Entrevista: Jean Marc Bonnisseau, vice-reitor de Relações Internacionais da Sorbonne

De acordo com francês, interesse da Sorbonne pela formação profissionalizante do Senai-SP é um sinal de como as trocas são bilaterais na parceria com a Fiesp

Juan Saavedra, Agência Indusnet Fiesp

Jean Marc Bonnisseau: trabalho em comum com as empresas pode ser um trabalho de interesse verdadeiramente bilateral. Foto: Julia Moraes/Fiesp

Em entrevista ao site da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Jean Marc Bonnisseau, vice-reitor de Relações Internacionais da Universidade Paris 1 Pantheon-Sorbonne, fala sobre a aproximação entre a instituição e a Fiesp que resultou na cátedra “Globalização e mundo emergente”.

Leia trechos da entrevista:

Interesse pelo Brasil

As relações universitárias e intelectuais entre a França e o Brasil são muito antigas: Claude Lévi-Strauss foi professor na Universidade de São Paulo, nós temos intercâmbios nas áreas de filosofia, história e geografia há décadas. Nós, da Universidade de Paris, como outras universidades de Paris e francesas, com as universidades brasileiras, especialmente as universidades de São Paulo e do Estado de São Paulo, desde muito tempo. Temos intercâmbios também nas áreas de cinema, de direito, das artes… Então, verdadeiramente, a proximidade intelectual franco-brasileira é extremamente ampla.

Agora, no plano econômico, é verdade que, hoje, o Brasil aparece como país emergente e se tornou, efetivamente, um destino privilegiado do ponto de vista da cooperação universitária. Temos vários estudantes brasileiros que vêm, alguns estudantes em cotutela de doutorado, temos alguns estudantes franceses que vêm estudar e fazer estágios no Brasil.

Então, quando tomei posse há alguns meses, a pessoa que me precedia [Christine Mengin], como vice-presidente encarregada das Relações Internacionais, me disse: “O Brasil é um destino privilegiado, você tem que ir”. E foi a segunda viagem internacional que fiz, no final de agosto, início de setembro 2012. Então, o Brasil é, verdadeiramente, para nós, um elemento extremamente importante para nossa estratégia internacional. E eu diria, para resumir, que o que eu descubro hoje é uma grande proximidade intelectual nos assuntos mais relevantes, de um ponto de vista econômico, evidentemente, os problemas de competitividade, de desindustrialização, de taxa cambial, de direito do trabalho, direito social, todas estas perguntas que estão no cerne de nossas problemáticas na Europa e também estão no cerne das problemáticas da Fiesp, de São Paulo, e, de maneira geral, do Brasil.

E nós sentimos uma grande confiança em todos esses intercâmbios intelectuais que existem desde muito tempo entre a França e o Brasil. O Brasil não é novo para a França, a França não é nova para o Brasil, mas, hoje, efetivamente, existe uma relação, tanto no plano interuniversitário quanto nas relações com a sociedade civil, empresas, todo o Brasil totalmente novo e renovado.

E eu penso também que esta tradição intelectual nos aproxima muito mais do que nós estamos próximos da Ásia e da China. Desta forma, nesta competição internacional, a Europa, o Brasil, talvez a América Latina de uma maneira geral, nós sentimos que temos bastante coisa para fazer juntos, talvez não tendo que passar pelos Estados Unidos, e que realmente temos interesses em comum que se enraízam em uma longa história. O Brasil é também a história portuguesa, um país europeu. Temos uma língua em comum que nos aproxima. Todos esses elementos hoje são fundamentais para nosso interesse em trabalhar com este país, com as universidades mas também com a sociedade civil, as indústrias, enfim, todo o Estado brasileiro.

Esse acordo com a Fiesp, essa cátedra Fiesp-Sorbonne, é realmente, para nós, uma ferramenta essencial para desenvolver todas essas relações num interesse verdadeiramente mútuo entre a França e o Brasil.

Interesse pelo sistema Sesi-Senai

A troca vai acontecer nos dois sentidos. Nós tivemos a impressão, hoje de manhã, de ver toda a força desta organização em torno do Senai-SP [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial de São Paulo]. E na França toda essa questão da formação profissional está no centro de vários debates, particularmente por causa pela taxa de desemprego elevada que temos – e que continua a aumentar. E está claro que a formação profissional não é talvez tão eficaz quanto ela deveria ser no sistema francês para lutar contra o desemprego e ajudar os trabalhadores a adquirir qualificações novas para uma melhor integração no mercado de trabalho. Então, acredito que nós esperamos aprender um pouco e observar essa organização. E talvez importar boas práticas do Brasil para a França, essa questão de uma organização da formação profissional. Este é um dos pontos para mostrar efetivamente como as trocas são bilaterais.

O segundo ponto é que nós temos também na Universidade Panthéon-Sorbonne uma tradição de formação profissional, tanto na formação inicial com contratos de aprendizado e contratos de profissionalização, como na formação contínua. Aqui também temos uma certa expertise em temas que sejam talvez um pouco mais “fundamentais” – no sentido de acadêmicos – do que aqueles tradicionalmente ensinados pelo Senai, mas acredito que podemos também encontrar alguns pontos bem específicos sobre os quais poderíamos colaborar na formação de experts de diferentes níveis, o que pode ser bastante útil e operacional nas empresas.

Penso em algumas áreas nas quais a França é líder. Exemplo: em questões de análise de risco, que são também riscos industriais, como também financeiros etc. Em questões como essas poderemos ter uma cooperação bastante interessante com uma visão bastante aplicada e operacional como é, pelo que entendi das apresentações desta manhã, os objetivos do Senai.

Critérios de avaliação dos projetos

Penso que o ponto principal é que estes projetos sejam desenvolvidos de maneira verdadeiramente bilateral, quero dizer, que seja verdadeiramente uma área de interesse comum entre a Sorbonne e a Fiesp. É o primeiro critério.

O segundo critério, os resultados, não necessariamente de um ponto de vista de publicação científica, mas em todo caso, conseguir realizar verdadeiros trabalhos em comum, utilizando o cruzamento de dados que nós podemos ter na Europa e dados que aqui estão disponíveis. Evidente que uma federação patronal tem acesso a muitos dados, muitas vezes difíceis de adquirir. E pode ser um elemento muito importante. Então, trabalhos em comum com o cruzamento de dados novos e então, um “output” científico em relação aos trabalhos conduzidos.

E o terceiro aspecto, eu diria, a avaliação vai ser feita pelos próprios profissionais. Espero muito que os profissionais da Fiesp, quero dizer, as empresas associadas, os especialistas, os presidentes de empresas, possam dizer “sim – esta formação nos ajudou e nós conseguimos ver sua aplicação prática.

Três anos é um tempo bastante curto para que as ideias desenvolvidas dentro de um parâmetro de pesquisa possam ser implementadas, mas a capacidade de implementar ideias novas me parece um elemento bem importante.

Não falamos até agora, mas podemos falar dos estudantes. Acredito que nossos estudantes podem também se beneficiar, o que pode também ser um critério de avaliação, mediante estágios aqui no Estado de São Paulo. Eu conto bastante com isso. Ou até mesmo projetos de tese em comum.

De novo, três anos pode ser um tempo curto para implementá-las, mas nós temos esse sistema na França de teses feitas entre Universidades e empresas. Podemos imaginar teses entre uma empresa brasileira e uma universidade francesa. E isso seria um forte sinal de sucesso. A tese é verdadeiramente um destaque que mostra que temos interesses em comum, que em três anos conseguimos desenvolver algo e, frequentemente, são cooperações que continuam a durar, por terem se iniciado bem cedo na carreira do jovem pesquisador, que continua a agir como ponte entre as duas instituições.

Mensagem para comunidade acadêmica

Nós já temos projetos em curso nas áreas de competitividade, de direito social comparado, direito do trabalho. Então, o projeto essencial é dizer, hoje, no Brasil, que existem problemáticas que são próximas das nossas. E, nesse ponto, nossos colegas talvez não estejam totalmente informados. O Brasil aparece como um país em pleno desenvolvimento. Então, quando falamos do Brasil, não pensamos imediatamente em problemas de desindustrialização e de competitividade do ponto de vista da Europa.

Então, ajudar nesta “tomada de consciência” e dizer que, sobre estas temáticas, um trabalho em comum com as empresas pode ser um trabalho de interesse verdadeiramente bilateral. Quer dizer, não será simplesmente nós que vamos trazer nosso, digamos assim, “savoir-faire” ou nossas competências,  mas que podemos adquirir também através deste contato direto com empresas e profissionais que estão todos os dias em contato com a “economia real” ou com o “direito real”.

Hoje de manhã estávamos comentando sobre direito ambiental, que é particularmente complexo, sobre questões deste tipo temos muito a ganhar trabalhando sobre uma comparação França-Brasil. Ou até mesmo Europa-Brasil ou América Latina. Enfim, tem várias extensões possíveis. E, então, para nossos colegas, desmistificar um pouco o Brasil, primeiramente, e em seguida, pegar problemas brasileiros e comparar com os nossos, que é o interesse de todos os estudos comparativos, e, em terceiro lugar, esta cooperação com a Fiesp abre o espaço para a cooperação com vários outros parceiros do Estado de São Paulo e com o Brasil de uma maneira geral.

E então nos abre para outras parcerias acadêmicas, o que é sempre bastante positivo para nossas pesquisas e para nossos estudantes. E eu digo também que vocês poderão encontrar, para os seus estudantes em mestrado ou doutorado, oportunidades de estágio no exterior, o que vai lhes permitir uma experiência extraordinária e reforçar a sua empregabilidade.

Gostaria somente de destacar que a Panthéon-Sorbonne é a primeira universidade na área de ciências humanas e sociais na França (história, geografia, sociologia, artes) e uma das primeiras na Europa, sendo também uma das mais antigas.

De forma que nós nos apoiamos em uma experiência de séculos e, para nós, é um novo renascimento: a Europa se projetou nas Américas nos anos de 1500 e, agora, é o sistema universitário que também se projeta para esse novo mundo.

Acredito que será bem proveitoso para nós todos, destacando esta longa tradição, na qual se insere e se enraíza nossas pesquisas, de pessoas que trabalham para o “longo prazo” e sobre várias áreas geográficas [temos, por exemplo, vários especialistas da história da América Latina) e contamos também com esse tipo de especialistas para obter uma análise mais ampla dos fenômenos, não olhando somente para os últimos 10 anos, ou o problema imediato, como, por exemplo, da concorrência com a Ásia.

* Com tradução de Beatriz Stevens