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Brasil precisa acelerar o passo para implementar a Indústria 4.0, diz professor da USP

Convidado pelo Decomtec, Eduardo Zancul levou para o segundo encontro do Grupo de Trabalho da Indústria 4.0, na Fiesp, as experiências da Alemanha e dos EUA

Roseli Lopes, Agência Indusnet Fiesp

Dando continuidade à proposta de elaborar um plano estratégico nacional para a implementação no Brasil da Indústria 4.0, a chamada Quarta Revolução Industrial, e da Manufatura Avançada, o Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp (Decomtec) realizou em sua sede o 2º encontro do Grupo de Trabalho da Indústria 4.0 (o GTI 4.), criado em julho e coordenado pelo Ministério de Desenvolvimento, Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC).

Enquanto em países como a Alemanha, onde o conceito 4.0 nasceu, e nos Estados Unidos a quarta revolução industrial já é uma realidade, o Brasil ainda caminha a passos lentos em direção a essa transformação, na opinião do professor Eduardo Zancul, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) e convidado do MDIC e da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) para apresentar as experiências da Indústria 4.0 em outros países como uma forma de agregar esforços e mover a roda da indústria 4.0 no Brasil, diz.

“O objetivo é trazer para a mesa de discussão exemplos de medidas já adotadas em outros países que possam ser olhadas pelo Brasil não como um diagnóstico, mas como uma provocação, para que resultem em um inventário de iniciativas e se transformem em uma agenda”, diz José Ricardo Roriz Coelho, diretor do Departamento de Competitividade e Tecnologia (Decomtec) da Fiesp.

É justamente olhando para as experiências internacionais que o Brasil, segundo o professor Zancul, está atrasado na adoção de melhorias inerentes ao conceito de indústria 4.0. Um exemplo está na Manufatura Digital, um dos pilares da 4.0 que permite às empresas aumentar a eficiência e a lucratividade do negócio, mas ainda novidade no Brasil e assim com baixa adesão das empresas. Com ela, produtos, processos e recursos são modelados a partir de dados reais, mas em uma fábrica virtual, reduzindo-se com isso custos e o ciclo de desenvolvimento de um produto, além de melhor qualidade do produto.

Mais produtividade

Zancul explica que o estudo sobre as experiências alemã e estadunidense, elaborado pela ABDI e apresentado na Fiesp durante o 2° encontro do GTI 4, identificou que os programas de manufatura avançada têm um papel prioritário hoje naqueles dois países.  “O foco nesses mercados é elevar a produtividade e atrair investimentos externos, além de manter os empregos qualificados usando a infraestrutura de pesquisa e conhecimento para impulsionar a manufatura e reter o conhecimento ligado à produção de bens de alto valor agregado”, diz o professor.  Ele reforça o fato de que, nesses dois países, os programas de manufatura avançada ocupam posição prioritária nas políticas governamentais. Na Alemanha o programa está sob a responsabilidade do governo, batizado de Plataforma Industry 4.0. Nos EUA, se está montando uma rede de centros de pesquisa e manufatura.

Segundo Ricardo Roriz, do Decomtec, a discussão de uma proposta brasileira deve ser elaborada em cima de três eixos tidos como fundamentais nesse processo: o eixo da geração de tecnologia, o eixo do mercado de trabalho e eixo da regulação.  “O aumento da produtividade é o benefício mais esperado com adoção da Indústria 4 .0 pelas empresas brasileiras”, diz Roriz. Ele ressaltou, no entanto, como um dos entraves a serem resolvidos o problema do financiamento para as empresas. “As alternativas de financiamento aqui praticamente secaram e a troca agora da TJLP (a Taxa de Juros de Longo Prazo), hoje usada para corrigir os empréstimos liberados pelo BNDES, pela TLP (Taxa de Longo Prazo) deixará o crédito ainda mais caro”, diz.

Para o diretor do Decomtec, há, hoje, no Brasil, total desconexão com a realidade de outros países, onde o custo do crédito é inferior ao custo do mercado financeiro, fator que incentiva as empresas a investir dentro de sua produção em detrimento do mercado de capitais, situação, lembra o executivo, inversa ao que se vê no Brasil, onde muitas empresas preterem o capital produtivo ao investimento no mercado financeiro. “O mercado financeiro suga os recursos que poderiam estar sendo aplicados na indústria, no seu crescimento”, diz. “Somos cobrados pelo aumento de produtividade, mas aumento de produtividade exige investimento em infraestrutura, em máquinas, equipamentos e principalmente em modernização”, diz Roriz.

Na mesma linha de pensamento, Sergio Paulo Gallindo, presidente da Brasscom, Associação Brasileira das empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação, diz que, hoje, “o Brasil tem  um problema de funding que precisa ser resolvido com urgência e o papel do MDIC é fundamental nessa travessia”. O conceito 4.0, assim como a Manufatura Digital, exigem tecnologias avançadas, que demandam investimentos por parte das empresas. Está aí, na opinião de Gallindo, um dos entraves. “Sem investimento em tecnologia, o país vive hoje uma desorganização do tecido produtivo”. Mas sem crédito, as empresas não têm como investir mais, avaliou. E sem o investimento em inovação, o país não terá a chance de desenvolver a Indústria 4.0, completou.

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Experiência de outros países pode servir para Brasil montar sua agenda para a Indústria 4.0. Foto: Helvio Nagamine/Fiesp

Adaptações

Rafael Moreira, assessor especial para a Indústria 4.0 do MDIC, são necessárias várias adaptações para que o Brasil adote a quarta revolução industrial. Dentro da proposta do governo federal no âmbito da quarta revolução industrial, diz Moreira, há uma enorme preocupação em relação à informática, além das questões envolvendo a tributação.

Carlos Eduardo, da Aliança Brasileira da Empresa Inovadora em Saúde (ABIIS) falou da necessidade de se ter um monitoramento completo de quais centros de tecnologia brasileiros podem ser capacitados para aderir a essa onda da indústria 4.0. Também citou a regulação que se está preparando para essa nova realidade das empresas. a insegurança jurídica foi outro ponto abordado no encontro como prioridade de solução para que empresas invistam em novas tecnologias. “Quando se fala em avançar em manufatura é preciso lembrar que temos uma série histórica de 30 anos que, a cada crise, declinamos no faturamento, no emprego e na retomada do crescimento.

Atenta ao problema, a Fiesp, em parceria com o Senai-SP, levará o conceito para discussão em dezembro  durante o 1º Congresso Brasileiro de Manufatura Avançada, com a participação de especialistas brasileiros e estrangeiros, informou Roriz. Além de palestras e exposição de tecnologias que possam servir de parâmetro para as discussões em torno da implementação do conceito no Brasil de forma mais efetiva, vários workshops regionais sobre o tema serão realizados em parceria com a ABDI e o Senai.

Com o intuito de provocar a discussão sobre o tema, cadernos sobre a quarta revolução industrial serão divulgados, assim como vídeos educativos que estarão disponíveis em um hotsite da Fiesp. “Com estas iniciativas esperamos contribuir para a retomada da indústria brasileira no contexto da quarta revolução industrial”, explica Roriz. O GTI 4.0 tem ainda a participação do MEC, do MCTIC, do Ministério da Fazenda, do Ministério do Trabalho e Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos, além do BNDES, do Finep, do Embrapii, CNPq e CAPES. Pelo setor privado participam a CNI, o Senai e o Sebrae.