No Teatro do Sesi-SP, palavras viram ‘luz’ em apresentação para pessoas com deficiência

11/04/2014

Parceria com Associação Amigos Pra Valer promove sessão com audiodescrição do espetáculo “A Madrinha Embriagada”

Juan Saavedra, Agência Indusnet Fiesp

Sábado, cinco de abril, quatro da tarde. Quando as luzes se apagam e o ator Edgar Bustamante entra no palco para encarnar o Homem da Poltrona, protagonista do espetáculo “A Madrinha Embriagada”, 90 pessoas da plateia ficam bem atentas às palavras que saem de seus fones de ouvido.

Plateia se encantam com a audiodescrição do espetáculo no Teatro do Sesi. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

 

Tal qual tradução simultânea, esse grupo – parte dos mais de 450 espectadores que lotam o Teatro do Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-SP) – escuta a narração de Livia Motta.

Da voz da especialista brotam informações, em tempo real, sobre tudo o que acontece no palco: os gestos dos atores, suas roupas, de que modo eles se movimentam, as mudanças de cenário e muito mais.

Livia Motta fazendo a narração do espetáculo. Foto: Helcio Nagamine/FIESP

Esse serviço é chamado de audiodescrição, recurso de acessibilidade que aumenta o entendimento de pessoas com deficiência visual em espetáculos e produtos audiovisuais.

“É um recurso muito importante para que eles tenham uma dimensão completa do espetáculo. Um musical é uma obra grandiosa, que tem cenário, figurino, tudo com uma riqueza muito grande de detalhes. E se não for a audiodescrição, eles vão perder tudo isso”, comenta Livia, doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Livia trabalha nessa atividade desde 2005. E a cada espetáculo se sente realizada de poder prestar esse serviço. “Para nós é a melhor parte ver as pessoas com deficiência visual rindo [das piadas das peças] e se emocionando junto com as outras pessoas.”

A iniciativa de agregar a audiodescrição em peças no Teatro do Sesi-SP é resultado de uma parceria entre a instituição e a Associação Amigos Pra Valer, fundada e coordenada por José Vicente de Paula, de 57 anos.

“A gente adora cultura. Vamos mostrando com isso que somos pessoas normais. A gente vibra com tudo”, assinala Vicente.

“Sem audiodescrição eu vou aproveitar 60%, que é o texto. Só que a gente perde todo o movimento de palco, os figurinos, o movimento de entra e sai, a troca de roupa. A audiodescrição é uma ilustração, completa os 100%”, explica.

Renato Leal, outro espectador com deficiência visual, detalha os momentos em que essa facilidade tornou melhor sua compreensão do espetáculo: “Quando eles entraram no avião; quando a Jane ficou na cama, que foi embutida; quando o Aldolpho pensou que estava fazendo amor com a noiva, mas estava fazendo amor com a madrinha da noiva. E outros mais.”

Mesmo tendo acompanhado outros musicais, a analista de gestão de pessoas Roseli Garcia, 41 anos, ficou encantada com  apresentação de “A Madrinha Embriagada” encenada no primeiro sábado de abril (05/04).

“As palavras bem entonadas são como luz. Ganham sentido naquele momento. É uma forma de poder assistir ao espetáculo e poder me incluir diante de todo o público”, resume Roseli.

O ator Edgar Bustamante guarda elogios para a experiência de apresentar-se para esse público. “Muito gostoso, muito tocante, perceber a reação deles, no final, todo mundo chorando.”

Segundo ele, o espetáculo com direção de Miguel Falabella mostra sua capacidade de arrebatar qualquer público. “Não tem diferença nenhuma. A gente tem que estar sempre pronto para agregar todo tipo de público, sem preconceito, sem qualquer tipo de discriminação. A gente fazendo com verdade, vontade e alegria certamente vai tocar todo mundo que estiver por perto.”

Depoimentos

Mario Luis Brancia, de 52 anos, agente de gestão – “É mais uma experiência de verdade da cultura inclusiva, em que todas as pessoas vão estar juntas e depois poder comentar. Por mais que a peça seja musical, a gente precisa dos detalhes, os gestos que ocorrem durante o espetáculo, como as pessoas estão vestidas, o movimento da dança. É um espetáculo de muita música e se a gente só ouvir, vai apreciar? Vai, mas fica pela metade. Fica incompleto. O recurso da audio descrição veio para verdadeiramente completar.”

Marilene Rodrigues de Paula, professora aposentada – “Estão incluindo a gente de igual para igual. A gente assistiu da mesma maneira, aproveitou da mesma maneira que eles aproveitaram. Foi sensacional. O Sesi-SP está de parabéns.”

Francisco Salvino Carvalho dos Santos, 16 anos, estudante – “Com a audiodescrição, a gente tem bastante noção do que está acontecendo.”

Roseli Garcia, 41 anos, analista de gestão de pessoas – “O espetáculo me deu muita alegria. O espetáculo é muito inteligente e muito alegre. É um espetáculo que não te cansa. O Sesi-SP tem muita iniciativa valiosa, tem muito valor. Leva as pessoas a assistir aquilo que não podem assistir.”

José Vicente, 57 anos, fundador e coordenador da associação Amigos Pra Valer – “O Sesi-SP, para mim, é um parceiro. É muito bom aqui por ser muito acessível, ao lado do metrô.”