Economia circular pode evitar esgotamento de recursos naturais

Conceito que substitui o descarte de produtos pelo reaproveitamento é defendido em evento na Fiesp por especialistas que veem nesse modelo uma alternativa à produção sustentável e proteção do ecossistema

Roseli Lopes, Agência Indusnet Fiesp

O Brasil é um país privilegiado em recursos naturais, muitos deles renováveis. Todavia, o uso de forma excessiva desses recursos pelo homem pode levar a um desaparecimento de muitos deles. Um alerta nesse sentido veio, em 2014, de um relatório produzido pela Ellen MacArthur Foundation, apresentado durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Por meio do documento, a fundação, uma organização britânica sem fins lucrativos,  chamava a atenção para o modelo econômico baseado na extração-produção-descarte, conhecido como economia linear, que estaria atingindo seu limite físico. E apontou como saída aos países e empresas do mundo todo a substituição pela economia circular, onde o descarte é substituído pelo reaproveitamento.

O conceito de economia circular ainda é pouco difundido no Brasil. “É uma nova forma de olhar as relações entre o mercado, os clientes, os recursos naturais e a sociedade”, diz Diego Iritani, engenheiro ambiental especialista em sustentabilidade e economia circular, além de criador da Upcycle.  A necessidade e vantagens de empresas mudarem para esse modelo, além das oportunidades e desafios, estiveram na pauta do Congresso Egogerma 2017, organizado pela Câmara Brasil-Alemanha por meio de seu Departamento de Meio Ambiente, Energias Renováveis e Eficiência Energética, em parceria com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) , que neste ano teve como tema principal os Avanços e Desafios da Política Nacional de Resíduos Sólidos.

Mantida a taxa atual de consumo dos elementos químicos da natureza, 19% deles estarão esgotados ao fim dos próximos 50 anos, segundo Christiane Pereira, coordenadora no Brasil do Departamento de Resíduos e Recursos Naturais da TU Braunschweig e do Centro de Pesquisa, Educação e Aplicação em Resíduos Urbanos (Creed). Outra discussão diz respeito a quais recursos são mais recicláveis. De todos os recursos existentes na natureza, apenas oito são responsáveis por 20% do impacto de carbono, 95%, do uso de água e 88%, de ocupação de aterros sanitários. Desses oito recursos, 34% vão para moradia e 33%, para o setor de alimentação, diz Iritani.

Outro relatório, agora da universidade de Harvard, traz um dado interessante que pode ser associado a esse novo modelo de economia.  Ele destaca que as empresas mais inovadoras não focam somente no cliente, focam também nos stakeholders – pessoas ou empresas com interesses na companhia, como fornecedores, universidades, institutos de pesquisa, por exemplo, e que podem ser afetadas, positiva ou negativamente, pelos movimentos da empresa. “Não são apenas os clientes que têm a percepção de valor, muitos stakeholders contribuem para a qualidade de seus produtos”, fala Iritani.

Sair de um mundo linear, onde a empresa olha apenas para seu processo, seus elementos, suas atividades e começar a olhar a cadeia e especialmente o ciclo de vida do produto é um desafio muito grande, avalia Iritani.  “Quando uma empresa desenvolve o design de um produto ela passa a não ficar preocupada somente com a produção olha também para o impacto que o produto terá no meio ambiente”, explica o engenheiro. “A empresa sai da visão de redução de custo para uma visão de geração de valor, passa a olhar para o ecossistema”, completa. Por isso é preciso, diz, que as empresas, o governo e a sociedade olhem para esses desafios.

Desafios

O mesmo relatório da Ellen MacArthur Foundation de 2014 aponta ainda uma oportunidade de trilhões de dólares na economia circular com a geração de empregos, inovação e crescimento econômico, além de permitir a redução do consumo de energia e de resíduos e impactos ambientais. Quantos aos desafios, diz Iritani,o principal não é técnico, não é alta de instrumentos, mas a mudança mental a respeito desse novo conceito. “É enxergarmos essa diferença seja como produtor ou consumidor a economia circular encontrará muita dificuldade para ser implementada, se não houver interação entre as várias cadeias da economia e principalmente mudança cultural”, avalia Iritani.

A Ciclo Verde é um exemplo de sucesso na implementação da economia circular. Segundo Francisco Cesar Tofanetto, gerente de engenharia e utilidades da Lanxess Brasil, “depende muito da empresa ela acreditar que ela pode mudar seu cenário”, diz. A Lanxess é uma empresa químicab global, transcontinental, tem 19 mil colaboradores e mais de 70 plantas em todo o mundo, tem faturamento em torno de 7,7 bilhões de euros, e foi consolidada em 2004. Temos produtos de química básica, de performance, , produtos de alta tecnologia para plástico, para borracha, adtivos e resinas, entre outros. Localizada na cidade de Porto Feliz, interior paulista. A empresa entendeu que o ciclo de sua produção tinha de ser sustentável, que nada tem a ver com renovável”, diz Tofanetto. “Entendemos que a sustentabilidade é quando o ciclo do negócio continua”, explica. A sustentabilidade, continua, garante do início ao fim do ciclo emprego, transporte, impostos e aquilo fica circulando e sem trazer resíduos.