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Seleção brasileira pode interferirn as relações políticas, afirma diretor do Datafolha

Em reunião do Consea nesta segunda-feira (16/06), Mauro Paulino destacou que, nas eleições de outubro, capacidade de organização do Governo Federal pode ser mais avaliada do que o desempenho dos jogadores em campo

Talita Camargo, Agência Indusnet Fiesp 

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Presidente do Conselho Superior de Estudos Avançados (Consea) da Fiesp, Ruy Altenfelder. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Dando continuidade a um debate que tem por objetivo “repensar o Brasil”, foi realizada, na manhã desta segunda-feira (16/06), a reunião do Conselho Superior de Estudos Avançados (Consea) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na sede da entidade, na capital paulista.

De acordo com o presidente do Consea, Ruy Altenfelder, a discussão deu sequência à análise que vem sendo realizada pelo Conselho sobre repensar o Brasil. Assim, o tema central foi “A importância das pesquisas eleitorais – qualitativas e quantitativas – critérios”, apresentado pelo diretor do instituto de pesquisas Datafolha, Mauro Paulino.

Paulino explicou que, desde sua criação, o Datafolha tem como princípio não fazer pesquisas eleitorais para partidos políticos e nem candidatos, mas apenas para veículos de comunicação. “O Datafolha divulga todos os resultados de suas pesquisas eleitorais logo após a sua conclusão. Além disso, temos como preceito a transparência, pois esses resultados influenciam, inclusive, as especulações financeiras na bolsa de valores”, afirmou ao explicar que, ao entender isso, o Datafolha decidiu que também não faria pesquisas para instituições financeiras.

De acordo com Paulino, o estado de ânimo do brasileiro é pessimista. “Pela primeira vez, em 13 anos, a taxa de quem sente mais vergonha do que orgulho de ser brasileiro aumentou significativamente, de 11% para 23%. Mas os que têm orgulho ainda são maioria (74%). E, nesse contexto, o desempenho da seleção brasileira pode interferir de forma inédita nas relações políticas”.

Segundo o diretor, o desempenho da seleção brasileira não influencia, de maneira geral, a decisão do eleitor em relação ao voto para presidente. “Já tivemos o Brasil campeão e o governo eleito, já tivemos o Brasil perdendo e o governo reeleito. Mas nessa Copa, o que está sendo avaliado não é a seleção, mas sim a capacidade de organização do Governo Federal”, explicou.

População dividida
Antes do início da Copa do Mundo da Fifa de 2014, a população estava dividida, sendo que apenas metade apoiava a Copa no Brasil. “Faremos nova medição durante e logo após o evento”, afirmou.

No que se refere à avaliação do Governo Dilma, 74% deseja mudança. “Mas isso não significa que a maioria quer tirar o PT do governo, até porque o desejo majoritário é pela volta de Lula, seguido por Aécio Neves”, explicou.

Outro índice que indica o pessimismo do brasileiro é que se o voto não fosse obrigatório, 57% dos entrevistados não iria votar. “Esse índice representa a maior taxa já existente desde 1994. Temos também a maior taxa de eleitores que são contra o voto obrigatório, 61%”, afirmou Paulino.

Sobre a onda de protestos pelo Brasil, em junho de 2013, o índice era de 81% a favor versus 18% contra. Com a introdução de protestos mais violentos, e participação dos ‘blackbocks’, esse apoio diminuiu, mas ainda tem a maioria, com 51% de a favor, em junho de 2014.  O índice de confiança do brasileiro é de 109 pontos, mas está em queda, já que em março de 2013 era de 148 pontos.

Processos de pesquisa e agilidade na divulgação dos resultados

De acordo com o diretor do Datafolha, qualquer processo de pesquisa envolve uma série de fases comuns: o briefing passado pelo cliente; o planejamento do processo de pesquisa que será aplicada; a coleta de dados (campo); e o processamento dos dados e a análise, que pode ser feita através de um relatório técnico descritivo ou uma apresentação. “O Datafolha sempre disponibiliza no site os relatórios das pesquisas, com a sua interpretação”, explicou.

Paulino informou, também, que esse processo básico envolve quatro atores: o público em geral, que é o universo da pesquisa; o respondente, que é quem representa esse universo; o cliente, que é quem ‘brifou’ a pesquisa; e o pesquisador, que é quem elabora a pesquisa.

Além disso, segundo ele, esses atores são influenciados por quatro variáveis: o cenário de mercado, ou seja, expectativas da econômica de um modo geral; as variáveis situacionais, que envolvem questões políticas e pessoais, por exemplo; as variáveis culturais, como o grau de escolaridade; e as variáveis individuais, que são determinadas pela situação de vida de cada um.

“No caso de pesquisa política, há uma quinta variável: a paixão política”, disse ao explicar que todos esses atores podem ser influenciados pelas questões políticas em que acreditam. “O trabalho do pesquisador é de minimizar esse tipo de influência no resultado. O envolvimento do pesquisador tem que ser, exclusivamente, com a produção de dados neutros e sem influência. E aqueles que leem os resultados da pesquisa devem deixar essa paixão de lado na hora de interpretar os números”, afirmou.

Pesquisas eleitorais de 1989 a 2014 no Brasil

Durante a sua apresentação, Paulino lembrou as pesquisas eleitorais desde o governo Collor (1990 – 1992).

Segundo ele, o governo do ex-presidente Fernando Collor teve o menor índice de avaliação, em contraposição com do ex-presidente Luiz Inácio ‘Lula’ da Silva, que atingiu, em seu segundo mandato (2007 – 2010), 183 pontos. “Lula é o presidente melhor avaliado até hoje, depois da redemocratização do Brasil”, afirmou.

“Nas intenções de voto para presidente nas eleições de 1989, percebe-se que Lula, Collor e Brizola iniciaram a campanha com números muito próximos. Mas, após as propagandas eleitorais na televisão e a campanha de “Caçador de Marajás”, Collor disparou nas pesquisas”, explicou ao destacar que a disputa entre Collor e Brizola foi acirrada durante toda campanha na televisão. “Dá-se uma importância demasiada às pesquisas eleitorais”, afirmou.

De acordo com Paulino, quando Itamar Franco assumiu após o impeachment de Collor, em 1992, sua aprovação era de 152 pontos, mas chegou a uma queda de 46. Porém, com o lançamento do Plano Real, voltou a subir e acabou com 167.  “O Plano Real foi lançado no meio da Copa do Mundo de 1994, mas não teve influência nos resultados das pesquisas. O brasileiro sabe separar bem política do futebol”, afirmou.

“Muitas pessoas dizem que o horário eleitoral gratuito na televisão é quando as coisas se decidem de fato nas eleições, mas nem sempre é assim. Um tempo de TV maior não significa garantia de vitória”, afirmou o diretor ao destacar as eleições de 1994, quando Fernando Henrique Cardoso atingiu o empate com Lula antes do horário eleitoral, sem grandes mudanças  durante esse período.

“O segundo mandato de Fernando Henrique teve uma avaliação ruim para a população. E isso é, certamente, um dificultador para a campanha de Aécio Neves [atual candidato do PSDB à presidência da República], pois ele terá que defender o governo FHC em sua campanha”, explicou.

No que se refere ao governo Lula, Paulino afirmou que único momento em que o ex-presidente ficou negativo nas pesquisas de satisfação foi durante o período do ‘Mensalão’. “Ainda assim seu governo tem uma média de satisfação bastante positiva, a maior desde a redemocratização do Brasil”, destacou.

Eleições presidenciais 2014

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Diretor do Datafolha, Mauro Paulino, durante encontro do Consea da Fiesp. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Para as próximas eleições à presidência da República, o diretor do Datafolha alertou para a alta taxa de intenções de votos brancos e nulos. “É algo a se prestar atenção”, alertou ao informar que o índice atual é o ‘mais alto da história’, sendo de 27% no Estado de São Paulo e de 32% e na capital paulista. “Esse último índice é superior à taxa dos dois principais candidatos, Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB).”

De acordo com Paulino, nessa eleição em específico, é importante separar os brancos e nulos dos indecisos. “O eleitor que vota branco e nulo é aquele que quer protestar, que tem nível de escolaridade mais alto, reside nos grandes centros e que foi mais exposto aos problemas causados nas últimas manifestações. Os indecisos têm escolaridade mais baixa, são majoritariamente mulheres e vivem em pequenas cidades do interior”, afirmou.

Tripé Econômico
Paulino explanou que, atualmente, a taxa percentual da população que acha que a inflação vai aumentar é recorde: chega a 64% dos brasileiros, o que, segundo ele, é uma taxa pessimista. Já o percentual dos que acreditam que o poder de compra vai aumentar, vem diminuindo, atingindo os 38%.

“Segurança no emprego é um dos principais pilares de satisfação do governo e é a taxa com maior variação, sendo que, atualmente, está nos 48%. É um dado a se prestar atenção, pois, atualmente, a taxa é mais pessimista do que otimista”, disse.

De acordo com o diretor, esses números são mais negativos no estado e na cidade de São Paulo. “Isso confirma um dado de que a insatisfação está concentrada nos grandes centros urbanos e na renda familiar mensal maior do que cinco salários mínimos”, explicou.

Em relação à avaliação da situação econômica do país, houve um crescimento significativo de 28% para 36% em relação aos que acham que vai piorar. “Esse é um cenário claro da diferença entre os otimistas e pessimistas, entre os que têm esperanças e os que têm medo”.