Entrevista com Leonardo Cortez, diretor de Noite de Reis

Peça tem apresentação única no Centro Cultural Fiesp

Raisa Scandovieri, Agência Indusnet Fiesp

Nesta entrevista o ator, dramaturgo e professor de teatro Leonardo Cortez  explica seu trabalho e fala sobre Noite de Reis, montagem do Grupo ADID que terá apresentação única nesta terça-feira (22 de agosto) no Centro Cultural Fiesp.

Criado há quase 20 anos em meio às atividades da Associação para o Desenvolvimento Integral do Down (ADID), o grupo vem ao encontro da acentuada identificação dos alunos com Síndrome de Down com a linguagem teatral. Os espetáculos auxiliam os alunos no desenvolvimento da expressividade e da criatividade, ampliando o seu universo cultural.

Ao longo de sua história, o grupo já encenou importantes obras, como Romeu e Julieta (William Shakespeare) em 1998; Cinco Pequenas Histórias em Família (Luiz Fernando Verissimo) em 1999; O Jornal Falado (Coletivo), em 2000; Muito Barulho por Nada (William Shakespeare) em 2002; O Mambembe (Artur de Azevedo) em 2004; Um Violinista no Telhado (Joseph Stein, Sheldon Harnick e Jerry Bock) em 2006; A vida é Sonho (Pedro Calderón) em 2008; Sonho de uma Noite de Verão (William Shakespeare) em 2010; A Viagem do Capitão Tornado (Théophile Gautier) em 2012 e 2013; e Os Miseráveis (Victor Hugo) em 2015 e 2016 – as últimas três encenadas no Teatro do Sesi-SP.

De quando vem a parceria com o Sesi-SP? Como é essa relação?

Leonardo Cortez (LC) – A parceria tem quase dez anos. Iniciamos com o espetáculo Muito Barulho Por Nada e desde então temos percorrido as unidades do Sesi-SP no interior sempre que temos uma nova montagem. O Sesi-SP disponibiliza toda a estrutura de hospedagem, transporte e alimentação, e isso representa a valiosa possibilidade de entrar em turnê com os espetáculos, levando o trabalho e a sua proposta inclusiva para diferentes tipos de público.

A peça conta com 20 atores. Como é trabalhar com um grupo tão grande?

LC  – Trabalhar com um grupo tão grande é um exercício permanente do olhar, na tentativa de extrair o máximo do potencial individual dentro do trabalho coletivo. A relação entre o grupo é de grande respeito e amizade, o que, aliado ao profundo amor que eles têm pelo teatro, faz com que o trabalho aconteça num ambiente muito harmonioso.

Quanto tempo durou a preparação para est montagem?

LC  – Estamos pesquisando e ensaiando esse espetáculo há quase dois anos. É o tempo médio que cada peça leva para ficar pronta.

O que te levou a escolher referências da jovem guarda, como Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa (que até dão nomes a alguns dos personagens), para uma adaptação de Shakespeare?

LC  – Noite de Reis é uma peça sobre encontros e desencontros, emoldurada numa trama repleta de reviravoltas e surpresas. A ingenuidade presente nos discursos amorosos da peça dialoga diretamente com o frescor das letras da Jovem Guarda. Além disso, é um universo musical muito apreciado pelos alunos, que contribuíram diretamente na escolha da trilha.

Por que a escolha por canções de Roberto Carlos, Tim Maia e outros cantores, na trilha sonora?

LC  – Quis, com essa montagem, que os alunos se aprofundassem no trabalho musical, incorporando na nossa equipe o musicoterapeuta Higor Cataneo, que há dois anos vem trabalhando ritmo, afinação e musicalidade com eles. A proposta de um espetáculo essencialmente musical vem na carona de uma necessidade pedagógica: a música se revela, desde sempre, instrumento de integração e autoconhecimento.

Por que predominam os clássicos em suas apresentações?

LC  – Grandes textos ampliam o universo cultural dos alunos, revelando épocas diferentes e características humanas inerentes à época em que foram escritos. A escolha dos clássicos vem do meu amor por essa dramaturgia e pela sua potencialidade poética. Além disso, são textos que possuem um leque amplo de personagens, o que atende à necessidade de um grupo tão grande.

Como foi o processo de adaptação desse clássico? Por que o escolheu montar agora?

LC –  Noite de Reis é um dos meus textos prediletos de Shakespeare. O processo de adaptação partiu de improvisos dos próprios atores a partir do estudo da estrutura da obra. Incorporei elementos e falas que surgiram das improvisações e recriei o texto integralmente, com novas situações e personagens de modo a contemplar todos os atores do grupo com bons papéis.

O que essas apresentações aqui em São Paulo e em Itapetininga representam para você e para o grupo?

LC  – Estamos muito entusiasmados e felizes por estar de volta aos palcos do Sesi-SP, na fé convicta de que vamos estabelecer uma linda comunhão com o público. Foi um longo período de ensaios onde os atores superaram desafios enormes como intérpretes. Compartilhar essa conquista certamente será algo inesquecível.

O que o público pode esperar de Noite de Reis?

LC  – O público pode esperar um espetáculo de qualidade, encenado por um grupo absolutamente comprometido e apaixonado pela arte do teatro. O trabalho com o Grupo ADID é o resultado de um exercício de crença na potencialidade de cada um dos atores e os desafios superados se revelam a cada fala, tornando única a experiência como espectador. Costumo dizer que o público se torna torcedor de uma partida que vencemos juntos. Uma apresentação do Grupo ADID estabelece sempre uma comunhão única, com resultados muito emocionantes. E é preciso dizer que o humor do grupo é irresistível.