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ENTREVISTA: EMPRESAS COMO ALIADAS NA REDUÇÃO DAS DESIGUALDADES SOCIAIS


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Por Karen Pegorari Silveira

A primeira diretora executiva da organização OXFAM brasileira, Katia Drager Maia, comenta sobre os dados do último relatório publicado pela instituição este ano e sugere como as empresas podem ajudar na redução das desigualdades sociais.

Segundo ela, é importante que as empresas busquem incluir temas como desigualdade, direitos humanos e desenvolvimento sustentável nas suas políticas e compromissos corporativos e, principalmente, na prática das suas operações.

Saiba mais na íntegra da entrevista:

O último relatório da OXFAM, intitulado “Uma economia para os 99%” e publicado em janeiro de 2017, constata que as grandes empresas tiveram receita superior à de 180 países juntos e que elas constituem a força vital de uma economia de mercado. Tal relevância torna o setor empresarial peça indispensável na construção de um mundo mais equitativo. De que forma este segmento pode contribuir na redução das desigualdades sociais e no desenvolvimento sustentável?

Katia Maia – As empresas têm papel chave na redução das desigualdades, como apontamos em nosso relatório (www.oxfam.org.br/davos2017). A ampliação da transparência com relação à questão tributária, em especial os benefícios fiscais, as isenções e o uso de paraísos fiscais, é urgente. O apoio à mudança para um ambiente competitivo, mas com justiça fiscal, atuando junto às autoridades governamentais para diminuir a sonegação, a evasão e a elisão fiscal também é uma contribuição esperada daqueles empresários que querem ver a redução das desigualdades. Hoje, existem práticas de planejamento tributário que, apesar de não serem ilegais em si, deterioram o ambiente de negócios e comprometem a capacidade de arrecadação dos governos, afetando, por consequência, a execução de políticas públicas essenciais para garantir o acesso da população a direitos universais, como saúde e educação. Uma outra ação das empresas se refere às condições de trabalho. É importante que as lideranças empresarias garantam o pagamento de salários dignos e condições adequadas de trabalho a seus colaboradores. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que 21 milhões de pessoas no mundo são trabalhadores forçados, sem direitos, que geram cerca de US$ 150 bilhões em lucros anualmente para empresas.

O documento aponta que as recompensas geradas pelas empresas não são compartilhadas e que, na verdade, elas estão cada dia mais beneficiando, predominantemente, os ricos. Porém, no caso do Brasil, os salários reais dos 10% mais pobres da população aumentaram mais que os pagos aos 10% mais ricos entre 2001 e 2012. Quais políticas adicionais as empresas devem incorporar para oferecer salários e oportunidades mais justas aos seus colaboradores?

Katia Maia – O nosso relatório anterior, de 2016, mostrava que, em termos proporcionais, os salários dos mais pobres aumentaram mais. Mas, quando analisamos os números absolutos, o aumento correspondente aos mais ricos foi maior. Ao compararmos os dados de 1988 e 2011, ainda que a renda dos 50 por cento mais pobre tenha mais do que dobrado, a diferença de renda em termos absolutos entre estes e os 10% mais ricos praticamente dobrou. Este pequeno gráfico é ilustrativo.

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É importante que as empresas reduzam a diferença salarial entre o maior e menor salário dos colaboradores. O diretor executivo da maior empresa de informática da Índia ganha 416 vezes mais que um funcionário médio da mesma empresa. Um diretor executivo de qualquer empresa do índice FTSE-100 ganha em um ano o mesmo que 10.000 pessoas que trabalham em fábricas de vestuário em Bangladesh. São exemplos chocantes. E não é só isso. A diferença salarial entre homens e mulheres no mundo é brutal. O próprio Fórum Econômico Mundial, em seu relatório sobre gênero lançado no ano passado (Global Gender Gap Report), afirma que serão necessários 170 anos para que homens e mulheres recebam salários equivalentes em todo o mundo. Ainda que muitas empresas possuam “políticas” de equidade salarial, a constatação estatística dos quadros das empresas revela outra prática, como o Instituto Ethos demonstra em seu estudo sobre as 500 maiores empresas do Brasil https://www3.ethos.org.br/wp-content/uploads/2016/05/Perfil_Social_Tacial_Genero_500empresas.pdf. No caso brasileiro, ainda podemos somar a essa desigualdade a questão racial. O mesmo estudo do Instituto Ethos aponta como as maiores empresas do Brasil ainda estão muito defasadas nesse aspecto. Ou seja, existem exemplos e mais exemplos no mundo que mostram que já não se trata mais de crescer o bolo para depois distribuir. A riqueza mundial nunca alcançou níveis tão altos. Na mesma proporção que a desigualdade extrema nunca foi tão ofensiva à nossa civilização.

Há exemplos de sucesso observados em todo o mundo, e citados no relatório, que já demonstram modelos de negócios socialmente responsáveis que sejam ao mesmo tempo comercialmente viáveis [com lucro suficiente] e alguns desses modelos são de empresas. Pode nos contar a respeito destes exemplos e como companhias no Brasil podem se espelhar neles?

Katia Maia – Sim, existem modelos positivos. É importante que as empresas busquem incluir temas como desigualdade, direitos humanos e desenvolvimento sustentável nas suas políticas e compromissos corporativos e, principalmente, na prática das suas operações. É necessário que esses compromissos estejam integrados na governança e nos sistemas de gestão – com indicadores, estrutura e orçamento. Se não houver essa integração será difícil alcançar mudanças.

As empresas sociais, citadas no documento, já são realidade em diversos países, como no Reino Unido, que emprega quase um milhão de pessoas. Você acredita que este tipo de modelo de negócio é viável no Brasil? Quais operações deste modelo de negócio poderiam ser implementadas nas empresas do país?

Katia Maia – As empresas sociais são um modelo interessante. Existem exemplos no Brasil. É um modelo que inovou. Porém, não necessariamente esse é um modelo que serve para todas as empresas. O fundamental é que as empresas entendam que ter uma atuação responsável e comprometida com a construção de um país menos desigual e sem discriminações é também importante para o seu próprio business.

Os governos e as empresas de 193 Estados-Membros da Organização das Nações Unidas (ONU) adotaram formalmente a Agenda 2030 composta pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). No que tange aos Objetivos 1 e 10 – Erradicação da Pobreza e Redução das Desigualdades, qual o papel destas organizações para o alcance de tais metas?

Katia Maia – A ONU possui orientações e diretrizes específicas para as empresas com relação aos direitos humanos, as quais devem ser aplicadas. Um dos primeiros passos trata da transparência e da responsabilização sobre os atos empresariais. Mas as empresas podem ir para além dos princípios e diretrizes da ONU. Enfrentar a desigualdade extrema é um desafio premente. O Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, o Fórum Econômico Mundial e várias outras instituições internacionais e multilaterais estão alertando para as distorções do sistema. Não estamos falando de quantos carros ou apartamentos as pessoas mais ricas têm. Estamos chamando a atenção para o fato de que hoje o 1% mais rico da população tem a riqueza equivalente aos 99% restantes; que 8 homens têm a riqueza equivalente aos 3,6 bilhões das pessoas mais pobres do mundo. E a tendência é seguir concentrando. Como não assumirmos o compromisso de mudar essa realidade? E para que isso aconteça, o setor empresarial precisa participar.

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