Entrevista: Como incentivar o consumo e produção responsáveis no Brasil

Por Karen Pegorari Silveira

O Prof. Dr. Weber Amaral, especialista em economia circular da ESALQ-USP, sugere como é possível contribuir com o consumo e produção responsáveis e ajudar a atingir a meta 12 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Para ele, o Brasil tem uma grande oportunidade para reduzir perdas no pós-colheita e as empresas uma excelente oportunidade para atrair clientes mais conscientes com uma comunicação transparente.

Leia Mais na íntegra da entrevista:

O ODS 12 discorre sobre a produção e o consumo responsáveis e incentiva as empresas a adotar práticas sustentáveis e a divulgar suas informações de sustentabilidade. Porém, no Brasil mais de 96% das empresas são de pequeno e médio porte, as quais não têm o hábito de comunicar suas ações neste tema. Em sua opinião, como essas empresas podem comunicar suas práticas em sustentabilidade de forma simples e clara, e qual a importância dessa divulgação para a estratégica do negócio?

Weber Amaral – Hoje com acesso “quase” universal as mídias sociais e canais digitais para comunicação, estas PMEs podem se utilizar destes canais para comunicarem as suas ações, a partir de criação de narrativas claras e voltadas para seus públicos específicos. Negócios que conseguem demonstrar e divulgar estas ações tendem a atrair mais clientes e também serem mais efetivos.

Reduzir pela metade o desperdício de alimentos per capita mundial também é uma importante meta deste ODS, já que cerca de 30% de tudo o que é produzido no mundo é desperdiçado e perdido antes de chegar à mesa do consumidor. Quais ações deram certo em outros países e quais ações são necessárias para que o Brasil colabore com este objetivo?

Weber Amaral – Para que possamos entender melhor este problema de desperdício de alimentos, seria importante contextualiza-lo.

Por exemplo, identificarmos onde estão estas perdas? Em quais elos da cadeia de alimentos? No campo? No transporte do campo até as unidades de armazenamento ou processamento? No transporte do alimento pronto para consumo? Ou na ponta final da cadeia: associado ao comportamento dos consumidores?

As maiores variações de perdas dos alimentos não estão nos números gerais entre os países, mas sim nas porcentagens de perdas dentro de cada elo da cadeia de cada pais. Por exemplo no Brasil, temos uma grande oportunidade para reduzir perdas no pós-colheita, envolvendo a logística do campo para a indústria, onde temos os maiores gargalos.

O Brasil produz em média 387 quilos de resíduos por habitante por ano, quantidade similar à de países de primeiro mundo como Croácia e Hungria por exemplo, mas só destina corretamente pouco mais da metade do que coleta (58%), enquanto esses países trabalham com taxas mínimas de 96%. De acordo com sua experiência o Brasil pode conseguir alcançar a meta 12.5 do ODS, que sugere, até 2030, reduzir substancialmente a geração de resíduos por meio da prevenção, redução, reciclagem e reuso? Como isso seria possível?

Weber Amaral – O Brasil poderá atingir a meta estabelecida para 2030. A adoção dos fundamentos da Economia Circular pode ser uma excelente estratégia para buscar esta meta, trabalhando no desenho para a circularidade dos produtos, reduzindo as perdas já no desenho dos produtos (prevenção), e em seguida, reduzindo as perdas nos processos de fabricação (redução do volume gerado) e posteriormente reutilizando e reciclando volumes menores que os atuais por ciclo do produto gerado. Porem necessitamos de habilitadores que fortalecem práticas de logística reversa, manufatura, reciclagem e em especial, desenho para circularidade, dentro de um contexto de políticas públicas de suporte e não punitivas.

Como é possível garantir que as pessoas, em todos os lugares, tenham informação relevante e conscientização para o desenvolvimento sustentável? É papel do setor empresarial, do governo ou da sociedade como um todo? Qual a melhor forma de transmitir informações sobre sustentabilidade e mudar a mentalidade de uma população, e quais iniciativas têm dado certo neste sentido?

Weber Amaral – Precisamos garantir que o tema da mudança dos atuais modelos econômicos lineares e não sustentáveis se tornem “virais”, e “contaminem” o dia a dia das pessoas, dos profissionais, crianças e futuros profissionais. A primeira mudança passa pela mudança de comportamento e da mentalidade. Desta forma todos os setores da sociedade estariam comprometidos com esta transição, com mudanças que afetem os padrões de produção lineares e consumo não consciente.

Ha vários exemplos de melhores práticas em diferentes segmentos da indústria brasileira, em diversas regiões e cidades, sendo que estes processos de mudança vêm ocorrendo deste a Rio 92, e em muitas áreas e segmentos, o Brasil tem papel de liderança em práticas e projetos inovadores, economicamente viáveis e de impacto social e ambientalmente transformadores.