, Cavalieri lembrou que o assunto não termina com o workshop.