Em reunião na Fiesp, cientista político fala em “desconsolidação democrática”

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

No encontro do Conselho Superior de Estudos Avançados da Fiesp (Consea) desta segunda-feira (18 de setembro), debateu-se a “Comunicação Política, Eleição de 2018 e Opinião Pública no Brasil”, com o cientista político Rubens Figueiredo. Diretor do Cepac – Pesquisa e Comunicação, autor, coautor e organizador de 24 livros, tais como Vida inteligente na administração pública brasileira, Cidades nota dez, Marketing político em tempos modernos, entre outros.

Para Figueiredo, a conjuntura vem mudando cada vez mais rapidamente e, em sua exposição, fez uma análise em três tempos: o que o governo Temer representa em termos de opinião pública; o estado da opinião pública e a expectativa quanto às eleições em 2018.

Segundo o cientista, o governo Temer não é compreendido como uma “ruptura”, mas sim como continuidade do governo Dilma Rousseff. O governo Temer mantém boa articulação com a classe política, blindou sua equipe econômica, conseguiu base de governo mais forte do que Fernando Henrique Cardoso após o Plano Real, em sua avaliação, e, com a liberação do PIS e do FGTS, injetou fôlego na economia. O presidente expôs o tamanho do déficit público, que não era claro no governo anterior, trabalhou para a execução de reformas essenciais, recuperou o valor das estatais e diminuiu a presença do Estado, incrementando a iniciativa privada com a criação de uma secretaria de concessões, segundo o expositor. Porém, em sua análise, falta dar visibilidade a esses processos na comunicação à sociedade.

Em termos numéricos, ilustrou a questão do desemprego: Dilma Rousseff assumiu o posto com 5,3% de desemprego, quando saiu, elevou-se para 8,20%. A inflação que estava em 5,8% alcançou 9,3% no final do seu governo. O Produto Interno Bruto (PIB), no governo do ex-presidente Lula, de 4,64 pontos positivos, na média, caiu para menos 3,85 na saída da ex-mandatária. A dívida interna, de R$ 1,7 trilhão foi para quase R$ 3 trilhões. E as ações da Petrobras encolheram de R$ 23,21 para R$ 10,25. Aos números apresentados, o cientista político acrescentou que quando Dilma assumiu criavam-se 422 empregos por hora e quando ela saiu a média era de 306 desempregos por hora.

Diante desses dados, poderia se esperar uma outra análise ou quadro, mas em pesquisas de julho de 2017, Dilma Rousseff foi considerada melhor presidente do que Temer: 52% achavam o atual mandatário pior, 11% melhor e 34% igual ao período Dilma.

“É forte no Congresso, mas impopular [o governo Temer]. Não é lógico, mas é assim percebido”, avaliou Figueiredo, para quem há pautas complicadas para se vender como a reforma da Previdência, e “falta simbolismo nessa comunicação [do governo]”. O cientista político explicou que há todo um contexto a ser considerado, inclusive a queda brutal da credibilidade das instituições: 68% da presidente da República, em 2010, para 13% em 2017; o governo federal de 58% para 25%; o Congresso Nacional de 37% para 17%; os partidos políticos de 31% para 15%. O que ocorre é uma “desconsolidação democrática”, analisou, lembrando que há uma relação intrínseca de alguns fatores, pois “quando a economia está bem, melhora a avaliação da democracia”.

O cenário para as próximas eleições pode revelar o impacto de uma economia crescendo a 2,5% a 3%, com queda de juros, e determinará “se o eleitor será mais conservador ou não. Os eleitores votam em uma ideia e o candidato personifica uma ideia”, disse o cientista, que complementou que pode crescer a descrença e que hoje falta nitidamente liderança a fim de executar uma transição.

O presidente do Consea, Ruy Martins Altenfelder Silva, reafirmou que “este é um momento precioso de equilíbrio, cidadania e tomada de posição frente às eleições de 2018 e nas comunidades às quais pertencemos. É instigante porque nos obriga como cidadãos que os fatos sejam devidamente esclarecidos”, disse, referindo-se à Lava Jato e ao atual ambiente político no Brasil.

Reunião de 18 setembro do Consea, da Fiesp, com a participação de Rubens Figueiredo. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp