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‘Acredito na vitalidade e na liberdade das dinâmicas artísticas’, diz crítico Alexandre Melo

Professor português foi um dos convidados do evento InteligênciaPontoCom nesta segunda (22/09)

Ariett Gouveia, Agência Indusnet Fiesp

Arte contemporânea foi o tema do InteligênciaPontoCom desta segunda-feira (22/09), realizado no Teatro do Sesi-SP, na Avenida Paulista. O convidado da noite foi o português Alexandre Melo, que é crítico de arte, professor, curador e escritor e também colaborador regular da revista Artforum (NY).

Ele foi entrevistado pelo artista plástico Paulo Climachauska e pelo fotógrafo e publicitário Vicente de Mello, responsável pelo setor de documentação fotográfica das exposições da Coleção Gilberto Chateaubriand que integram o acervo do Museu de Arte Moderna (MAM/RJ).

No mês em que São Paulo recebe a 31ª da Bienal de Arte, os debatedores falaram sobre os atuais dilemas dos artistas contemporâneos e a nova geografia do mundo das artes.

“Com a globalização, começamos a nos sentir na obrigação de ver o mundo da arte como o mundo todo mesmo. Quando eu comecei a trabalhar nessa área, há 20 anos, quando se falava em mundo da arte, metade dos artistas eram americanos, 30% eram europeus e o restante se dividia entre os outros países. Hoje isso mudou”, afirmou Melo, que também é assessor cultural do Primeiro-Ministro de Portugal.

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Da esquerda para a direita: Alexandre Melo, Vicente de Mello e Paulo Climachauska. Foto: Beto Moussalli/Fiesp


No entanto, a globalização da arte, segundo ele, também traz problemas. “Os organizadores das Bienais vivem esse drama de ‘como vamos mostrar a arte de todo esse mundo?’. É preciso mostrar de uma forma justa, pertinente e compreensível aquilo que se faz no Ártico, no Extremo Oriente, na América Latina, na África. Será que isso é possível?”, questionou o convidado estrangeiro.

Para ele, a nova geografia da arte vai implicar em uma nova história, para recuperar as histórias esquecidas da arte mundial. “Terão que surgir novas formas de organizar exposições, de escrever a história da arte e, aos poucos, resolver esses problemas.”

Indústria cultural

Climachauska propôs uma reflexão sobre a influência da indústria cultural na arte, que teve, a partir dos anos 80, um avanço crescente no campo da cultura.

“Nesse processo, a liberdade de criação do artista acaba sofrendo interferências”, disse o artista plástico, citando o caso dos músicos que não podem escolher capa de seus discos ou ordem das músicas, que são decisões empresariais.

Na opinião de Melo, se um artista aceita produzir obras que vão ser colocadas no mercado para serem vendidas, ele sabe que está trabalhando em um contexto com regras econômicas que regem o conjunto da sociedade. Só o artista pode tomar a decisão final.

“O artista está condenado a ser livre, porque ninguém lhe diz o que ele tem que fazer”, provocou o português. “Mas se ele suporta mais ou menos pressão, aceita fazer coisas que ele não iria fazer para ganhar dinheiro, é um problema dele. No limite, a decisão é sempre do artista.”

Ainda assim, Melo disse defender que essa pressão do mercado seja compensada pela ação de poderes públicos e instituições, que não podem repetir as escolhas do mercado. “Por isso é importante ter uma política cultural ativa e um movimento pró-ativo das instituições para preservar a pluralidade, a diversidade, a liberdade de experimentação.”

Política e arte

Falando sobre a importância das políticas públicas, o fotógrafo Vicente de Mello questionou por que a cultura é o elo mais fraco durante as gestões públicas. “Mesmo sendo uma base tão forte, a cultura sempre é a que tem o corte maior de verba, fica relegada ao terceiro plano. Isso é mundial?, questionou.

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"A capacidade de exercício da liberdade, da imaginação, da invenção artística, social e cívica são infinitas", disse Alexandre Melo. Foto: Beto Moussalli/Fiesp

O crítico português respondeu, então, que, com a crise europeia, a cultura também tem sofrido com a falta de políticas públicas consistentes. “Infelizmente, há uma tendência nos governos, inclusive na Europa, de desvalorizar a política cultural, o que pode ter consequências dramáticas em termos de futuro.”

Alexandre Melo também colocou em pauta a chamada “geração nem-nem” (nem estuda e nem trabalha), para avaliar o quanto isso impacta na formação de novos artistas e no desenvolvimento da arte contemporânea.

Mesmo sem conhecer a realidade brasileira, o crítico comentou que há uma incapacidade, em todo o mundo, de sistematização política do descontentamento e das reivindicações.

“Tivemos manifestações no Brasil e em outros lugares do mundo, como as Primaveras Árabes. Acompanhamos a capacidade de mobilização das redes sociais. Por que, então, é impossível gerar um líder político ou uma organização cívica forte?”, perguntou. “Há uma incapacidade imensa de gerar organicamente um pensamento político que consiga traduzir todos esses sentimentos na esfera real e efetiva do poder.”

Mas o professor português disse ter fé no poder da cultura e da arte. “Acredito na vitalidade, na alegria e na liberdade das dinâmicas culturais e artísticas”, declarou.

“As novas gerações certamente irão fazer coisas novas, na arte e em outras áreas. A capacidade de exercício da liberdade, da imaginação, da invenção artística, social e cívica são infinitas. Podemos acreditar que essa liberdade vai continuar a gerar novas soluções e novas formas de ultrapassar problemas.”

Assista abaixo o vídeo na íntegra deste InteligênciaPontoCom:


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