Amazônia dá exemplos e oferece recursos, mostram especialistas na Fiesp

Simpósio de Bioeconomia aponta desafios e oportunidades para a agricultura sustentável na região

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

Amazônia e Agricultura Sustentáveis foi o tema do Simpósio de Bioeconomia da Fapesp, Fiesp e Ciesp realizado nesta sexta-feira (29 de setembro). Rodrigo Rocha Loures, presidente do Conselho Superior de Inovação e Competitividade da Fiesp (Conic), abriu o evento ressaltando a enorme importância do tema para o Brasil, a América do Sul e o mundo. O trabalho realizado nos últimos dois anos, afirmou, mostra que há o envolvimento até simbiótico entre o desenvolvimento sustentável da Amazônia e o agronegócio brasileiro.

O grande desafio para o Brasil é como responder ao desafio de fornecer alimentos para o mundo sem sacrificar a floresta amazônica e outras. O agronegócio brasileiro, afirmou, precisa de aumentos dramáticos de produtividade.

A preservação da floresta é imperativa para manter o regime de chuvas em toda a América do Sul.

Walter Lazzarini, presidente do Conselho Superior do Meio Ambiente da Fiesp (Cosema), ressaltou o momento oportuno de discutir bioeconomia e Amazônia. “A região é para nós um pouco mística”, disse, distante fisicamente do Sudeste, mas presente no coração. Tudo que acontece na Amazonia é alardeado, para o bem ou para o mal. “Está no momento de quebrar um tabu, o da preservação da Amazônia”, que, afirmou, não é uma realidade. Cabe, disse, aos empresários industriais paulistas e de todo o país esta grande tarefa de procurar, e conseguir, fazer o desenvolvimento sustentável da Amazônia, para mudar essa imagem muito ruim que o Brasil tem no mundo todo.

Roberto Paranhos do Rio Branco, vice-presidente do Conic, lembrou a ocupação sem planejamento da Amazônia, destacando o desafio representado por sua preservação. O Brasil ainda tem o ônus, mas não tem o bônus de saber usar a Amazônia. “Nossos indígenas sempre praticaram uma agricultura sustentável, melhor do que ninguém poderiam ter áreas de agricultura sustentável na Amazônia que seriam referência para o mundo.”

Abertura do Simpósio de Bioeconomia – Amazônia e Agricultura Sustentáveis. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

 

No primeiro painel do simpósio, “Tecnologias para produtividade agrícola disruptiva”, Roberto Rodrigues, presidente do Centro de Agronegócio da FGV/EESP e membro do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp (Cosag), destacou que agronegócio é um pedaço significativo da bioeconomia. A amplitude do tema exige coordenação, inclusive com um marco regulatório, com pouca burocracia e corporativismo, que permita a atividade.

Rodrigues listou diretrizes de um estudo recém-publicado sobre a exploração sustentável da Amazônia, mas disse que falta ali a questão da estrutura fundiária. “Sem saber de quem é a terra, como dar crédito?” Rodrigues disse ter convicção de que o casamento da moderna agricultura com a bioeconomia é essencial para manter a competitividade brasileira.

Rodrigo Lima, diretor geral da Agroícone, disse que a discussão do desmatamento é essencial para entender como fazer a expansão sustentável na Amazônia. Destacou que 69 milhões de hectares do território amazônico, 22% de seu total, pertencem à União sem ter destinação nenhuma, não integrando parques, áreas de preservação etc.

É preciso, defendeu, mostrar o que é legal e ilegal no desmatamento, e para isso é importante o papel do cadastro rural.

E o Estado brasileiro precisa fazer a regularização fundiária.

A área de vegetação secundária, de 17 milhões de hectares, deveria ser urgentemente ter destinação. E há a questão das pastagens, de produtividade baixíssima, ocupando 49 milhões de hectares. “Isso tem que acabar ou tem que melhorar, porque não faz sentido do ponto de vista ambiental nem econômico, mas é uma questão social.” Há, em sua avaliação, uma oportunidade enorme de aumentar a produtividade, com integração pecuária-floresta.

Os recursos da biodiversidade têm enorme potencial e podem ajudar na preservação. “Temos que sair do potencial e ir para a prática.”

“Uma nova Biocivilização é possível?” foi o tema da apresentação de João José Passini, consultor do diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional.

Ricardo Rodrigues Mastroti, mestre em biomimética e sócio da Bemtevi, Investimento social, fez a apresentação “Produtividade agrícola inspirada em ecossistemas biológicos”.

Wilson Nobre, conselheiro do Conselho Superior de Inovação e Competitividade da Fiesp (Conic) e professor da FGV-EAESP, moderador do primeiro painel do simpósio, destacou a esperança no mundo de que o Brasil forneça alimentos saudáveis. Foi para mostrar a importância de olhar para o que a natureza oferece que foi inserido em cada painel um exemplo de biomimética, explicou.

O painel 2 teve como tema Amazônia: florescendo seu maior potencial para a humanidade. Foi moderado por Roberto Aloísio Paranhos do Rio Branco, vice-presidente do Conic e presidente da Câmara de Comércio Brasil-Índia. O painel apresentou quatro casos de desenvolvimento da região a partir dos ativos amazônicos, em termos de insumos naturais, inteligência embarcada nos processos da natureza e serviços ecossistêmicos de importância para o Brasil e o mundo.

Ana Luiza Vergueiro, sócia-proprietária da empresa Econut, explicou o processo de domesticação da castanha do Brasil na Agropecuária Aruanã, iniciada em 1981. Hoje há uma minifloresta de 1,3 milhão de castanheiras, das quais 300.000 para colheita de frutos. É um cultivo orgânico. Seu produto, afirmou, atende às demandas atuais do mercado mundial, mas ele ainda não é exportado.

Guilherme Moraes, diretor financeiro da Sambazon, explicou que mais de 90% do fruto do açaí é o caroço, que precisa ser descartado. Para evitar a geração de resíduos, parte dos caroços alimenta as caldeiras da Sambazon e parte vai para olarias, evitando o corte de árvores que seriam usadas como lenha. Ele fez a apresentação “Caso do Açaí: Criação e captura de valor com impacto positivo”.

“Projeto Amazônia: Formação de cadeia de valor com Inovação na floresta” foi o tema da palestra de Ronaldo Freitas, gerente de Sustentabilidade de Desenvolvimento Local da Amazônia da Natura. Disse que o processo ensinou várias lições à empresa, entre as quais a necessidade de contato direto com as comunidades. Entre os desafios da SBD destacou a alta carga tributária sobre produtos florestais não madeireiros e a precária infraestrutura de produção e logística.

Alessandra Araújo, mestre em biomimética, diretora sócia na GCP Arquitetura & Urbanismo, fez a apresentação “A biodiversidade amazônica inspirando o design”. Mostrou diversos exemplos de soluções naturais, encontradas em animais e plantas, que podem inspirar estruturas e produtos.

Mesa do painel “Casos exemplares: Empreendedorismo tecnológico para o agronegócio”. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

 

Empreendorismo

Eduardo Giacomazzi, diretor titular adjunto do Comitê da Cadeia Produtiva da Saúde e Biotecnologia da Fiesp (ComSaude), moderou o terceiro painel do simpósio. Com o tema “Casos exemplares: Empreendedorismo tecnológico para o agronegócio”, o painel reuniu startups e profissionais que têm foco no impacto positivo e no aumento radical da produtividade, mostrando exemplos de tecnologias voltados a alavancar a produtividade agrícola e a sistematização de processos em rede para ecossistemas empreendedores.

Giacomazzi explicou a tentativa de construir um chamado para a ação com a série de simpósios de bioeconomia, que começou com um sobre Cidades e prosseguiu com o de agricultura, havendo um terceiro ainda a ser realizado.

As palestras do painel foram:

“Redes vivas na autogestão de pessoas e processos”, a cargo de Ana Carolina Freitas, cofundadora do Biomimicry Brasil Network e CEO do Napkintalk.

“Solos saudáveis inspirados em sistemas vivos”, por Giane Brocco, fundadora do Biomimicry Brasil e diretora executiva da Mercobor.

“Nowcasting, tempo e clima para a agricultura”, apresentação de Takao Miyata, CEO da Oráculo Meteorologia.

“Produtividade com foco no meio ambiente aquático”, de  Daniel Ruffato, diretor Executivo da Salt Ambiental.

“Fertilizantes nitrogenados formulados com biocarvão”, apresentação de Aline Peregrina Puga, pós-doutoranda da Embrapa Meio Ambiente e parceira da Carbosolo.

“Biotecnologia aplicada ao agro”, feita por Rafael Vicente de Pádua Ferreira, diretor executivo da Itatijuca Biotech.