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Celso Mori analisa na Fiesp eleição 2018

Advogado destaca papel da emoção no voto

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

A reunião de 20 de agosto do Conselho Superior de Estudos Avançados da Fiesp (Consea), presidido por Ruy Martins Altenfelder Silva, teve como tema as eleições deste ano, em apresentação a cargo de Celso Cintra Mori, sócio do escritório Pinheiro Neto e conselheiro do Conselho Superior de Assuntos Jurídicos e Legislativos da Fiesp (Conjur).

Mori destacou que o cenário político-eleitoral é sempre volátil. O primeiro pressuposto é que a incerteza faz parte da análise até o último minuto. Deu como exemplo o que aconteceu a Fernando Henrique Cardoso, que aparentemente ganharia as eleições municipais de 1985. Uma pergunta sobre a existência de Deus em um debate na TV e uma foto precipitada, e a eleição foi por água abaixo.

Segundo Mori, toda eleição é altamente emocional e remotamente racional. Política é fundamentalmente um processo emocional. O fervor a que se adere a um partido ou candidato pode ser tão intenso quanto aquele dedicado a um time de futebol.

A principal emoção que mobiliza o eleitor é a esperança. Faz de cada candidato um ídolo, um mito. “Nós colocamos no candidato as qualidades que ele tem e as que gostaríamos que tivesse.” Outra emoção é o medo – por exemplo de perda de patrimônio ou de destruição de valores. O eleitor luta contra o candidato de quem tem medo. “Há também o ódio”, disse, lembrando que a internet despersonalizou a crítica. O ódio na internet é ferramenta para desqualificar o outro. Houve intensificação do ódio como elemento de decisão política.

Isso gera sentimento de impotência na população, ligado à descrença, à perda da esperança, levando muitos dos eleitores ao voto branco, nulo ou à abstenção. “Há um desacreditar na possibilidade da eleição como um processo de renovação política.” Isso, explicou, contribui para manter as coisas como estão. As pessoas se acomodam, e a desgraça acontece, permanece.

Diante das dificuldades mais insuperáveis o ser humano se volta à fantasia. Dos heróis, dos semideuses, a quem tudo é permitido. Vícios –que não são censurados- e virtudes são projetados neles. E eles são exaltados por seus feitos, não pelas virtudes. O reflexo disso na política é a existência de quatro fantasias mitológicas claras e uma mais difícil de diagnosticar.

Uma é o sebastianismo. O lulismo crê que D. Sebastião não morreu em batalha e vai voltar para salvar Portugal. O lulismo acredita que a volta de Lula vai reconstruir as condições históricas, econômicas e políticas de 2002 e 2003, em grande parte resultantes de governos anteriores.

Outro candidato [Bolsonaro] é recebido aos gritos de “mito”. É reconhecido explicitamente como mito. É a projeção de uma fantasia que alivia nossas angústias. E um candidato se autointitula mito.

O populismo na realidade é o mito de satisfação de todas as necessidades e de todos os anseios populares, mesmo que antagônicos e que não haja recursos para isso.

E há também o misticismo. Um vídeo de Marina Silva na internet a mostra caminhando na selva amazônica e dizendo que esta campanha começou há muitos séculos, quando nasceram as árvores à sua volta. Representa uma deusa surgindo da floresta para resolver os problemas. Não há propostas, porque no misticismo, diferentemente de no mito, o que vale não é o líder, é o sentido de comunidade, que precisa ser pura, não pode fazer alianças espúrias

Temos também, segundo Mori, “a ira de Zeus”. Um candidato [Ciro Gomes] que age com a vontade de um coronel. Mostra voluntarismo, tendência a achar que merece confiança porque disse que sabe resolver os problemas. A comparação com Zeus surge porque quando se dirige a qualquer um que divirja dele há um trovão, uma carga elétrica de agressividade.

Temos também um candidato [Alckmin] que não deveria estar no círculo da mitologia, mas se insere na questão da emoção. Demonstra estoicismo e apatia. É capaz de alta precisão ao listar estatísticas, mas não emociona. Não fala de professor e de aluno ao desfiar estatísticas de educação. Não comove, não emociona. O mesmo em relação à segurança. Não consegue transmitir emoção, empatia.

Eleição é processo emocional. Quem não dominar as emoções não ganha as eleições. Só que há também um apelo à razão. O eleitor precisa analisar o curso e o discurso dos candidatos, checar o que fizeram e o que dizem.

Sob o ângulo da racionalidade também é preciso considerar as intenções dos candidatos e os recursos disponíveis no país para realizá-las.

Promessas como tirar todos os brasileiros do SPC precisam ser comparadas à realidade. A promessa de ordem e progresso tem que ser analisada também. Que ordem se quer, e o que é o progresso pretendido?

Ponto destacado por Mori é que alguma ordem é necessária para o país poder ser governado. É preciso haver entendimento entre os Poderes. Governabilidade precisa ser organizada. É questão extremamente racional. É o exercício de uma energia em direção a determinado rumo a partir de negociações que possam aprimorar o destino e evitar os obstáculos.

O que, perguntou Mori, é pretendido ou deveria ser pretendido numa campanha eleitoral? Diminuir a distância entre a emoção e a razão, separar o que é possível do que não é. Uma campanha deveria levar o eleitor do universo de crenças para o de conhecimento.

Teremos nesta eleição como fator muito importante a competição entre rádio e TV de um lado e mídia eletrônica do outro, disse Mori. Há diferenças substanciais entre elas. Na internet os iguais falam para os iguais. “Prega-se para os convertidos.” Tende a ser um discurso de radicalização, de sedimentação de posições emocionalmente fortes, em que não há diálogo –no sentido de oposição de desiguais, de debate.

Mori destacou o papel fundamental do jornalismo na eleição, lembrando que a objetividade total não é possível. O eleitor deve ter seu espírito crítico desenvolvido graças à educação.

São completamente diferentes as regiões brasileiras. Sul quase fleumático como os europeus. No Norte e Nordeste os sentimentos são transmitem de forma diferente da feita no Sul e no Sudeste. A linguagem do político tem que ser diferente conforme a região. O universo de emoções completamente diferente inviabiliza alguns candidatos no Nordeste e no Norte.

Nesta eleição há também um fator que se torna mais importante que nas anteriores, que é a diferença de perspectiva de mulheres e homens. Bolsonaro causa de forma acentuada temores e repulsa no universo feminino. E elas são 52% do eleitorado.

No primeiro turno predomina a esperança, com um pouquinho de rejeição. Vota-se por gostar das ideias, pela esperança de que o candidato faça o que o eleitor quer. No segundo turno se vota um pouco por esperança, mas muito mais por medo.

Reunião do Conselho Superior de Estudos Avançados da Fiesp com a participação de Celso Mori. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Reunião do Conselho Superior de Estudos Avançados da Fiesp com a participação de Celso Mori. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Vai para o segundo quem conseguir despertar mais fortemente essa questão da esperança, incluindo o mito e a fantasia; quem tiver em torno de 18%. “Acho que Bolsonaro vai para o segundo turno, porque tem hoje determinado contingente de apoiadores que estão empolgados com o mito, que não leem as mídias tradicionais e se guiam por si mesmos; dificilmente poderão ser descontruídos em 45 dias.”

Alckmin irá para o segundo turno se caminhar da razão para a emoção, acredita Mori.

Ciro Gomes tem representação na esquerda e uma história na administração pública que não é assustadora, mas revela no discurso um traço de personalidade que pode levar medo ao eleitor. Tem pouco tempo nas mídias tradicionais e pouca verba.

Haddad enfrenta a questão fundamental de Lula se considerar insubstituível e não querer ser substituído. Há resistência a Haddad dentro do lulismo. E precisa decidir se vai falar por si –e ser considerado traidor por alguns lulistas- ou ser ventríloquo de Lula. Se disser que casso eleito vai anistiar Lula, há o risco de transformar a eleição num plebiscito a respeito da libertação do ex-presidente.

Marina teve o rompimento com vários de seus apoiadores desde a última eleição. E ela não aponta rumos, algo que um líder precisa fazer.

Caso o segundo turno seja de Alckmin contra Bolsonaro, a centro-esquerda tende a apoiar o tucano, e a centro-direita, seu adversário.

Em cenário de Bolsonaro e Ciro, serão dois com comportamento explosivo, que acreditam que balas e armas resolvem problemas sociais.

E se Bolsonaro enfrentar Haddad, vai ser um dilema muito grande para muita gente. Um é previsível e indesejável, e o outro também imprevisível e quase tão indesejável quanto. Vai ser um exercício para os que queiram o voto consciente de listar prós e contras, decidir de quem se tem menos medo.

Se a disputa ficar entre Marina e Bolsonaro, ela pode ganhar graças ao voto feminino.

Alckmin X Haddad reeditaria as refregas de PSDB com PT.

É difícil, por causa da pulverização de votos, mas não impossível que alguém se eleja no primeiro turno.

“Não sabemos quem vai ganhar as eleições, mas sabemos com certeza, infelizmente, que dentro de alguns meses nós todos estaremos frustrados”, disse Mori. Ou terá sido eleito alguém que levará o Brasil a um salto no escuro, no vazio, ou alguém que fará mais do mesmo, que não resolverá vários dos problemas estruturais que temos, afirmou.

No Congresso, caminha-se para uma reeleição. Teremos por alguns tempos os mesmos oligarcas, com os mesmos costumes, dominando o Congresso, com algum grau de renovação, mas quanto só o tempo dirá. Mori destacou também a falência dos partidos políticos no Brasil. “Partido político no Brasil está desenhado para não dar certo.”

Depois da frustração precisamos pensar na reconstrução, disse Mori, em como construir o país para nossos filhos e nossos netos.

Altenfelder destacou a qualidade e a profundidade da palestra de Mori. Acrescentou que a partir de 31 de agosto, com o início do horário eleitoral, os comerciais dos candidatos -dependendo do tempo e da inteligência com que forem criados- vão influir muito no voto do eleitor.