Declaramos ser protecionistas, mas na prática não somos, diz Mario Bernardini

Questão está nos serviços, afirma empresário durante reunião do Conselho Superior de Economia da Fiesp, em que falou também sobre desenvolvimento

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

Em reunião nesta segunda-feira (14 de maio) do Conselho Superior de Economia da Fiesp (Cosec), o empresário Mario Bernardini, membro do Conselho, criticou a proposta de redução de tarifas feita pelo Governo. Segundo Bernardini, a indústria brasileira não é fechada. O problema, explicou, está nos serviços, que não atingem 5% de fluxo de comércio.

Na segunda parte da palestra, sobre desenvolvimento, Bernardini disse que a receita para um país se desenvolver está na história econômica, que mostra que começou e coexistiu com a industrialização e com o uso amplo, geral e irrestrito de políticas protecionistas e intervencionistas por parte de seus governos.

Números abertos

Sem a divisão por setor, o Brasil é um país fechado, mais do que Argentina, Estados Unidos, Colômbia, Venezuela, México e outros, disse Bernardini. Só que a indústria não é fechada. Em média, considerando que a indústria exporta cerca de 20% de sua produção, o fluxo de comércio fica próximo de 40%, o que a coloca na média dos países considerados. Em serviços o fluxo fica perto de 5% do PIB, o que é muito baixo. Quase não existe exportação de serviços, afirmou. A questão é como se abrem os serviços, não a indústria.

Bernardini explicou que a abertura de 2007 a 2014 foi provocada pelo câmbio. De 2011 a 2014 a perda anual de vendas no mercado interno para as importações foi de US$ 100 bilhões, mais US$ 50 bilhões de exportação de manufaturados. A partir de 2003, o aumento do consumo foi suprido totalmente pelas importações, devido ao câmbio supervalorizado.

Nos anos 90, com abertura e certa necessidade de competir as empresas terceirizaram a área de serviços; a perda de mão de obra industrial foi efeito estatístico da transferência de mão de obra. Não se alterou a produção física por empregado, destacou.

Segundo Bernardini, as razões para a redução de tarifas apontadas pelo governo não se sustentam. Em relação à redução de custos industriais como insumos, componentes e serviços, o efeito é muito baixo que o estimado. Não haveria aumento da competição no mercado interno, porque não há margem para inovação. Será difícil também haver ganhos de escala, e o aumento do fluxo em mercados nos quais somos competitivos acabaria se dando só em produtos como a soja.

Reunião do Conselho Superior de Economia da Fiesp com palestra de Mario Bernardini. Foto: Helcio Nagamine/iIesp

O peso da indústria

Na segunda parte da palestra, sobre desenvolvimento, disse que a receita para uma país se desenvolver está na história econômica, que mostra que começou e coexistiu com a industrialização e com o uso amplo, geral e irrestrito de políticas protecionistas e intervencionistas por parte de seus governos.

Livre comércio e livre mercado nunca foram adotados por países ricos durante seu processo de desenvolvimento e portanto não podem ser apontados como causas disso.

O livre mercado, o Estado mínimo e as privatizações são defendidos por neoliberais para reduzir ineficiência e corrupção dos políticos, com a regulação passando a ser feita por agências “autônomas”, mas isso acaba trocando a regulação feita por eleitos pela feita por burocratas que pertencem ao mesmo meio político, na avaliação de Bernardini.

O conselheiro destruiu mitos como o “empreendedorismo” das pessoas como motor do desenvolvimento e sobre a Suíça ter se desenvolvido sem industrialização.

Lembrou que na fase em que o Brasil estava se industrializando, de fins da década de 1960 à década de 1980, a renda crescia acompanhando o crescimento da participação da indústria no PIB.

Bernardini destacou que não há evidência histórica da existência de instituições ser o motor do desenvolvimento. Elas parecem ser mais causa que consequência, afirmou.

Ajuste fiscal é necessário, mas não suficiente, segundo Bernardini. Precisamos, defendeu, de medidas que estimulem o crescimento (que acaba ajudando no ajuste fiscal).

Produção leva ao desenvolvimento. É preciso, disse, haver sistema de produção complexa e sofisticada, com serviços de qualidade, instituições, educação de qualidade (a Coreia do Sul investiu em educação simultaneamente à criação de empregos industriais). O Brasil exporta por ano 21.000 profissionais de ponta. Precisamos, defendeu, gerar demanda para inverter a conta, e importar engenheiros.

Ser protecionista ou defensor do livre comércio não deveria depender de escolhas ideológicas, e sim do estágio de desenvolvimento do país. Defendeu que se eleja a produção como a ferramenta prioritária e indispensável ao desenvolvimento do Brasil.

Delfim Netto, presidente do Cosec, elogiou a apresentação de Bernardini, baseada em evidências empíricas, destacou. “Mostrou aspectos que estão escondidos nos números”, disse. E acrescentou que quando houve o boom de exportações, dobrou a participação brasileira no fluxo de comércio nos produtos industriais, com crescimento de 15% ao ano das exportações dos manufaturados. Havia uma produção sofisticada.

Renato Corona, gerente do Departamento de Economia, Competitividade e Tecnologia da Fiesp, defendeu que haja equilíbrio em ambiente competitivo, isonomia, instrumentos de política que tragam a indústria para a contemporaneidade. A redução de alíquotas em setores não expostos já reduziria a tarifa média brasileira, explicou, mas não do jeito proposto pelo governo. E, frisou, é preciso atacar a questão da escalada tarifária.

Na mesa principal da reunião também estavam Paulo Francini, vice-presidente do Cosec, e Antonio Carlos Teixeira Alvares, 3º diretor financeiro da Fiesp e vice-presidente do Conselho Superior de Inovação e Competitividade da entidade.