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Brasil precisa destravar financiamento climático, dizem especialistas

Agência Indusnet Fiesp

O financiamento às empresas voltado ao desenvolvimento de ações para a mitigação e adaptação de sistemas e processos às mudanças climáticas ainda é um desafio no Brasil. Entre os principais motivos estão as fontes de crédito. “O financiamento ambiental é de muito interesse do setor industrial, que tem grande expectativa em relação à migração para uma economia de baixo carbono, mas hoje o grande problema encontrado pela pequena e média indústria é como e onde acessar as linhas de crédito voltadas para esse fim”, diz Mário Hirose, diretor-adjunto do Departamento de Meio Ambiente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). “Temos mais de 100 mil indústrias, entre pequenas e médias, no Estado de São Paulo para as quais essa conversão geraria um ganho espetacular”, completou o executivo durante workshop sobre finanças climáticas, realizado na sede da Federação.

Hirose lembra que essas linhas de financiamento, conhecidas como linhas verdes, são importantes não apenas para a troca de tecnologia dessas empresas, mas para que elas gerem tecnologia, “Precisamos ser geradores de pesquisa e desenvolvimento nessas novas tecnologias também. Não podemos apenas ter tecnologias embarcadas, importadas, mas financiar, incentivar, direta ou indiretamente, e para isso precisamos de recursos com taxas competitivas”, afirmou, lembrando que outro problema está nos valores financiados. “Sabemos que empréstimos com valor inferior a R$ 10 milhões vindos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), montante considerado elevado para uma pequena ou média empresa, somente são conseguidos por meio dos agentes financeiros autorizados pelo BNDES, que cobram altas taxas”, diz.

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Com o tema as finanças climáticas para empresas, Fiesp reúne em sua sede representantes do BNDES, de bancos, além do Departamento do Meio Ambiente da Federação. Foto: Hélcio Nagamine/Fiesp

Rafael Stein, da área de Meio Ambiente do BNDES, diz que o banco vem desembolsando em torno de R$ 15 bilhões ao ano para a economia verde. Número que, segundo ele, vem crescendo, mas que ainda representa menos de 20% dos desembolsos totais feitos pela instituição. “Ainda é um montante pequeno perto do que não é economia verde e o desafio que temos hoje é como alavancar esse número, como fazer com que ele cresça”, disse Stein no evento da Fiesp.  A captação de recursos, segundo o diretor do banco, é um dos entraves a serem resolvidos, diz. “O BNDES estuda hoje como sair da dependência dos recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e do Tesouro e como podemos buscar mais dinheiro no mercado internacional”. Stein conta que há alguns anos que o banco já vem tomando empréstimos com organismos internacionais de países como Alemanha e Japão, por exemplo. “Já conseguimos mais de US$ 2 bilhões em captação de linhas verdes com esses bancos”, diz. Especialmente por meio dos green bonds, os títulos verdes.

Os green bonds permitem que empresas, bancos de investimento e, mais recentemente, alguns governos, captem recursos voltados ao financiamento de projetos com impacto ambiental. Mas para resolver o problema do financiamento ambiental, diz Stein, será preciso que o banco encontre outros instrumentos financeiros que resolvam o problema atual do risco embutido nos projetos das empresas. “Um estudo recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estimou em torno de US$ 6 trilhões ao ano o investimento em infraestrutura, portanto temos de pensar como vamos superar as barreiras e conseguir alavancar esse investimento”, diz o diretor do BNDES.

Annelise Vendramini, pesquisadora do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGV), ressaltou que as mudanças climáticas já fazem parte do ambiente econômico brasileiro e por isso é necessário repensar os modelos produtivos e econômicos, em especial no que diz respeito aos financiamentos. “Para que essa mudança aconteça é necessário juntar vários atores econômicos, porque a economia do século 22 será voltada para o baixo carbono e o Brasil tem um papel a desempenhar nessa nova economia”, diz Annelise. “Temos todas as condições de operar nessa nova economia”, completa.

A pesquisadora da FGV destacou ainda a necessidade de os investidores do mercado de capitais, sejam asset manager, fundos de pensão ou outros dialogar com suas empresas investidas, falar sobre os riscos envolvidos para uma transição para a economia de baixo carbono. O objetivo, diz Annelise, é o de que as empresas passem a relatar como estão lidando com as mudanças do clima, como está a governança, quem cuida do tema dentro da empresa, e assim, facilitar a obtenção de financiamentos verdes no mercado.

Maria Eugênia Taborda, gerente de sustentabilidade no Itaú Unibanco, lembrou que o financiamento climático “é um grande desafio”. “Precisamos entender os entraves, porque estamos há alguns anos falando sobre o clima e como mitigar os impactos negativos sobre o meio ambiente, mas precisamos lembrar que o tema não é comum nem familiar a todos. Portanto, é preciso trabalhar o tema dentro das empresas de maneira que elas identifiquem as oportunidades de forma rápida”, fala.

Luiz Xavier, coordenador do Grupo de Trabalho (GT) Energia e Clima, da Rede Brasil do Pacto Global, falou do incentivo do GT às empresas engajadas a serem protagonistas na discussão de temas como mitigação, adaptação, precificação de carbono, aumento da participação de energias renováveis no Brasil e outros temas. “Nosso objetivo é trazer o tema para dentro das empresas, tentando gerar um pouco mais de formação e conhecimento e, assim, ente der os entraves no financiamento climático”, diz.