Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp discute custos de produção e Plano de Safra - FIESP

Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp discute custos de produção e Plano de Safra

Reunião do Cosag inclui também apresentação do livro A Economia da Pecuária de Corte

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

André Pessôa, diretor da consultoria Agroconsult, fez nesta segunda-feira (17 de julho) a palestra Custos de Produção, durante reunião do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp (Cosag), do qual é integrante. Ressaltou que há grande dificuldade para acompanhar os custos de produção devido ao tamanho e à diversidade do setor agropecuário. Desde outubro de 2016, quando da última divulgação da Conab, não há referência pública disponível sobre custo.

Não há problema sério de custos, mas é difícil formar uma base de dados primária confiável. E se os custos não são conhecidos, é complicado definir a venda, afirmou Pessôa.

O presidente do Cosag, Jacyr da Costa Filho, destacou a capacidade de André Pessôa na análise de custos. É de uma complexidade enorme fixar custos, disse.

A safra 16/17 foi a primeira, segundo Pessôa, em que o custo parou de subir para a soja Intacta (transgênica), e nesta safra está caindo. A queda mais acentuada é em defensivos. Fertilizantes também caem, exceto na Bahia, porque no ano passado a quebra levou a uma queda na demanda.

Para o milho segunda safra a expectativa é de custo mais alto. Para o milho verão, queda. No algodão, também se projeta redução de custo. Há fatores favoráveis para a cultura, disse. Está num momento bom, depois de quatro anos ruins e um 2016 trágico.

Para a cana também se projeta redução do custo de produção.

Pessôa explicou o conceito de custo do pacote de troca (insumos x preços esperados), por exemplo, na soja, em sacas/pacote. Para a soja a relação era desfavorável no primeiro trimestre de 2016, mas o preço do produto melhorou depois.

Destacou a impossibilidade de calcular a produtividade da soja para o ano que vem, porque ainda não houve a plantação, mas a análise da tendência mostra que deve ser um pouco menor. Deve haver redução de margens em 2018.

O quadro do milho é completamente diferente, sendo necessário o dobro de milho para pagar o pacote de insumos que no ano passado, o que deve levar a uma redução na área plantada.

O algodão tem grande margem, com ótima produtividade na atual safra, o que deve cair um pouco na próxima safra. Fator positivo é que 40% da colheita já foi vendida no mercado futuro.

Preços e logística

Em 2017, disse o diretor da Agroconsult, o cloreto de potássio está mais caro que no ano passado. E houve diferença significativa no frete entre janeiro e julho. O mesmo vale para a ureia. Há uma variação enorme, conforme a época de compra, explicou.

O volume de fertilizantes deve atingir 35 milhões de toneladas neste ano, com entrega mais acentuada no segundo semestre (no primeiro, houve queda de 0,4%). Espera-se volume 20% maior para a soja, mas ainda não houve a compra.

Dois ou três meses este ano a entrega deverá ser superior a 4 milhões de toneladas em cada, o que deve provocar complicações na logística. Há estoque e crédito, disse. “Faltava preço”, explicou Pessôa. “A relação de troca estava desfavorável.”

Ele ressaltou a curva de aumento do número de aplicações de fungicidas. E muda ao longo do tempo o princípio ativo usado, com preços que variam muito. O impacto sobre os custos é significativo, disse. Vale o mesmo para os inseticidas. No caso da soja Intacta, a nova tecnologia não cortou o uso de inseticidas.

Soja (convencional e transgênicos RR e Intacta), milho (alta e média tecnologia, para safra e safrinha), algodão (primeira safra e segunda), cana (planta e soca), café (mecanizado e não mecanizado), trigo, arroz irrigado e de sequeiro são as atividades cobertas pela Agroconsult. E ainda há o acompanhamento da pecuária.

É feita uma divisão regional, não necessariamente correspondendo aos Estados. Os dados são coletados a partir do acompanhamento de safra, de consultas a bases de dados públicas (como IEA, Deral e Conab), o IC-Agro, da Fiesp e da OCB, e do Rally da Safra.

Itens como sazonalidade de compras são levados em conta. Também a moda, o tamanho mais frequente das propriedades. Custos como os de software de gestão precisam de melhor levantamento, disse Pessôa. Os custos administrativos variam muito, explicou, e por isso não são considerados pela Agroconsult.

Plano de Safra

Tarcísio Hübner, vice-presidente de Agronegócio do Banco do Brasil, também participou da reunião do Cosag, para apresentar o Plano de Safra.

O compromisso de crédito para esta safra é de R$ 103 bilhões, contra R$ 72 bilhões, mais R$ 10 bilhões, na safra anterior. E a liberação mostra diferenças animadoras, disse. O primeiro semestre teve pouco menos de R$ 12 bilhões em crédito no BB. Todas as linhas estão abertas, destacou. E o banco vem investindo muito em tecnologia e relacionamento, afirmou. Houve, explicou, simplificação de processos e idas a campo para divulgar as linhas.

Estamos atentos a este modelo de crédito que está vencendo, afirmou. Recursos externos e opções estão entre as possibilidades de mecanismos a estimular para o progresso do agronegócio, disse.

Para a safra 2017/18, dos R$ 103 bilhões que serão liberados para o Plano Safra, R$ 14,6 bilhões irão para a agricultura familiar, R$ 15,5 bilhões, para médios produtores, R$ 61,4 bilhões, para a agricultura empresarial e R$ 11,5 bilhões, para o crédito agroindustrial.

Há R$ 72,1 bilhões para custeio e comercialização e R$ 19,4 bilhões para investimentos. Houve redução média de 1 ponto para a agricultura empresarial, sendo mantidas as taxas para a agricultura familiar.

Houve redução do prazo de desembolso das operações de custeio, para 14 meses. Também caiu, de 74% para 65%, a exigibilidade de poupança rural. Hübner considera preocupante a vedação da utilização de recursos dos depósitos à vista para operações de comercialização, investimentos e industrialização.

Também foi adotado um limite global por CNPJ para tomada de crédito rural no Sistema Financeiro Nacional para recursos controlados (depósitos à vista e poupança equalizada).

Outra novidade para esta safra é que as empresas cerealistas foram incluídas como beneficiárias dos programas de armazenagem.

Consolidação

Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e ex-presidente do Cosag, destacou o tema da concentração na agricultura. “Não há nenhum setor hoje que não tenha passado pela concentração”, disse, atribuindo o fato à globalização. O assunto, em sua análise, é muito grave. Rodrigues citou a possibilidade, mencionada na reunião, de 1 milhão de pecuaristas (5 milhões de pessoas) saírem do negócio devido a sua baixa produtividade. O problema social é muito sério. “A única saída é a cooperativa”, afirmou.

Jacyr da Costa Filho explicou o papel da Tereos, que preside, como consolidadora de cooperativas. Esse é um processo inexorável, disse.

Reunião do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

 

Pecuária sob análise

Ivan Wedekin, conselheiro do Cosag, falou na reunião sobre seu recém-lançado livro “A Economia da Pecuária de Corte”. A obra, explicou, surgiu para ser referência bibliográfica, para ser usada em cursos de graduação e pós. Em sua primeira parte dá visão geral da cadeia produtiva da carne bovina. Na segunda parte se aborda a economia propriamente dita da pecuária de corte. Há uma análise da concentração da indústria de abate e processamento, feita a partir de estudos do Cade. A conclusão é de que há nível moderado de concentração.

Os fatores determinantes da demanda de carne bovina são também alvo do livro. Em seguida a análise recai sobre a oferta. O crescimento de apenas 0,5% ao ano mostra problemas, disse.

A análise de 100 anos da indústria frigorífica no Brasil mostra que a concentração no setor se deu em período de alta dos preços do boi, diferentemente do que ocorreu nos EUA, em que a situação foi inversa. Os grandes desníveis de tecnologia na produção pecuária tornam o preço do boi acima do que deveria para o setor se manter competitivo.