Estudantes do Senai de Santos criam sistema de detecção de gás - FIESP

Estudantes do Senai de Santos criam sistema de detecção de gás

Sensores espalhados na região portuária vão monitorar possíveis vazamentos, permitindo que moradores sejam avisados do risco de forma ágil e segura

Roseli Lopes,  Agência Indusnet Fiesp

Um ano e meio atrás, um vazamento de ácido dicloro isocianúrico de sódio – composto químico usado na produção de desinfetantes – dentro do complexo do Porto de Santos, mais especificamente no Distrito de Vicente de Carvalho, no Guarujá, liberou uma nuvem altamente tóxica que se espalhou para várias cidades do litoral paulista. O acidente foi mais um na história da região portuária, polo petroquímico que abriga fabricantes de compostos para a indústria química e de derivados de petróleo. Mas, devido à sua extensão, uma vez que o fogo produzido só foi debelado após dois dias, o acidente influenciou na decisão de um grupo de estudantes do último semestre do curso Técnico em Portos do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) Antonio Souza Noschese, na Vila Mathias, em Santos, de desenvolver um software para monitoramento de gases perigosos, batizado de Alertar.

Naquele 14 de janeiro de 2016, no momento em que o céu do Guarujá foi tomado pela nuvem tóxica gerada a partir do acidente, ninguém sabia do que se tratava nem o que tinha acontecido, conta Mariana Dominguez Alves, de 25 anos, analista de sistemas e uma das cinco do grupo. A falta de um mecanismo de “alarme” e de informações à população resultou na intoxicação de pouco mais de 50 pessoas que foram expostas ao gás. A proposta do Alertar, como o nome sugere, é usar sensores, gerenciados por meio de um software, mais um aplicativo, para avisar a empresa, a Defesa Civil e principalmente moradores sobre vazamentos, diz a professora Samantha Roveri, orientadora do grupo.

Ter a participação da Defesa Civil, a quem caberia a função de disparar o alerta, segundo Mariana, fundamental na medida em que envolve risco às pessoas. “O objetivo do Alertar é a prevenção, é levar a informação de forma ágil e ao mesmo tempo segura”, completa Leonardo Nakai, de 26 anos, formado também no curso Técnico em Portos no Senai-Santos e participante do projeto. Ele explica que a ideia do sistema de monitoramento veio durante o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Que  todos acompanharam de perto o acidente e dois dos estudantes do grupo são vizinhos à área onde houve o vazamento. Por isso, diz, quando surgiu o trabalho de curso com o tema soluções todos viram no exemplo do Guarujá uma oportunidade de se pensar em algo para ajudar os moradores da região.  O projeto foi 100% desenvolvido dentro do Senai-Santos.

“Achamos a ideia relevante uma vez que aqui em Santos temos muitos terminais com produtos químicos que fazem com que nos sintamos no meio de uma bomba relógio. O projeto não evita o acidente, mas o propósito é o de ajudar no pós-acidente, minimizando os danos, em especial à população”, explica Nakai. Para isso, os sensores serão instalados em áreas próximas às indústrias. Ao primeiro sinal de vazamento ele “lê” a substância e envia um sinal para a Defesa Civil, que por sua vez avisará a empresa de onde o vazamento ocorreu e a população.

Da esq. para a dir., Mariana Alves, Jéssica Lopes e Leonardo Nakai, na Neorama. Foto: Divulgação

 

Mão dupla

O aplicativo, que pode ser usado em celulares ou tablets,  tem funcionalidade de mão dupla. Ao mesmo tempo em que é usado para informar os que residem próximo à área portuária sobre eventuais vazamentos, também pode ser utilizado pelo morador para encaminhar uma mensagem à Defesa Civil ou a órgãos de emergência no caso de perceber qualquer cheiro estranho no ar que esteja fora da área de alcance do Alertar, segundo Nakai.

Para levar a ideia adiante, o projeto depende de investimento no desenvolvimento dos sensores, além de mão-de-obra para o gerenciamento do sistema. Em busca de patrocínio para concretizar o projeto, o protótipo  do sensor foi apresentado recentemente na Neorama, feira de tecnologia realizada pela Prefeitura de Santos. “Nosso protótipo é para captação de gás carbônico”, diz Mariana.

Além do gás carbônico, estarão cadastrados no sensor os gases cloro e demais utilizados no porto, como o gás oriundo do petróleo. “Cada sensor é específico para os principais gases utilizados no porto”, diz Mariana. Nakai diz que também já mostraram a um fabricante de detectores de gases em São Paulo, onde o grupo também pôde tirar dúvidas sobre a implementação do protótipo. No momento, Mariana trabalha na interface do sistema, direcionado à Defesa Civil.

O desenvolvimento do Alerta teve o apoio de três professores e  orientação da professora Samantha Roveri. No primeiro semestre deste ano, o Alertar foi apresentado em Santos no Hackaton Mais, maratona de hackers promovida pela Prefeitura, voltada à promoção do desenvolvimento de projetos digitais que buscam dar transparência às informações públicas. Ficou em 4º lugar.